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Homens armados praticaram tiros contra um alvo que trazia a foto do presidente Lula

Um vídeo divulgado nas redes sociais mostra dois homens praticando tiro contra uma imagem com o rosto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em um clube de tiro localizado na zona leste de São Paulo. Durante a gravação, os homens fazem comentários de conteúdo político enquanto efetuam disparos contra a representação do presidente, e a publicação recebeu a legenda “toma essa picanha”. O episódio foi revelado pela Agência Pública em reportagem publicada nesta quinta-feira, 22 de outubro de 2026.

Nas imagens, um dos homens afirma que Lula “não vai participar da próxima eleição”, enquanto os participantes também dizem “faz o L” e fazem comentários sobre os pontos atingidos pelos disparos. A câmera mostra a figura utilizada como alvo e evidencia marcas de tiros concentradas na região superior da imagem, incluindo a área correspondente à testa. A gravação foi compartilhada em um perfil de WhatsApp atribuído ao empresário Maurício Archangelo, que, procurado pela reportagem, afirmou inicialmente não se lembrar do vídeo e depois deixou de responder aos questionamentos.

A situação ocorreu no Clube e Escola de Tiro 556, estabelecimento situado na zona leste da capital paulista e que já havia sido alvo de uma operação policial em 2023. O proprietário, Vinicius Monteiro Pires Inácio, declarou à reportagem que desconhecia o episódio e afirmou que o estabelecimento permite que clientes levem determinados alvos, desde que sejam caricaturas e não imagens de pessoas reais. Depois de ser procurado, o clube publicou uma manifestação nas redes sociais informando que é expressamente proibida a utilização de imagens de pessoas reais como alvos nas instalações.

Vídeo mostra comentários políticos durante os disparos

A gravação chamou atenção porque a imagem utilizada como alvo não aparece apenas como uma representação genérica, mas reproduz o rosto do presidente Lula. Enquanto realizam os disparos, os homens associam a prática a frases de conteúdo político e fazem referências ao resultado das eleições, criando uma relação direta entre o alvo e a disputa eleitoral. O material, segundo a Agência Pública, permaneceu disponível no status do WhatsApp de Maurício Archangelo quando a reportagem entrou em contato com ele, mas acabou sendo retirado posteriormente.

Archangelo foi identificado pela reportagem como proprietário de empresas na zona leste de São Paulo e também aparece em outras publicações relacionadas a armas e clubes de tiro. Em seu perfil público no Instagram, havia uma fotografia dele em um clube de tiro, além de uma publicação mostrando um bebê com uma arma posicionada na parte posterior da fralda. Questionado especificamente sobre o vídeo contra a imagem de Lula, porém, ele disse não saber do que se tratava e posteriormente bloqueou o contato utilizado pela reportagem para buscar esclarecimentos.

O consultor sênior do Instituto Sou da Paz, Bruno Langeani, avaliou que a conduta pode ser analisada pelas autoridades sob a perspectiva do crime de ameaça, previsto no Código Penal. Segundo ele, o contexto ganha relevância porque envolve pessoas que têm acesso a armas de fogo e porque Lula já foi alvo de episódios de violência política em outros momentos. Langeani também defendeu que a apuração considere não apenas os responsáveis pelos disparos, mas também as circunstâncias em que o clube permitiu que aquele tipo de alvo fosse utilizado.

Clube afirma que imagens de pessoas reais são proibidas

O proprietário do Clube e Escola de Tiro 556 afirmou que os funcionários não autorizam o uso de fotografias de pessoas reais como alvos e explicou que os clientes costumam utilizar imagens de personagens fictícios, como demônios ou o Coringa. Segundo Vinicius Inácio, a regra também vale para pessoas famosas e familiares, embora ele reconheça que não seja possível acompanhar permanentemente tudo o que cada frequentador faz dentro das instalações. Após o contato da reportagem, o clube publicou uma nota reforçando a proibição e mencionando possíveis consequências administrativas, civis e criminais.

O estabelecimento também passou a declarar publicamente que não incentiva nem compactua com atos de incitação ao ódio. Inácio afirmou que possui posições políticas de direita, mas disse separar suas opiniões pessoais da administração do clube e sustentou que pessoas com diferentes posições políticas podem frequentar o espaço. Na semana anterior ao primeiro turno, entretanto, ele havia publicado um vídeo mostrando pessoas usando camisetas de Jair Bolsonaro durante uma prática de tiro, acompanhado de uma legenda relacionada ao domingo da votação.

O histórico do clube também aparece na reportagem como parte do contexto do episódio. Em 2023, o estabelecimento foi alvo de uma operação policial que resultou na apreensão de 38 armas, em uma investigação que envolvia supostas rifas de armamentos e a utilização de armas por pessoas sem treinamento adequado. O proprietário contestou a associação entre essas ocorrências e o episódio atual, enquanto a reportagem registrou que o estabelecimento afirma possuir regras para utilização das instalações.

Caso reacende discussão sobre violência política

O uso da imagem de Lula como alvo não é um episódio isolado na política brasileira. Em 2021, um vereador de Fortaleza foi condenado ao pagamento de indenização por danos morais depois de aparecer atirando contra uma fotografia do presidente, então candidato, e no ano seguinte o PT denunciou à Justiça a utilização de imagens do petista como alvos em clubes de tiro. Esses antecedentes ajudam a explicar por que o novo vídeo voltou a provocar questionamentos sobre os limites entre manifestação política, prática esportiva e possíveis atos de ameaça.

A reportagem também ouviu um cientista político da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que interpretou o episódio como um exemplo do que considera um processo de normalização da violência no ambiente político. Essa avaliação, contudo, é uma análise atribuída ao especialista entrevistado e não uma conclusão judicial sobre a intenção dos homens que aparecem no vídeo. Até o momento descrito na reportagem, o principal esclarecimento institucional foi o do próprio clube, que afirmou proibir expressamente o uso de imagens de pessoas reais como alvos.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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