Renan Santos deixou uma orientação para quem votou nele no 1º turno e agora terá que escolher entre Lula e Flávio

A reta final da eleição presidencial de 2026 ganhou um novo capítulo de confronto entre grupos da direita depois que Renan Santos decidiu endurecer as críticas a Flávio Bolsonaro. O presidente do partido Missão afirmou que seus eleitores que optarem pelo candidato do PL no segundo turno estarão “pagando mico” e “perdendo tempo”, em uma reação direta às declarações feitas por Pablo Marçal. A fala ocorre poucos dias antes da votação de 25 de outubro e coloca novamente no centro do debate o destino dos mais de 2,6 milhões de votos conquistados por Renan no primeiro turno.
A manifestação de Renan não significa, entretanto, uma declaração de apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que disputa o segundo turno contra Flávio Bolsonaro. Desde o encerramento da primeira etapa da eleição, o dirigente do Missão mantém uma posição de neutralidade formal e afirma que seu eleitorado tem liberdade para escolher entre os candidatos, votar nulo ou não comparecer às urnas. Agora, porém, essa neutralidade passou a ser acompanhada por uma recomendação explícita para que seus apoiadores não escolham o candidato bolsonarista.
O episódio foi desencadeado por uma declaração de Pablo Marçal, que atua como estrategista da campanha de Flávio e atacou duramente o ex-candidato em participação no podcast IronTalks TV. Marçal comparou Renan ao ditador nazista Adolf Hitler, afirmou que ele teria criado uma espécie de “seita” entre seus seguidores e também classificou os eleitores do Missão de maneira depreciativa. A resposta veio nas redes sociais e elevou o tom de uma disputa que, até então, estava concentrada principalmente na tentativa de conquistar o eleitorado que ficou sem candidato no segundo turno.
Renan Santos reage a Pablo Marçal e endurece oposição a Flávio
A reação de Renan foi construída em torno da avaliação de que os ataques de Marçal revelariam a maneira como o grupo político de Flávio Bolsonaro estaria tratando o eleitorado do Missão. Segundo o dirigente, seus apoiadores foram chamados de “esquisitos” enquanto ele próprio foi comparado a Hitler, o que tornaria contraditória uma eventual tentativa de conquistar esses votos para o segundo turno. Por isso, Renan passou a questionar publicamente se faria sentido um eleitor que recebeu esse tratamento apoiar justamente o grupo que, em sua avaliação, o desrespeitou.
Além das críticas, Renan afirmou acreditar que a campanha de Flávio considera estar à frente da disputa por uma margem suficiente para não depender dos votos do Missão. Na avaliação apresentada pelo presidente do partido, essa suposta vantagem faria com que o grupo bolsonarista não estivesse disposto a estabelecer uma aproximação mais cuidadosa com seus antigos eleitores. A interpretação, contudo, é uma avaliação política de Renan e não representa uma constatação independente sobre a estratégia eleitoral de Flávio.
O confronto também ganhou uma dimensão mais ampla porque Renan passou a dizer que poderia ser alvo de perseguição caso Flávio chegasse à Presidência. O ex-candidato afirmou que o comportamento de Marçal teria como objetivo descredibilizá-lo e comparou a estratégia utilizada contra ele a episódios anteriores nos quais adversários políticos foram submetidos a ataques pessoais. Essas acusações foram apresentadas pelo próprio Renan e, até o momento, não constituem prova de que uma eventual administração de Flávio adotaria medidas institucionais contra o Missão ou seus integrantes.
Por que os votos de Renan são importantes no segundo turno?
A relevância do posicionamento de Renan está relacionada ao tamanho de seu eleitorado na primeira rodada da eleição. Ele recebeu 2.675.887 votos, equivalentes a 2,24% dos votos válidos, ficando na quarta colocação e atrás de Flávio Bolsonaro, Lula e Augusto Cury. Além disso, o total obtido pelo candidato do Missão supera a diferença registrada entre Flávio e Lula no primeiro turno, o que explica por que esses eleitores passaram a ser disputados pelas duas campanhas.
A situação é particularmente delicada para Flávio porque uma parcela do eleitorado de Renan se identifica com posições de direita, mas não necessariamente com o bolsonarismo. Renan construiu sua trajetória política a partir de uma atuação crítica ao PT e, ao mesmo tempo, passou a defender uma alternativa ao grupo político liderado pela família Bolsonaro. Dessa maneira, uma eventual transferência desses votos não pode ser tratada como automática, já que diferentes motivações podem levar cada eleitor a escolher Flávio, Lula, o voto nulo ou simplesmente não votar.
A dificuldade de Flávio aumenta porque o próprio Renan já havia declarado, antes do episódio envolvendo Marçal, que não pretendia apoiá-lo. Em 7 de outubro, poucos dias depois do primeiro turno, o presidente do Missão afirmou ter “asco” e “ojeriza” ao candidato do PL e reforçou que não se identificava com nenhuma das duas opções que avançaram para a etapa final. Portanto, a fala sobre “pagar mico” não surgiu isoladamente, mas representa o aprofundamento de uma posição de rejeição que já havia sido apresentada publicamente.
O que significa a orientação de Renan para seus eleitores?
Na prática, Renan tenta preservar a independência política do Missão enquanto procura impedir que seu eleitorado seja incorporado automaticamente à campanha de Flávio. Ao dizer que cada apoiador pode fazer o que considerar correto, mas que votar no candidato do PL seria “perder tempo”, ele estabelece uma diferença entre liberdade individual e orientação política. Essa estratégia permite que o dirigente mantenha sua posição de neutralidade formal no segundo turno, ao mesmo tempo em que deixa clara sua preferência pela rejeição ao nome bolsonarista.
O episódio também mostra como a reta final da eleição passou a ser marcada por disputas dentro do próprio campo da direita, e não apenas pelo confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro. A troca de acusações entre Renan e Marçal revela uma divisão entre grupos que compartilham algumas posições políticas, mas possuem projetos diferentes para a direita brasileira e para a relação com o bolsonarismo. Enquanto isso, os eleitores que votaram em candidatos derrotados no primeiro turno continuam sendo cortejados, mas sua decisão final somente será conhecida quando as urnas forem abertas no segundo turno.
A declaração “disposto a pagar mico?” ganhou força justamente porque resume, em uma expressão provocativa, o argumento utilizado por Renan para tentar afastar seus apoiadores de Flávio Bolsonaro. Embora o presidente do Missão não tenha declarado apoio a Lula e tenha indicado que pode votar nulo ou sequer comparecer às urnas, sua orientação representa um obstáculo adicional para a campanha do PL na busca pelos votos que ficaram disponíveis após o primeiro turno. O efeito eleitoral dessa decisão ainda é impossível de medir, mas o episódio deixa claro que os milhões de votos obtidos por Renan se tornaram um dos elementos relevantes da disputa presidencial na semana decisiva.





