Parlamentares do Centrão não acreditam que Alexandre de Moraes enfrentará um processo de impeachment

Parlamentares do Centrão avaliam que a crise envolvendo o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o banqueiro Daniel Vorcaro atingiu um nível de gravidade sem precedentes às vésperas das eleições de 2026. Apesar disso, integrantes do grupo político demonstram forte ceticismo sobre a possibilidade de o episódio resultar em um processo de impeachment contra o magistrado no Senado. A avaliação foi divulgada pela colunista Marcela Mattos, do UOL, nesta quarta-feira (2), em meio à repercussão das mensagens que vieram a público após a retirada do sigilo determinada pelo ministro André Mendonça.
Segundo parlamentares ouvidos pela colunista, parte das informações reveladas já era conhecida, principalmente o contrato milionário firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. O que teria causado maior impacto entre integrantes do Centrão foi o conteúdo das conversas que indicaria uma atuação de Moraes em favor de Vorcaro durante o período em que as investigações contra o banqueiro avançavam. Uma das principais lideranças do grupo resumiu o sentimento em uma frase que acabou dando título à análise: “Qualquer cristão já estaria morto. Mas estamos falando de Alexandre”.
A relação entre Moraes e Vorcaro passou a ser tratada por esses parlamentares como um dos principais acontecimentos políticos do ano eleitoral. O episódio chegou a ser comparado com fatos que marcaram eleições anteriores, como a morte de Eduardo Campos em 2014, o atentado contra Jair Bolsonaro em 2018 e os ataques cometidos por Carla Zambelli e Roberto Jefferson em 2022. Mesmo diante da repercussão, a percepção predominante no Centrão é de que o Congresso dificilmente produzirá uma consequência concreta contra Moraes neste momento.
Centrão duvida de impeachment de Moraes no Senado
A resistência a um eventual impeachment está relacionada, principalmente, ao cenário político do Senado e à proximidade do período eleitoral. Esta semana deve ser uma das últimas de funcionamento regular do Congresso antes das eleições, o que reduz o espaço para uma articulação parlamentar prolongada em torno de um processo contra um ministro do STF. Nesse contexto, parlamentares avaliam que a oposição poderá fazer manifestações contundentes e apresentar novos pedidos, mas dificilmente conseguirá transformar a pressão política em uma iniciativa efetiva no curto prazo.
Outro fator considerado decisivo é a posição do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, do União Brasil pelo Amapá. Parlamentares próximos ao senador destacam a relação de amizade existente entre Alcolumbre e Moraes e avaliam que qualquer decisão seria tomada somente depois de uma análise cuidadosa das consequências políticas e institucionais das revelações. Questionado sobre o caso, Alcolumbre evitou comentar diretamente o conteúdo das mensagens e afirmou que existem atualmente 109 pedidos de impeachment contra ministros do STF, classificando esse número como algo que “não é normal”.
Ao mesmo tempo, integrantes do Centrão e da oposição enxergam outra possibilidade para a atuação de Alcolumbre. Na avaliação desses parlamentares, o presidente do Senado poderia aproveitar a crise para acelerar votações no plenário e retirar de pauta assuntos considerados mais delicados politicamente. Entre esses temas está a proposta que pretende acabar com a escala de seis dias de trabalho para um de descanso, uma pauta que já provoca forte disputa entre governo, oposição e setores empresariais.
Crise entre Moraes e Vorcaro aumenta pressão política
A divulgação das mensagens entre Moraes e Vorcaro ampliou uma crise que já vinha sendo alimentada por informações sobre o contrato de R$ 131 milhões envolvendo o escritório de Viviane Barci de Moraes e o Banco Master. O material divulgado também trouxe conversas que, segundo a reportagem, colocaram Moraes em uma posição de proximidade incomum com Vorcaro enquanto o banqueiro enfrentava problemas relacionados às investigações. Essas revelações passaram a ser utilizadas pela oposição como argumento para defender medidas mais duras contra o ministro.
A situação também provocou questionamentos dentro do próprio Supremo Tribunal Federal, principalmente em razão da decisão de André Mendonça de retirar o sigilo das mensagens e dar publicidade ao conteúdo. Um dirigente do Centrão ouvido pelo UOL avaliou que Mendonça deveria ter aguardado uma decisão do plenário antes de avançar em medidas envolvendo outro integrante da Corte. O mesmo político, porém, fez uma crítica direcionada a Moraes ao lembrar que o ministro também foi acusado por opositores de atropelar ritos processuais durante o julgamento relacionado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Nos bastidores do STF, o ambiente também passou a ser descrito como delicado. Segundo um político ouvido pela reportagem, o ministro Gilmar Mendes teria classificado o momento como difícil e defendido que os integrantes da Corte reduzissem a temperatura do conflito. A declaração atribuída ao ministro, de que seria necessário “botar a bola no chão”, revela a preocupação com o desgaste institucional provocado pelo confronto público envolvendo magistrados e pelas suspeitas relacionadas ao caso Master.
Impeachment de Moraes enfrenta obstáculos no Congresso
Embora a oposição tenha intensificado os pedidos de impeachment contra Moraes, a avaliação do Centrão indica que o caminho legislativo continua cercado por obstáculos. O Senado é responsável por processar e julgar ministros do STF em casos de crime de responsabilidade, mas a abertura de um processo depende de uma decisão política da Presidência da Casa. Por enquanto, Davi Alcolumbre não demonstrou disposição de tomar uma medida dessa dimensão com base nas informações que foram divulgadas.
O cenário poderá mudar caso as revelações provoquem uma pressão popular muito maior ou surjam novos elementos capazes de alterar a posição dos senadores. Até lá, o caso Moraes e Vorcaro deverá permanecer no centro do debate político, especialmente porque a crise surgiu em plena corrida presidencial e passou a ser explorada pelos adversários do governo e pelos aliados de Flávio Bolsonaro. Enquanto a oposição cobra providências no Congresso, integrantes do Centrão consideram que o episódio é grave, mas ainda não enxergam um caminho concreto para que o impeachment de Moraes avance no Senado.





