Notícias

Lula retoma slogan de Dilma e tenta virar o jogo na reta final da eleição

Lula retoma mote de Dilma em 2014 e assume o slogan “mudança continua”

Na reta final do segundo turno presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu ajustar a comunicação de sua campanha e adotar o slogan “a mudança continua”. A expressão recupera uma ideia utilizada na disputa pela reeleição de Dilma Rousseff, em 2014, e procura responder a uma das principais mensagens exploradas pelo adversário Flávio Bolsonaro (PL): a necessidade de mudança no comando do país. Com isso, a campanha petista tenta apresentar a continuidade de seu projeto político não como uma simples repetição do passado, mas como uma proposta capaz de produzir novas transformações.

A alteração ocorre depois de uma avaliação interna sobre o desempenho eleitoral do primeiro turno. Segundo a análise do comentarista político Pedro Venceslau, integrantes do PT reconheceram reservadamente que a comunicação havia dado atenção excessiva às realizações anteriores de Lula, deixando em segundo plano as propostas para os próximos anos. Dessa maneira, a campanha passou a enfrentar o desafio de valorizar o legado do presidente sem transmitir a impressão de que pretende apenas repetir experiências anteriores. O novo slogan procura justamente estabelecer essa ligação entre o que já foi feito e o que ainda poderá ser realizado.

Lula retoma mote de Dilma em 2014 para disputar a ideia de mudança

A escolha da frase “a mudança continua” tem um objetivo estratégico: disputar com Flávio Bolsonaro o significado político da palavra “mudança”. Durante o segundo turno, o candidato do PL construiu sua comunicação em torno da ideia de renovação e alternância de poder. Assim, a campanha de Lula passou a buscar uma resposta que não rejeitasse a necessidade de transformação defendida por parte do eleitorado, mas tentasse associá-la à continuidade de seu próprio projeto.

O desafio é relevante porque a palavra “mudança” pode representar diferentes expectativas. Para alguns eleitores, ela significa substituir quem está no governo; para outros, pode significar melhorar políticas públicas, ampliar oportunidades ou corrigir problemas sem necessariamente trocar o grupo político no poder. Portanto, a disputa não se limita à escolha de um slogan, mas envolve a tentativa de convencer o eleitor de qual candidatura estaria mais preparada para atender às suas expectativas.

Segundo os dados do Datafolha citados na análise, 41% dos eleitores de Flávio Bolsonaro afirmam votar nele por defenderem a alternância de poder. Esse indicador ajuda a explicar por que a ideia de renovação se tornou central na campanha do senador. Diante desse cenário, Lula tenta mostrar que a continuidade também pode ser apresentada como um caminho de transformação, desde que acompanhada de novas propostas e compromissos para o futuro.

A estratégia de Dilma Rousseff em 2014 volta ao debate eleitoral

O slogan escolhido por Lula recupera uma estratégia utilizada na campanha de Dilma Rousseff durante a eleição presidencial de 2014. Naquele período, o marqueteiro João Santana identificou sinais de desgaste do governo e trabalhou uma mensagem que combinava a defesa do que havia sido realizado com a promessa de novas mudanças. A ideia era evitar que a continuidade administrativa fosse interpretada apenas como manutenção do cenário existente.

Agora, mais de uma década depois, a campanha petista volta a recorrer a uma lógica semelhante, adaptada à disputa atual. A expressão “a mudança continua” foi incorporada a um jingle divulgado nos materiais de comunicação e nas redes sociais de Lula. Com isso, o partido tenta construir uma mensagem simples, de fácil repetição e capaz de associar a experiência do presidente à possibilidade de novas iniciativas.

Entretanto, a retomada de uma estratégia antiga não garante que ela produzirá os mesmos resultados. O contexto político, as preocupações do eleitorado e os adversários são diferentes. Além disso, uma frase de campanha precisa ser acompanhada por propostas que deem sentido concreto à mensagem. Caso contrário, o slogan pode ser percebido apenas como uma tentativa de reposicionar a candidatura diante das dificuldades eleitorais.

Lula usa jingle e vídeo informal para apresentar o novo slogan

A nova mensagem também foi divulgada por meio de conteúdos de caráter mais informal. Em um vídeo gravado por Janja, esposa do presidente, Lula aparece em formato de selfie, usando bermuda e carregando um aparelho de som no ombro enquanto canta o jingle “a mudança continua”. A gravação contrasta com a comunicação política mais tradicional e procura aproximar o candidato do público por meio de uma imagem espontânea.

Esse tipo de conteúdo faz parte de uma estratégia de comunicação digital que busca tornar a mensagem eleitoral mais acessível e compartilhável. Nas redes sociais, vídeos curtos e cenas informais podem circular para além dos perfis oficiais da campanha, alcançando pessoas que não acompanham programas eleitorais ou discursos políticos completos. Por isso, a apresentação do slogan em um formato descontraído pode ajudar a ampliar sua exposição.

Ainda assim, o alcance de uma publicação não significa necessariamente que haverá mudança na intenção de voto. Para produzir efeito eleitoral, a mensagem precisa encontrar receptividade entre os públicos que a campanha pretende alcançar. Além disso, a informalidade pode favorecer a identificação de alguns eleitores, mas não substitui a necessidade de apresentar respostas para questões econômicas, sociais e administrativas.

Campanha de Lula tenta corrigir o foco no passado

Uma das principais críticas apontadas na avaliação interna do PT foi o excesso de referências ao legado de Lula. Embora a apresentação de resultados anteriores possa reforçar a experiência do candidato, ela também corre o risco de limitar o debate ao que já aconteceu. Em uma eleição na qual o adversário enfatiza a renovação, esse enquadramento pode dificultar a conquista de eleitores que esperam propostas novas.

Por esse motivo, a campanha passou a trabalhar uma narrativa mais voltada para o futuro durante o segundo turno. A intenção é demonstrar que a experiência acumulada pelo presidente pode servir de base para novas ações, e não apenas para a defesa de sua trajetória política. Dessa forma, o slogan tenta combinar continuidade administrativa com a promessa de aperfeiçoamento e transformação.

Contudo, a mudança de discurso ocorreu já na fase final da disputa. Pedro Venceslau avaliou que a iniciativa pode ter chegado tarde, uma vez que a comunicação de Lula não havia sido estruturada desde o início em torno da ideia de que seu governo representaria a continuidade da mudança. Essa avaliação levanta uma questão importante: até que ponto uma alteração de mensagem nos últimos dias consegue modificar percepções construídas ao longo de toda a campanha?

Slogan “a mudança continua” enfrenta o desafio da reta final

Apesar da adoção de uma narrativa mais propositiva, a comunicação da campanha petista ainda dedica parte significativa de seu espaço eleitoral a críticas a Flávio Bolsonaro. Segundo a análise apresentada, metade do tempo de televisão continua sendo utilizada para desgastar a imagem do adversário. Essa divisão evidencia a dificuldade de equilibrar dois objetivos: convencer o eleitor sobre as propostas de Lula e, ao mesmo tempo, questionar a candidatura concorrente.

A estratégia de apresentar realizações anteriores, promessas futuras e críticas ao adversário pode funcionar como uma tentativa de alcançar diferentes perfis de eleitores. Entretanto, a combinação também exige coerência. Se a campanha pretende defender que a mudança pode continuar sob a atual administração, precisa explicar quais transformações ainda estão previstas e como elas se diferenciam das ações já realizadas.

Além disso, o slogan precisa competir com uma mensagem adversária que já vinha sendo explorada durante o segundo turno. Como a ideia de alternância de poder ganhou destaque entre os apoiadores de Flávio, Lula tenta redefinir o debate para mostrar que mudar não significa necessariamente trocar o presidente. O resultado dependerá da capacidade de fazer essa interpretação chegar aos eleitores e de conectá-la a preocupações concretas.

O que a mudança de slogan revela sobre a disputa presidencial?

A decisão de Lula demonstra que a comunicação eleitoral pode ser ajustada conforme as campanhas identificam dificuldades e oportunidades. Ao recuperar uma ideia usada na eleição de Dilma Rousseff em 2014, o presidente tenta responder ao apelo por renovação sem abandonar a defesa de seu histórico político. Ao mesmo tempo, procura apresentar a continuidade como uma alternativa que ainda pode oferecer novidades ao país.

Por outro lado, a alteração também evidencia a pressão enfrentada pela campanha para disputar a narrativa de Flávio Bolsonaro. O slogan do senador se apoia na alternância de poder, enquanto a mensagem petista procura associar experiência e transformação. Nesse contexto, a eleição passa a envolver não apenas comparações entre propostas, mas também diferentes interpretações sobre o significado de mudança.

Em síntese, “a mudança continua” representa uma tentativa de reposicionar a campanha de Lula na reta final do segundo turno. A ideia busca conectar o passado do governo a uma perspectiva de futuro e responder à insatisfação de parte do eleitorado. Entretanto, sua eficácia dependerá de mais do que a força de uma frase: será necessário que os eleitores reconheçam na mensagem propostas concretas e razões suficientes para apoiar a continuidade do projeto petista.

Mostrar mais

Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *