‘Joguem esse lixo da janela’: agente da PF relata dias de Lula em Curitiba

Durante os 15 minutos de voo de helicóptero que levou Luiz Inácio Lula da Silva do aeroporto Afonso Penna até a sede da Polícia Federal em Curitiba, em abril de 2018, frases duras foram ouvidas pelo agente que o acompanhava. “Joguem esse lixo pela janela” e “Não o soltem nunca mais” teriam sido ditas por pessoas não identificadas, mas prontamente repreendidas pelo comandante da aeronave, que pediu respeito e lembrou que toda comunicação era gravada. Esse é um dos episódios narrados pelo agente da Polícia Federal Jorge Chastalo Filho no livro Banho de Sol — os 580 dias da prisão de Lula, lançado oficialmente nesta terça-feira. O UOL teve acesso com exclusividade aos trechos iniciais da obra de 592 páginas, organizada como um diário cronológico pela editora WMF Martins Fontes.
A preparação para uma prisão que muitos não acreditavam
Chastalo relata que a preparação para receber o então ex-presidente na superintendência da PF durou três dias. “Naqueles dias, não acreditávamos que Lula realmente seria preso”, escreve o autor. Foram elaborados quatro planos de recebimento, embora ele não detalhe quais foram as opções descartadas. Ao chegar à instituição, Lula permaneceu calado, com “fisionomia abatida”, segundo a observação do agente. “Me senti constrangido com a situação”, confessa Chastalo. A cela que o recebeu era simples: cama de solteiro, mesa quadrada de alumínio, cadeira e um armário antigo. Duas janelas com grades tinham aberturas limitadas a apenas dez centímetros, fechadas com correntes. Seus pertences eram poucos: duas calções, uma calça de moletom, três camisetas, chinelo branco e um kit de higiene. Itens como barbeador e cortador de unhas ficaram sob guarda, sendo entregues apenas mediante solicitação.
Cuidados especiais e rotina restrita
No segundo dia de detenção, o agente decidiu não servir a refeição preparada na própria superintendência. Em vez disso, encomendou comida de um restaurante próximo. A justificativa revela a tensão daquele momento: “Não pela qualidade da comida da PF, mas por cuidado mesmo. Imaginei a possibilidade de alguém querer envenenar sua comida”. O primeiro banho de sol só foi permitido no quarto dia, em um espaço pequeno, cercado por muros de dois metros, sem janelas, usado anteriormente como área de fumantes ou reuniões externas. Lula não escondeu o desagrado e comparou o local a uma jaula. Drones sobrevoavam frequentemente o pátio, na tentativa de registrar imagens do espaço e de seu ocupante.
Conversas, afetos e perdas pessoais
A relação entre o agente e o detento foi se construindo ao longo dos meses. Lula fazia brincadeiras com o cabelo de Chastalo e sempre o tratava por “querido”. As conversas, segundo o autor, “quase sempre foram sobre política”. Lula falava sobre a Lava Jato e avaliava a trajetória de Marina Silva: “gostava muito dela, mas ela havia ficado muito carola”, teria dito — uma avaliação que não impediu que os dois se reaproximassem nas eleições de 2022, quando Marina voltou a integrar o primeiro escalão do governo. Momentos marcantes também envolveram pedidos simples, como uma bola para o neto Arthur, com quem desenhava em folhas em branco durante as visitas familiares. A morte do menino, em abril de 2019, aos sete anos, foi um dos momentos mais difíceis daquele período. Lula também não pôde se despedir do irmão Vavá, falecido três meses antes, pois não recebeu autorização para sair da prisão.
Furto de passaporte e observações perspicazes
Quando um assessor relatou que seu passaporte havia sido furtado, Lula demonstrou irritação. Chastalo soube do ocorrido antes e orientou que o assunto fosse mantido em sigilo temporário, mas 11 senadores que o visitaram no mesmo dia acabaram comentando o fato. A resposta de Lula revelou seu estilo de observar e interpretar situações: “Tem adulto que parece criança. Quando tira nota boa na escola, vem logo mostrando o boletim, mas, quando tira nota vermelha, diz que não recebeu o boletim do bimestre”. A frase sintetiza muito da percepção que ele mantinha sobre as circunstâncias de sua própria detenção.
Contexto jurídico e decisões que mudaram o rumo
Lula permaneceu na superintendência da PF em Curitiba de abril de 2018 até novembro de 2019, quando o Supremo Tribunal Federal suspendeu a execução de penas antes do trânsito em julgado dos processos. As condenações referentes ao sítio de Atibaia e ao triplex do Guarujá, confirmadas em primeira e segunda instância, foram posteriormente anuladas pelo STF em abril de 2021, por 8 votos a 3, que entendeu que a 13ª Vara Federal de Curitiba não era a instância competente para julgar os casos. Antes disso, em março do mesmo ano, o juiz Sergio Moro havia sido declarado suspeito para atuar nos processos. A editora WMF Martins Fontes decidiu adiar o lançamento do livro até o encerramento do ciclo eleitoral para evitar que a obra fosse utilizada como peça de campanha política.
Memórias que ultrapassam o noticiário
O livro foi editado pelo jornalista Lino Bocchini, que adaptou o texto original — com quase o dobro de páginas e repleto de termos técnicos policiais — para o público geral. A obra não se reduz, porém, a um relato sobre um processo jurídico ou uma disputa política. É também o registro de um período de isolamento, de pequenas rotinas, de observações sobre poder e sobre a condição humana de alguém que, repentinamente, viu seu mundo reduzir-se a uma cela de poucos metros quadrados. Como observa o próprio editor, o diário de Chastalo preserva detalhes que talvez nem mesmo os holofotes da mídia tenham conseguido capturar naquele período tão intenso da história recente do Brasil.





