Giuliana e Alexandre, filhos do ministro Moraes, tiveram limite de R$ 300 mil nos cartões de crédito

O banqueiro Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, autorizou a emissão de cartões de crédito com limite de R$ 300 mil para cada um dos filhos do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A informação foi publicada pelo Estadão e surgiu a partir de mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Vorcaro, apreendido durante a Operação Compliance Zero. Os cartões foram destinados a Giuliana e Alexandre Barci de Moraes, filhos do ministro com a advogada Viviane Barci de Moraes.
Segundo as informações divulgadas pelo Estadão, a solicitação dos cartões partiu do escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane. O pedido foi tratado diretamente com Vorcaro pelo administrador da banca, Guilherme de Toledo Benazzi, em uma conversa registrada em 2 de outubro de 2025. Na ocasião, o escritório mantinha uma relação comercial com o Banco Master por meio de um contrato de prestação de serviços que chegava a R$ 131 milhões.
O episódio ganhou repercussão porque a autorização ocorreu poucas semanas antes da prisão de Vorcaro, realizada em 18 de novembro de 2025, no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. As mensagens analisadas pela PF mostram que o assunto foi levado ao próprio banqueiro, que encaminhou o contato de uma executiva do Master para que a solicitação fosse conduzida. Depois disso, a funcionária procurou Vorcaro para confirmar se poderia seguir com a emissão dos cartões, e ele respondeu afirmativamente.
Como Vorcaro autorizou os cartões
A conversa começou quando Guilherme de Toledo Benazzi procurou Daniel Vorcaro para tratar especificamente dos cartões destinados a Giuliana e Alexandre. O administrador do escritório Barci de Moraes pediu ao banqueiro um contato que pudesse cuidar da questão, e Vorcaro encaminhou o número de Adriana Solano, então superintendente executiva comercial do Banco Master. A partir desse encaminhamento, a solicitação passou a ser tratada diretamente com uma representante da instituição financeira.
Horas depois, Adriana Solano voltou a falar com Vorcaro para confirmar os detalhes da operação. Segundo as mensagens reveladas pelo Estadão, ela informou ao banqueiro que Guilherme havia entrado em contato para emitir cartões para os filhos de Viviane Barci de Moraes e indicou que o limite seria de R$ 300 mil para cada cartão. Diante da pergunta sobre se poderia prosseguir, Vorcaro respondeu apenas com um “ok”, autorizando o procedimento conforme o conteúdo da conversa.
Dessa forma, os dois cartões representavam, somados, um limite de crédito de R$ 600 mil, embora a existência de um limite elevado não signifique que esse valor tenha sido efetivamente gasto. O próprio escritório Barci de Moraes afirmou, em nota, que os cartões foram oferecidos pelo Banco Master, mas jamais foram utilizados por qualquer advogado ou pessoa do escritório. Essa distinção é importante porque a emissão e a disponibilização de um cartão não comprovam, por si só, que compras ou pagamentos tenham sido realizados com o crédito disponibilizado.
Relação entre Vorcaro e o escritório Barci de Moraes
A revelação ocorreu em meio a uma série de informações sobre a relação comercial entre Daniel Vorcaro e o escritório Barci de Moraes. A banca, dirigida por Viviane Barci de Moraes, havia firmado com o Banco Master um contrato que previa pagamentos milionários pela prestação de serviços jurídicos. O caso passou a ser analisado com atenção depois que documentos e mensagens encontrados no celular do banqueiro foram incorporados ao relatório elaborado pela Polícia Federal.
O relatório da PF tem 218 páginas e reúne mensagens, registros de chamadas, arquivos e contratos localizados no aparelho de Vorcaro. A investigação foi determinada pelo ministro André Mendonça, relator do caso no STF, com o objetivo de identificar possíveis integrantes de uma rede de influência e monitoramento atribuída ao banqueiro. O documento foi entregue à Justiça em 27 de agosto de 2026 e teve o sigilo retirado em 1º de setembro, permitindo que as informações viessem a público.
Entre os dados analisados também aparecem outras referências à relação de Vorcaro com pessoas próximas a Alexandre de Moraes. A PF identificou, por exemplo, mensagens enviadas pelo banqueiro ao contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”, embora parte das respostas não tenha podido ser recuperada porque algumas conversas utilizaram o recurso de visualização única do WhatsApp. A própria Polícia Federal ressaltou que sua análise não teve caráter exaustivo, pois o trabalho precisou ser concluído em um prazo judicial de 72 horas.
O que dizem os envolvidos
O escritório Barci de Moraes declarou que os cartões oferecidos pelo Master nunca foram utilizados por qualquer advogado ou pessoa ligada à banca. A manifestação também reforça que a simples emissão de um cartão com limite elevado não permite concluir que houve utilização financeira daquele crédito. Até a publicação da reportagem do Poder360, Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e a defesa de Daniel Vorcaro não haviam apresentado manifestação sobre as mensagens específicas relacionadas aos cartões.
A revelação, contudo, passou a integrar o conjunto de informações que vem sendo examinado no contexto da investigação sobre as relações de Daniel Vorcaro com integrantes do Judiciário e pessoas próximas a autoridades. Outros documentos já haviam indicado contatos frequentes entre o banqueiro e Moraes, enquanto metadados apontaram que o ministro editou uma versão de contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório de Viviane. Essas informações, reunidas no mesmo contexto investigativo, aumentaram a pressão política e institucional em torno do caso.
O caso também ganhou dimensão porque as mensagens foram tornadas públicas justamente quando o STF passou a enfrentar uma crise envolvendo o relatório produzido pela PF a pedido de André Mendonça. O presidente da Corte, Edson Fachin, afirmou que o momento exigia especial gravidade e que a integridade do Supremo, a autoridade de suas decisões e a confiança da sociedade precisavam ser preservadas. Enquanto isso, ministros e integrantes de diferentes grupos políticos passaram a discutir os limites da investigação e os possíveis desdobramentos das informações relacionadas a Vorcaro.
A autorização dos cartões, portanto, tornou-se mais um elemento dentro de um conjunto maior de documentos, mensagens e contratos que estão sendo analisados pelas autoridades. A informação publicada pelo Estadão não demonstra, por si só, que os filhos de Moraes tenham utilizado os cartões ou recebido qualquer vantagem financeira efetiva, já que o escritório afirmou que eles nunca foram usados. O que ficou registrado nas mensagens foi que um pedido relacionado aos cartões chegou a Vorcaro por meio do administrador do escritório e que o banqueiro autorizou a continuidade da emissão com limite de R$ 300 mil para cada cartão.





