Mensagens ligam assessora de Flávio a condenado do caso Marielle em negociação de emenda

Assessora de Flávio negociou emenda com condenado em caso Marielle
Assessora de Flávio negociou emenda parlamentar com Robson Calixto Fonseca, conhecido como “Peixe”, segundo elementos reunidos pela Polícia Federal em uma investigação sobre possíveis desvios de recursos públicos no Rio de Janeiro. Maria de Fátima Bezerra Castro, assessora do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), teria mantido conversas com Calixto em 2023 envolvendo recursos destinados ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop). O caso passou a ganhar maior repercussão porque Calixto, ex-assessor do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro e pessoa próxima de Domingos Brazão, foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal em fevereiro de 2026 a nove anos de prisão por integrar organização criminosa armada. Entretanto, ele não foi condenado pelos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, mas pelo crime de organização criminosa no processo que apurou os homicídios e seus antecedentes. A nova investigação sobre emendas é conduzida separadamente e ainda não representa conclusão sobre eventual responsabilidade dos demais citados.
Assessora de Flávio negociou emenda destinada ao Ifop, aponta investigação
De acordo com a investigação que deu origem à Operação Emendatio, deflagrada pela PF em julho de 2026, organizações da sociedade civil do Rio de Janeiro teriam sido usadas para receber recursos provenientes de emendas parlamentares federais. A Polícia Federal apura suspeitas de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa e afirma ter identificado indícios de pagamentos indevidos, uso de empresas interpostas, superfaturamento, possíveis combinações em cotações de preços e até inexecução de contratos. Nesse contexto, mensagens atribuídas a Maria de Fátima e Robson Calixto passaram a ser analisadas pelos investigadores. Segundo o material mencionado nas apurações jornalísticas, Calixto solicitou ajuda para que o Ifop fosse contemplado com recursos e a assessora teria orientado que o pedido fosse reforçado diretamente com o senador. Assim, o diálogo passou a ser considerado relevante para esclarecer como a demanda pela emenda chegou ao gabinete e qual papel cada interlocutor teria desempenhado. A existência das mensagens, contudo, não comprova por si só que tenha ocorrido desvio de dinheiro.
Emenda de Flávio Bolsonaro entrou no radar da Polícia Federal
Entre os repasses analisados está uma verba de aproximadamente R$ 199 mil destinada pelo senador ao Ifop, entidade que passou a ser examinada dentro da investigação. Conforme a versão apresentada por Flávio Bolsonaro, a emenda foi indicada de acordo com a legislação e com critérios técnicos do Ministério do Esporte. O senador afirma ainda que a entidade responsável pela execução apresentou documentos referentes às aquisições realizadas e devolveu valores que não teriam sido utilizados. Dessa forma, sua defesa sustenta que eventuais irregularidades na aplicação posterior do dinheiro devem ser apuradas pelos órgãos de fiscalização e pela entidade executora, e não atribuídas automaticamente ao parlamentar que apresentou a emenda. A legislação brasileira permite que deputados e senadores indiquem recursos no Orçamento para determinadas políticas e localidades; entretanto, depois da transferência, a execução dessas verbas é submetida a regras administrativas e mecanismos de controle. É justamente essa etapa de utilização dos recursos que está sendo examinada pela Polícia Federal no âmbito da Operação Emendatio.
Robson Calixto foi condenado no processo relacionado ao caso Marielle
A situação de Robson Calixto acrescenta peso ao episódio por causa de seu histórico judicial. Em fevereiro de 2026, a Primeira Turma do STF concluiu o julgamento envolvendo os acusados no caso Marielle Franco e Anderson Gomes. Domingos Brazão e Chiquinho Brazão foram condenados pelos homicídios, pela tentativa de homicídio da assessora Fernanda Chaves e por organização criminosa. Já Calixto foi condenado especificamente por integrar a organização criminosa armada ligada aos irmãos Brazão e recebeu pena de nove anos de prisão. De acordo com o Supremo, ele atuava no grupo relacionado à exploração imobiliária irregular em áreas sob influência de milícias. Posteriormente, recursos contra as condenações foram rejeitados ou tiveram resultado desfavorável aos réus. Além disso, em julho, Calixto voltou a ser alvo de ordem de prisão durante a Operação Emendatio, que investiga justamente possíveis desvios de verbas provenientes de emendas parlamentares. Portanto, embora as duas apurações possuam personagens em comum, é necessário diferenciá-las juridicamente.
Mensagens são usadas para apurar a relação entre assessora e Calixto
Segundo informações extraídas do celular de Calixto e descritas na investigação, o contato de Maria de Fátima estaria armazenado com uma referência ao gabinete de Flávio Bolsonaro. Em uma das conversas de novembro de 2023 mencionadas pelas apurações, Calixto teria pedido atenção para o projeto do Ifop e solicitado ajuda para conseguir recursos necessários à continuidade da iniciativa. Em outro momento, segundo o material atribuído aos investigadores, a assessora teria cogitado aproveitar um evento com a presença de Flávio para que o assunto fosse tratado pessoalmente. A PF passou, portanto, a analisar a natureza da interlocução e se ela possuía relação com a destinação posterior das verbas. Entretanto, assessores parlamentares frequentemente atuam na interlocução entre gabinetes, entidades e representantes locais, de modo que o simples contato não estabelece automaticamente prática criminosa. Para que qualquer responsabilidade individual seja definida, deverão ser consideradas a finalidade das conversas, a execução dos recursos, os documentos financeiros e as demais provas reunidas no inquérito.
Investigação apura outros recursos destinados a entidades do Rio
Além do valor relacionado ao Ifop, a investigação examina outros repasses feitos por meio de emendas e destinados a organizações da sociedade civil no estado do Rio de Janeiro. A Operação Emendatio foi deflagrada em 9 de julho e cumpriu dois mandados de prisão preventiva e 21 mandados de busca e apreensão, todos expedidos pelo Supremo Tribunal Federal. Também foram determinadas medidas de bloqueio patrimonial que alcançavam R$ 100 milhões. Segundo a Polícia Federal, os investigadores suspeitam que parte das verbas transferidas para entidades sem fins lucrativos tenha sido desviada por meio de pagamentos inadequados, empresas utilizadas como intermediárias e mecanismos destinados a dificultar a identificação do destino final do dinheiro. Entre os valores mencionados na investigação envolvendo a rede analisada está também um repasse relacionado ao município de Barra do Piraí. Contudo, nem toda emenda examinada pela PF é necessariamente irregular, e a abertura de investigação não equivale a condenação dos parlamentares responsáveis pelas indicações orçamentárias.
Assessora de Flávio negociou emenda, mas responsabilidades ainda são investigadas
Por fim, o fato de que uma assessora de Flávio negociou emenda com Robson Calixto adiciona uma nova dimensão política e investigativa às apurações sobre recursos parlamentares no Rio de Janeiro, sobretudo porque Calixto já foi condenado por integrar a organização criminosa ligada aos irmãos Brazão. Entretanto, as responsabilidades precisam ser avaliadas individualmente. A Operação Emendatio procura determinar se verbas públicas destinadas a organizações sociais foram desviadas e quem teria participado de eventuais irregularidades. Flávio Bolsonaro, por sua vez, afirma que a destinação de sua emenda observou os procedimentos legais e que a execução dos recursos cabe à entidade beneficiada, enquanto possíveis irregularidades devem ser esclarecidas pelos órgãos competentes. Assim, o ponto central da investigação não é apenas saber quem solicitou ou indicou determinada verba, mas rastrear como ela foi utilizada depois da liberação. Até que a apuração seja concluída e as provas sejam avaliadas judicialmente, suspeitas investigativas, contatos políticos e responsabilidades criminais devem continuar sendo apresentados como categorias distintas.





