Lula diz que usava “sangue de Cristo” para explicar vermelho do PT

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recorreu a imagens bíblicas e de fé nesta quarta-feira, 16, durante encontro com a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, no Palácio do Planalto. Dirigindo-se também a convidados dos Estados Unidos e de Cuba, o presidente recordou como explicou ao longo dos anos os símbolos do Partido dos Trabalhadores. Disse ter usado o exemplo do sangue de Cristo para justificar a cor vermelha da bandeira, a imagem das estrelas guiando navegadores para falar sobre a estrela da sigla e, inclusive, a figura de Jesus para comentar sobre a própria barba. A fala reforça a estratégia de aproximação com um eleitorado que tradicionalmente mantém distância do partido.
Lula abordou ainda questões relativas à Igreja Católica, defendendo mudanças estruturais. Avaliou que a instituição enfrentará obstáculos enquanto não extinguir o celibato e permitir que mulheres exerçam funções sacerdotais, como ordenação de padres e bispos. “A Igreja Evangélica já demonstra uma vantagem nesse aspecto: as mulheres são tratadas com igualdade de condições e podem ocupar qualquer espaço”, observou. A declaração ressoa junto a um público em que a participação feminina nas comunidades religiosas é ampla e ativa.
O presidente ressaltou, no entanto, que mantém limites claros entre política e espaço de culto. “Considero a religião algo sagrado. Por isso, não faço comícios dentro de igrejas. Se quiser fazer política, vou para a rua”, afirmou. A postura busca afastar a imagem de que utilizaria templos como palanque, prática que gera polêmica e divisão. O encontro não contou com cobertura ao vivo nem presença de jornalistas, sendo as falas posteriormente divulgadas pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência.
A reunião durou cerca de 25 minutos e tratou também de temas globais: desigualdade, conflitos entre nações e o papel das religiões na construção da paz. O presidente adiantou que levará essas pautas à Assembleia Geral da ONU, no dia 23 de setembro. A presença de representantes internacionais — entre eles o reverendo Bronson Woods, da Igreja Batista Ebenezer, em Atlanta — sinaliza que a discussão transcende o âmbito doméstico, buscando pontes com lideranças religiosas de outros países.
A Frente de Evangélicos formalizou apoio à reeleição de Lula em carta divulgada em agosto, na qual associa a permanência do presidente ao poder a valores cristãos e apresenta críticas à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). O pastor Ariovaldo Ramos lembrou que o segmento é diverso e não tem uma única voz, mas destacou que o presidente conta com amigos entre os evangélicos. A iniciativa integra esforços mais amplos do PT para reduzir a rejeição registrada em levantamentos: pesquisa PoderData/Aya mostrou que 62% dos evangélicos desaprovam a gestão.
A aproximação tem se desenrolado em etapas. Desde o início do ano, o governo promoveu encontros com líderes de diferentes tradições de fé, organizou o 4º Encontro Nacional de Evangélicos e lançou o Comitê Nacional Evangélicos com Lula, com meta de instalar mil comitês populares. A primeira-dama Janja Lula da Silva também tem participado ativamente, cantando ao lado de nomes conhecidos do meio religioso. O resultado dessas ações ainda será confirmado nas urnas, mas o tom e a frequência dos encontros demonstram que o segmento segue sendo alvo central da campanha.





