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Muitas pessoas usaram as redes sociais para apontar um suposto erro durante a apuração e que teria prejudicado Flávio Bolsonaro

Um vídeo que questiona a apuração dos votos para presidente nas eleições de 2026 passou a circular nas redes sociais e levantou suspeitas sobre uma suposta inconsistência nos números apresentados durante a contagem. A publicação compara dois momentos da apuração e afirma que Flávio Bolsonaro teria recebido mais votos do que Lula em determinado intervalo, mas, ainda assim, teria visto sua porcentagem diminuir. A alegação foi analisada pelo UOL Confere e considerada falsa, porque a variação percentual pode ocorrer normalmente quando novos votos de todos os candidatos são incorporados ao total.

O conteúdo enganoso utilizou imagens de uma transmissão ao vivo da CNN Brasil para apresentar os números como se houvesse uma contradição matemática na apuração. Em um dos momentos mostrados, Flávio aparecia com 51,07% dos votos válidos, enquanto Lula registrava 40,82%, e, em uma atualização posterior, os percentuais passaram para 50,94% e 40,97%, respectivamente. Entretanto, a quantidade absoluta de votos recebida por um candidato não determina sozinha sua participação percentual, já que o cálculo considera também todos os demais votos válidos registrados naquele momento.

A comparação ganhou grande alcance nas redes sociais justamente por apresentar números verdadeiros de duas etapas diferentes da apuração, mas atribuir a eles uma conclusão incorreta. Segundo o UOL Confere, a publicação alcançou mais de 6,4 milhões de visualizações, além de centenas de milhares de curtidas e dezenas de milhares de compartilhamentos. Dessa maneira, a checagem foi necessária porque a interpretação apresentada no vídeo poderia levar usuários a acreditar que uma diferença nos percentuais seria, por si só, evidência de falha ou manipulação na contagem dos votos.

Falso erro na apuração: por que os percentuais mudaram?

Os dados utilizados na publicação correspondem a dois momentos distintos da totalização, quando 21,96% e 24,45% das urnas haviam sido apuradas. Entre essas duas atualizações, Flávio Bolsonaro recebeu aproximadamente 1,43 milhão de votos adicionais, enquanto Lula obteve cerca de 1,21 milhão. Portanto, o candidato do PL realmente recebeu mais votos do que o petista naquele intervalo, mas isso não significa que sua porcentagem necessariamente precisaria aumentar.

A explicação está na própria fórmula usada para calcular percentuais eleitorais, pois a participação de cada candidato é determinada pela quantidade de votos que ele recebeu em relação ao total de votos válidos contabilizados. Assim, quando entram novas urnas na apuração, o total utilizado como referência também cresce e os demais candidatos acrescentam seus votos à soma geral. Consequentemente, um candidato pode ganhar centenas de milhares ou até milhões de votos e, ainda assim, apresentar uma pequena redução percentual caso os demais concorrentes tenham ampliado suas votações proporcionalmente mais.

No caso analisado pelo UOL Confere, a diferença fica ainda mais clara quando são considerados os números necessários para manter o mesmo percentual. Para permanecer com 51,07% na segunda parcial, Flávio precisaria ter chegado a 14.381.078 votos, ou seja, cerca de 36,6 mil votos a mais do que efetivamente recebeu naquele momento. Portanto, não houve contradição entre o aumento da quantidade de votos e a queda de 51,07% para 50,94%, pois as duas informações utilizam bases diferentes de comparação.

Flávio Bolsonaro e Lula tiveram votos contabilizados normalmente

A lógica pode ser compreendida com um exemplo simples: se um candidato possui 50 votos em um universo de 100 votos válidos, ele representa 50% da votação, mas esse percentual pode diminuir quando novos votos são acrescentados ao total. Caso outros candidatos recebam uma quantidade proporcionalmente maior de votos nas urnas que estão sendo incorporadas, a participação percentual do primeiro candidato será reduzida mesmo que sua quantidade absoluta também tenha aumentado. Portanto, a alteração observada nos números de Flávio Bolsonaro e Lula é compatível com o funcionamento normal de uma apuração progressiva.

Além disso, os votos não são inseridos de uma só vez no sistema de divulgação dos resultados, já que os boletins de urna são transmitidos e incorporados progressivamente à totalização. O próprio acompanhamento da apuração mostra que os percentuais mudam conforme novos resultados das seções eleitorais são recebidos e somados, fazendo com que a proporção de cada candidato seja recalculada continuamente. Dessa forma, uma comparação entre duas parciais precisa considerar não apenas quantos votos cada concorrente ganhou, mas também quanto o universo total de votos válidos aumentou no mesmo período.

A circulação desse tipo de conteúdo ocorreu em um momento de forte atenção sobre a apuração das eleições de 2026, especialmente depois de uma interrupção temporária na divulgação nacional dos resultados. O Tribunal Superior Eleitoral esclareceu que a falha ocorrida na noite de 4 de outubro afetou apenas um módulo utilizado para apresentar os dados na internet, sem interromper a apuração nas urnas ou a totalização dos votos. Segundo o TSE, os resultados estaduais continuaram sendo atualizados durante o período e a visualização nacional foi normalizada posteriormente.

O que a checagem revela sobre a apuração eleitoral

A checagem do falso erro na apuração mostra a importância de analisar os números eleitorais considerando sua base matemática antes de concluir que houve uma inconsistência. Uma redução percentual não significa necessariamente perda de votos, assim como um aumento percentual não indica obrigatoriamente que um candidato recebeu mais votos absolutos do que outro no mesmo intervalo. Por isso, comparações isoladas entre duas telas de uma transmissão podem produzir interpretações equivocadas quando o total de votos válidos também está mudando.

O episódio também evidencia como informações sobre a apuração podem ganhar grande alcance quando números reais são combinados com uma interpretação incorreta. No caso analisado, os valores exibidos nas duas parciais existiam, mas a conclusão de que o sistema teria cometido um erro não foi sustentada pelos dados, e a checagem também foi realizada pela Reuters. Assim, para compreender a evolução dos resultados entre Flávio Bolsonaro e Lula, é necessário observar a quantidade absoluta de votos, o percentual de urnas apuradas e o total de votos válidos contabilizados em cada atualização.

A apuração oficial do primeiro turno terminou com Flávio Bolsonaro e Lula classificados para o segundo turno, marcado para 25 de outubro, mas o resultado da primeira etapa não altera a necessidade de analisar separadamente os dados de cada atualização. A Justiça Eleitoral também reforçou que a interrupção ocorrida na divulgação nacional dos resultados não significou paralisação da apuração ou da totalização, que continuaram preservadas nos sistemas eleitorais. Dessa forma, a alegação de que a queda percentual de Flávio Bolsonaro durante a contagem seria uma prova de erro ou fraude não encontra sustentação nos dados apresentados pela checagem.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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