PF teve acesso a e-mails que indicam que Flávio pode estar ligado a um investigado de lavagem de dinheiro do INSS

Uma reportagem publicada neste sábado, 10 de outubro, por Fábio Serapião e Natália Portinari, colunistas do UOL, revelou que e-mails obtidos pela Polícia Federal indicam que o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, estava vinculado a uma conta bancária associada ao advogado Willer Tomaz. O profissional é investigado por suspeita de lavagem de dinheiro relacionada aos desvios de recursos de aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Tanto Flávio quanto Tomaz negam a existência de uma relação financeira entre os dois.
De acordo com a apuração publicada pelo UOL, os documentos foram encontrados durante as investigações da Operação Sem Desconto, que apura descontos associativos indevidos aplicados a benefícios previdenciários. Os investigadores tiveram acesso a mensagens armazenadas em uma conta do iCloud vinculada ao advogado e identificaram correspondências entre o escritório de Tomaz e o banco Santander. Uma das mensagens tratava da retirada de uma conta identificada com o nome de Flávio Bolsonaro de um conjunto de acessos bancários relacionados ao advogado.
O e-mail que chamou a atenção dos investigadores foi enviado em 22 de maio de 2025 por Fayla Zulmira Menezes, funcionária do escritório de Willer Tomaz. Na mensagem, ela solicitou ao Santander a desassociação de uma conta identificada como pertencente a Flávio Bolsonaro do chamado usuário master ligado ao advogado. Segundo a reportagem, o banco respondeu no mesmo dia confirmando a exclusão do vínculo mencionado na correspondência.
E-mails e investigação da Polícia Federal
A conta citada nas mensagens estava relacionada à Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, da qual Willer Tomaz é sócio. A companhia aparece entre as empresas analisadas pela Polícia Federal no contexto da investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro. Conforme explicou o UOL, a existência de diferentes usuários vinculados a uma conta empresarial pode permitir que mais de uma pessoa tenha acesso às operações bancárias, de acordo com as permissões estabelecidas pelo banco.
No sistema descrito pela reportagem, o usuário master possui autorização para executar todas as operações permitidas na conta, enquanto os usuários secundários têm acesso limitado às funções liberadas pelo administrador principal. A correspondência encontrada pelos investigadores indicaria que o nome de Flávio estava associado ao mesmo conjunto de acessos bancários que incluía referências à empresa de Tomaz e à conta pessoal do advogado. A documentação, segundo a apuração, levou a Polícia Federal a apontar a necessidade de aprofundar as verificações sobre as movimentações financeiras e as relações do investigado com agentes públicos.
A investigação também envolve suspeitas relacionadas ao senador Weverton Rocha (PDT-MA), que é alvo de apuração no caso dos descontos indevidos do INSS. Willer Tomaz foi submetido a busca e apreensão pela Polícia Federal em agosto, em razão das suspeitas investigadas, e seu nome aparece associado a empresas, imóveis e aeronaves examinados pelos investigadores. A operação busca esclarecer como os recursos supostamente desviados circularam e quem poderia ter se beneficiado das movimentações financeiras sob apuração.
Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz negam relação financeira
Procurada pela reportagem do UOL, a assessoria de Flávio Bolsonaro negou que o senador tenha mantido uma conta bancária cujo usuário master fosse Willer Tomaz ou alguma das empresas do advogado. A manifestação também rejeitou a afirmação de que Flávio teria criado um usuário em plataformas relacionadas ao caso e classificou as acusações como falsas. A defesa política do senador atribuiu a divulgação das informações a interesses eleitorais e afirmou que pretende responsabilizar pessoas que, segundo sua avaliação, divulguem notícias falsas.
Willer Tomaz também negou as informações apresentadas na reportagem e declarou que a conta bancária mencionada nunca lhe pertenceu. O advogado afirmou que jamais criou um usuário em nome de Flávio Bolsonaro e sustentou que a relação entre ambos se limita à amizade, sem vínculos comerciais ou financeiros. Ele também anunciou que poderá adotar medidas judiciais contra aqueles que, em sua avaliação, divulgarem acusações falsas ou utilizarem informações obtidas de maneira ilícita.
A reportagem ainda registrou outros elementos que ajudam a contextualizar a relação entre o senador e o advogado, incluindo viagens realizadas em jatos executivos e deslocamentos custeados por empresas ligadas a Tomaz. Segundo a apuração, companhias sediadas no exterior pagaram voos utilizados por Flávio e familiares em 2024 e 2025, enquanto o advogado afirmou que determinados passageiros viajaram como convidados. Esses episódios, somados aos e-mails bancários, integram o conjunto de informações que a Polícia Federal considera relevante para examinar as relações financeiras e pessoais investigadas.
Operação Sem Desconto apura desvios bilionários
A Operação Sem Desconto investiga um esquema de descontos associativos indevidos que atingiu aposentados e pensionistas do INSS, com suspeitas de prejuízos que podem chegar a bilhões de reais. Nesse contexto, a Polícia Federal analisa empresas, contas, transferências e possíveis conexões entre operadores financeiros e agentes públicos. A apuração sobre a conta vinculada ao nome de Flávio Bolsonaro faz parte dessa linha de investigação, mas não representa, por si só, uma comprovação de participação do senador em irregularidades.
O caso ganhou repercussão política porque envolve um candidato à Presidência da República e um advogado investigado em uma apuração de grande alcance nacional. Entretanto, as informações divulgadas precisam ser diferenciadas das conclusões definitivas de uma investigação, especialmente porque os dois citados negam a existência de relação financeira e contestam as acusações. O avanço das diligências e a análise dos documentos poderão esclarecer a natureza do vínculo bancário apontado nos e-mails e se houve alguma irregularidade relacionada às movimentações examinadas.





