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Lula e Flávio buscam apoios inesperados para conquistar eleitores do adversário

Campanhas buscam brechas para “furar bolha” e miram eleitor do adversário

Na reta final do segundo turno da eleição presidencial, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) intensificam estratégias para alcançar eleitores que não fazem parte de suas bases tradicionais. Em uma disputa marcada pela polarização política, conquistar novos apoios tornou-se uma forma de ampliar o alcance das candidaturas e tentar convencer pessoas que ainda não se identificam plenamente com nenhum dos dois projetos. Nesse contexto, personalidades do entretenimento, influenciadores digitais, antigos adversários políticos e ex-aliados de Jair Bolsonaro passaram a ocupar espaço nas articulações eleitorais.

A estratégia de “furar a bolha” consiste em ultrapassar os limites do eleitorado mais fiel e dialogar com grupos que possuem outras referências políticas, culturais e sociais. Por isso, as campanhas procuram demonstrar que suas candidaturas também encontram respaldo em segmentos normalmente associados ao campo adversário. Enquanto Flávio tenta ampliar sua presença entre integrantes da comunidade LGBT+, mulheres e artistas, Lula reúne figuras historicamente ligadas à centro-direita e pessoas que já fizeram oposição ao Partido dos Trabalhadores. Entretanto, o apoio de uma personalidade não significa, necessariamente, que todo o seu público seguirá a mesma orientação nas urnas.

Campanhas buscam furar a bolha e conquistar novos eleitores

A tentativa de ampliar o alcance eleitoral aparece de maneiras diferentes nas duas campanhas. No caso de Flávio Bolsonaro, a prioridade é demonstrar que sua candidatura não se limita aos apoiadores mais identificados com o bolsonarismo. Para isso, manifestações públicas de influenciadores, artistas e representantes de grupos sociais ajudam a levar sua mensagem a públicos que talvez não acompanhem diretamente o discurso político do senador.

Já Lula procura apresentar sua candidatura como uma alternativa capaz de reunir pessoas com trajetórias e posições ideológicas distintas. A aproximação com antigos adversários do PT é utilizada para reforçar a ideia de que o segundo turno envolve uma escolha que ultrapassa a divisão tradicional entre esquerda e direita. Dessa forma, os apoios são apresentados como sinais de convergência em torno de determinadas prioridades, mesmo quando permanecem divergências sobre governos anteriores e propostas políticas.

Além disso, a reta final da campanha reduz o tempo disponível para modificar percepções já consolidadas. Por esse motivo, declarações de figuras conhecidas podem funcionar como instrumentos de comunicação direcionados a públicos específicos. Ainda assim, o efeito dessas manifestações depende da identificação dos eleitores com os apoiadores, da credibilidade atribuída a eles e da disposição de cada pessoa para rever sua preferência.

Flávio Bolsonaro busca apoio entre influenciadores LGBT+

Um dos exemplos dessa estratégia é o influenciador alagoano Rico Melquiades, vencedor de A Fazenda 13, que possui aproximadamente 12 milhões de seguidores no Instagram, conforme as informações apresentadas. Gay e declarado eleitor de direita, ele passou a publicar conteúdos favoráveis à candidatura de Flávio Bolsonaro. Sua participação procura mostrar que existem integrantes da comunidade LGBT+ que defendem posições conservadoras e não se identificam necessariamente com as orientações políticas predominantes em organizações tradicionais de defesa dessa população.

Em um dos vídeos divulgados, Rico afirmou que não teve seus direitos retirados durante a Presidência de Jair Bolsonaro. Em outra gravação, apareceu ao lado de Flávio e perguntou se, caso fosse eleito presidente, o senador adotaria medidas contra homossexuais ou restringiria direitos já conquistados. Flávio respondeu que não pretendia promover perseguições e afirmou que essas conquistas seriam mantidas.

A movimentação também contou com manifestações de perfis como Gays com Lucidez, Trans de Direita e Dom Lancellotti. Essas participações evidenciam a diversidade de posições políticas existentes entre pessoas LGBT+, que não formam um grupo eleitoral homogêneo. Contudo, a presença de influenciadores nesse debate não permite concluir que a maioria da comunidade compartilhe as mesmas preferências. O objetivo eleitoral, nesse caso, é mostrar que a candidatura pode encontrar apoio para além de sua base mais conhecida.

Artistas e mulheres entram na estratégia eleitoral de Flávio

A busca por novos eleitores também envolve personalidades do meio artístico. Entre os nomes mencionados como apoiadores de Flávio estão a atriz Regina Duarte e os cantores Amado Batista e Zezé Di Camargo. Na fase final da campanha, o senador fez um apelo para que artistas identificados com a direita manifestassem publicamente sua preferência eleitoral.

A participação dessas figuras pode ampliar a circulação de mensagens políticas nas redes sociais e em outros espaços de comunicação. Afinal, artistas e influenciadores frequentemente mantêm contato com públicos que não acompanham de perto o debate partidário. Por isso, as campanhas procuram aproveitar essa visibilidade para apresentar seus candidatos a eleitores que ainda não decidiram como votar ou que possuem ressalvas em relação às candidaturas.

No caso das mulheres, a estratégia de Flávio busca alcançar eleitoras que defendem valores conservadores e não se identificam com o discurso da esquerda sobre direitos femininos. Entretanto, a categoria reúne experiências e posições muito diferentes. Assim, o apoio de algumas personalidades não representa automaticamente uma mudança generalizada na preferência eleitoral das mulheres, mas integra o esforço para ampliar o diálogo com esse segmento.

Lula recebe apoio de antigos adversários e nomes da centro-direita

A campanha de Lula, por sua vez, procura ampliar sua base por meio de manifestações de personalidades que já estiveram em campos políticos contrários ao PT. No sábado (17), um grupo de 15 pessoas divulgou um manifesto em defesa da reeleição do presidente. Entre os signatários está o jurista Miguel Reale Júnior, ex-ministro da Justiça durante o governo Fernando Henrique Cardoso e participante da elaboração do pedido de impeachment de Dilma Rousseff.

Embora tenha declarado voto em Lula, Reale Júnior afirmou que continua considerando correta sua atuação no processo que levou ao afastamento da ex-presidente. Segundo a posição apresentada por ele, a escolha eleitoral atual está relacionada à defesa da democracia e ao funcionamento das instituições. Portanto, seu apoio não representa necessariamente uma mudança completa de suas convicções políticas anteriores.

A lista também inclui Aloysio Nunes Ferreira, ex-presidente nacional do PSDB, ex-senador e ex-ministro das Relações Exteriores no governo Michel Temer. Além dele, aparecem José Carlos Dias e José Carlos Carvalho, que integraram a administração de Fernando Henrique Cardoso, o diplomata Rubens Ricupero e o economista Eduardo Giannetti. Mesmo com críticas à trajetória do PT e diferenças em relação ao governo Lula, esses signatários consideram a reeleição do presidente uma alternativa preferível diante da candidatura de Flávio Bolsonaro.

Famílias históricas do PSDB também manifestam apoio

Outra adesão destacada é a de Beatriz Cardoso, filha do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ela participou de um vídeo favorável a Lula ao lado de Mário Covas Neto, filho do ex-governador paulista Mário Covas, e Maria Estella Gregori, filha do ex-ministro José Gregori. Os três possuem vínculos familiares com figuras importantes da história do PSDB, partido que durante décadas disputou com o PT a Presidência da República.

Essas manifestações possuem valor simbólico porque aproximam Lula de pessoas ligadas a uma tradição política que frequentemente esteve em oposição aos governos petistas. Ao mesmo tempo, a adesão individual não elimina as diferenças históricas entre os grupos nem significa que todos os integrantes do PSDB compartilhem a mesma posição.

Ex-aliados de Bolsonaro se dividem entre Lula e a rejeição aos dois candidatos

A estratégia de Lula também envolve antigos integrantes do campo político de Jair Bolsonaro. Um dos exemplos é o deputado Luciano Bivar (MDB-PE), que presidiu o PSL, partido pelo qual Bolsonaro concorreu à Presidência em 2018. Bivar já havia disputado a eleição presidencial contra Lula em 2006 e rompeu com Bolsonaro em 2019. Agora, declarou apoio ao petista e passou a integrar, como primeiro suplente, a chapa do senador Humberto Costa (PT) em Pernambuco.

Entretanto, nem todos os antigos aliados de Bolsonaro que romperam com o ex-presidente decidiram apoiar Lula. Abraham Weintraub, ex-ministro da Educação e atualmente nos Estados Unidos, afirmou que não pretende votar em nenhum dos dois candidatos. Apesar de criticar Flávio Bolsonaro, ele declarou que não compareceria às urnas no segundo turno.

A ex-deputada Joice Hasselmann, que já ocupou a liderança do governo Bolsonaro no Congresso, adotou uma posição diferente. Depois de romper com a família do ex-presidente, ela anunciou que votaria em Lula. A decisão, contudo, não representa uma reconciliação com o PT, partido ao qual continua fazendo críticas. Sua escolha foi apresentada como uma forma de rejeição à candidatura de Flávio.

O que os apoios podem representar para o resultado eleitoral?

A disputa para conquistar eleitores fora das bases tradicionais demonstra que as campanhas consideram insuficiente mobilizar apenas quem já está convencido. Nesse cenário, influenciadores, artistas e antigos adversários podem ajudar a alcançar públicos diferentes e oferecer argumentos que dialoguem com preocupações específicas. Além disso, manifestações de apoio podem ser utilizadas para responder a críticas sobre a capacidade de cada candidatura de representar setores diversos da sociedade.

Por outro lado, é necessário distinguir visibilidade de conversão eleitoral. Uma publicação com grande alcance ou um manifesto assinado por figuras conhecidas não garante que seus seguidores mudarão de voto. Da mesma forma, o apoio de antigos adversários pode fortalecer a imagem de uma candidatura como ponto de convergência, mas também provocar questionamentos entre eleitores que valorizam a coerência ideológica.

Assim, a estratégia de “furar a bolha” funciona como uma tentativa de reduzir resistências e ampliar o diálogo em uma eleição polarizada. Flávio Bolsonaro procura demonstrar que pode reunir apoiadores fora do núcleo bolsonarista, enquanto Lula tenta consolidar uma frente que inclui nomes historicamente críticos ao PT. O impacto real dessas articulações, entretanto, dependerá da maneira como os eleitores interpretarão os apoios e decidirão se essas manifestações influenciam suas próprias escolhas.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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