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No debate da Globo, Flávio Bolsonaro disse que se for eleito, não fará privatizações

O debate presidencial realizado pela TV Globo na sexta-feira, 23 de outubro de 2026, colocou as privatizações, os gastos públicos e a política de valorização do salário mínimo entre os principais pontos de divergência entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Durante o confronto, o senador afirmou que, caso seja eleito presidente, não pretende privatizar empresas estatais como Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Petrobras, enquanto Lula questionou a coerência dessa posição diante das propostas econômicas do adversário. A discussão ganhou importância por ocorrer às vésperas do segundo turno, marcado para 25 de outubro, quando os eleitores precisavam avaliar não apenas as promessas dos candidatos, mas também as possíveis consequências de suas políticas para os serviços públicos e as contas do país.

A declaração de Flávio chamou atenção porque a privatização de empresas públicas costuma ser associada a mudanças na participação do Estado na economia, na gestão de serviços e na destinação de recursos públicos. Ao afirmar que não venderia três das principais estatais brasileiras, o senador procurou apresentar sua posição sobre o patrimônio público e afastar dúvidas a respeito de suas intenções caso chegasse à Presidência da República. Entretanto, Lula direcionou a discussão para outro aspecto do programa econômico do adversário, questionando se a promessa de preservar essas empresas seria compatível com possíveis reduções de despesas e alterações nas políticas de valorização da renda.

O presidente também cobrou explicações sobre o chamado “tesouraço”, expressão utilizada para questionar possíveis cortes de gastos e seus efeitos sobre benefícios e reajustes destinados à população. Lula perguntou se Flávio pretendia interromper ou limitar o aumento real do salário mínimo, uma vez que o senador havia prometido reajustes acima da inflação tanto para o piso salarial quanto para as aposentadorias. Dessa maneira, o confronto ultrapassou a questão das privatizações e passou a envolver uma discussão mais ampla sobre prioridades orçamentárias, compromissos eleitorais e a capacidade do próximo governo de financiar suas propostas.

Flávio fala que não fará privatizações e explica sua posição sobre as estatais

Ao declarar que não privatizaria Banco do Brasil, Caixa e Petrobras, Flávio apresentou uma posição específica sobre três empresas estratégicas para a economia brasileira. O Banco do Brasil atua no crédito, no financiamento agrícola e em diferentes serviços financeiros, enquanto a Caixa possui participação importante em programas habitacionais, benefícios sociais e operações relacionadas ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Já a Petrobras ocupa posição central no setor de petróleo e gás, de modo que decisões sobre sua estrutura societária, seus investimentos e sua atuação no mercado energético podem produzir efeitos econômicos abrangentes.

É importante diferenciar a privatização completa de uma empresa da venda de participações acionárias, da concessão de serviços públicos e da contratação de companhias privadas para executar determinadas atividades. Uma estatal pode continuar sob controle público mesmo quando parte de suas ações é negociada no mercado, assim como um serviço pode ser concedido à iniciativa privada sem que o patrimônio da empresa responsável seja integralmente transferido. Por isso, a declaração de Flávio indica que ele não pretende privatizar as três empresas mencionadas, mas não esclarece, por si só, todas as medidas que poderiam ser adotadas em relação a parcerias, investimentos, administração e participação privada em atividades econômicas.

A discussão também exige atenção à diferença entre uma promessa eleitoral e uma política pública efetivamente implementada. Caso seja eleito, Flávio precisaria definir como pretende administrar as estatais, quais objetivos estabeleceria para seus investimentos e de que maneira conciliaria eventuais mudanças de gestão com as atribuições dessas empresas. Além disso, decisões de grande impacto dependeriam das regras legais aplicáveis, das estruturas de governança e, conforme a medida proposta, dos procedimentos institucionais necessários para sua execução, razão pela qual o posicionamento apresentado no debate precisaria ser detalhado em um programa de governo mais abrangente.

Lula acusa Flávio de “tesouraço” e questiona os gastos públicos

A expressão “tesouraço”, utilizada por Lula durante o confronto, foi empregada para questionar a possibilidade de cortes em despesas públicas e seus reflexos sobre os compromissos assumidos pelo adversário. O presidente cobrou uma resposta direta sobre o reajuste do salário mínimo e das aposentadorias, enquanto Flávio afirmou que pretendia garantir aumentos acima da inflação para essas duas categorias. A divergência revelou uma questão central da política econômica brasileira: como assegurar ganhos reais de renda, financiar políticas públicas e manter as despesas governamentais dentro de limites compatíveis com as receitas disponíveis.

O salário mínimo tem impacto que vai além da remuneração dos trabalhadores que recebem o piso nacional, pois também influencia benefícios previdenciários e outras despesas vinculadas ao seu valor. Consequentemente, aumentos acima da inflação podem ampliar o poder de compra dos beneficiários, mas também elevam gastos públicos e exigem planejamento orçamentário para que os compromissos sejam cumpridos de maneira sustentável. Nesse contexto, a promessa de Flávio precisaria ser acompanhada de explicações sobre as fontes de financiamento, enquanto a cobrança de Lula direcionou a atenção para a compatibilidade entre reajustes, despesas obrigatórias e eventuais medidas de contenção de gastos.

Por outro lado, a discussão sobre cortes não pode ser reduzida à oposição entre gastar mais e gastar menos, porque o efeito de cada medida depende da despesa atingida, dos objetivos perseguidos e das consequências econômicas esperadas. Reduções de gastos administrativos, revisão de contratos, mudanças em subsídios e alterações em benefícios sociais possuem implicações diferentes para a população e para o funcionamento do Estado. Assim, para avaliar o sentido da acusação de “tesouraço”, o eleitor precisa distinguir uma crítica feita durante a campanha de uma proposta concreta de ajuste fiscal, verificando quais despesas seriam alteradas, quais seriam preservadas e como os resultados seriam medidos.

Privatizações e gastos públicos entram na disputa pelo voto

O embate entre Lula e Flávio evidenciou duas questões que frequentemente aparecem juntas nas eleições brasileiras, embora não sejam necessariamente equivalentes: o papel das empresas estatais e a administração do orçamento federal. A decisão de privatizar uma companhia envolve questões relacionadas ao controle patrimonial, à concorrência, aos investimentos e à regulação, enquanto o corte de despesas pode atingir diferentes áreas do governo, independentemente de uma empresa pública ser mantida sob controle estatal. Portanto, a posição de um candidato sobre privatizações não permite concluir automaticamente quais serão suas decisões sobre o salário mínimo, as aposentadorias ou os demais gastos públicos.

Para comparar as propostas, é necessário observar os compromissos assumidos por cada candidato e as explicações apresentadas para colocá-los em prática. Flávio declarou que não pretende privatizar Banco do Brasil, Caixa e Petrobras e prometeu reajustes acima da inflação para o salário mínimo e as aposentadorias, enquanto Lula questionou como essas promessas seriam conciliadas com as despesas do governo. O debate deixou, assim, um ponto concreto para a avaliação dos eleitores: quais medidas cada candidatura pretende adotar para administrar as estatais, financiar os benefícios e equilibrar as contas públicas sem comprometer os serviços oferecidos à população.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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