“Temos a solução”: conversa de empresário com Vorcaro levanta dúvidas sobre a COP30

Empresário citou Lula “desesperado” na COP30 e buscou “solução” com Vorcaro
A organização da COP30, realizada em Belém (PA), em novembro de 2025, voltou ao centro do debate político após mensagens obtidas pela Polícia Federal revelarem uma conversa entre o empresário Marcelo Cohen e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. No diálogo, ocorrido em fevereiro daquele ano, Cohen afirmou que o governo federal estaria “desesperado” diante dos preparativos para a conferência climática e sugeriu que ele e Vorcaro teriam uma “solução” para o problema. O conteúdo chama atenção porque a empresa de Cohen, a Qualitours Agência de Viagens e Turismo Ltda., posteriormente foi contratada para atuar na hospedagem de participantes da COP30 por meio de navios de cruzeiro. Contudo, as mensagens, por si só, não comprovam que Lula ou Rui Costa tenham participado da conversa ou solicitado qualquer intervenção aos empresários.
Empresário citou Lula e Rui Costa em conversa com Vorcaro
A troca de mensagens foi registrada em 27 de fevereiro de 2025 e, segundo as informações divulgadas a partir do material obtido pela PF, começou quando Marcelo Cohen procurou Daniel Vorcaro para falar sobre as dificuldades relacionadas à hospedagem da COP30. Cohen era proprietário da Qualitours e também mantinha negócios com Vorcaro, incluindo uma sociedade no hotel Botanique, em Campos do Jordão, no interior de São Paulo. Na conversa, o empresário afirmou que o governo estava em uma situação de urgência por causa da conferência e perguntou se seria importante para Vorcaro manter uma boa relação com integrantes do governo. Vorcaro respondeu afirmativamente. Em seguida, Cohen tentou fazer uma ligação e, como não foi atendido, enviou outra mensagem na qual mencionou diretamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o então ministro da Casa Civil, Rui Costa. É importante ressaltar, entretanto, que a expressão de que Lula e Rui Costa estariam “desesperados” aparece como uma avaliação feita por Cohen na conversa, e não como uma declaração atribuída aos dois integrantes do governo.
Qual era o problema de hospedagem da COP30?
A questão mencionada nas mensagens estava relacionada a uma dificuldade concreta enfrentada pela organização da COP30: a capacidade limitada de hospedagem em Belém para receber delegações, autoridades e demais participantes de uma conferência internacional de grande porte. Por isso, uma estrutura alternativa foi planejada com o uso de navios de cruzeiro atracados na capital paraense. O próprio portal oficial da COP30 informou que cabines de navios permaneceriam disponíveis no Porto de Outeiro como uma das alternativas de acomodação. Posteriormente, a Embratur conduziu um chamamento público para selecionar a empresa responsável pela operação e comercialização das cabines. A Qualitours foi qualificada nesse processo para prestar serviços de hospitalidade e operar a estrutura durante o período do evento.
Qualitours e o contrato dos cruzeiros da COP30
A contratação ganhou relevância porque a Qualitours, ligada empresarialmente a Marcelo Cohen, ficou responsável pela operação relacionada aos navios utilizados como unidades temporárias de hospedagem. Documentos apresentados pela Casa Civil ao Congresso apontaram que o gasto total do governo federal com a operação chegou a R$ 350.240.506,46. O valor envolveu a estrutura montada para atender à demanda extraordinária de hospedagem durante a COP30. De acordo com informações oficiais posteriormente divulgadas, dois navios foram utilizados na operação, enquanto a contratação da empresa responsável pela logística foi feita pela Embratur. Além disso, o processo foi submetido ao controle externo. O Tribunal de Contas da União analisou a contratação e, em decisão unânime, considerou improcedente a representação que questionava o procedimento, registrando que o modelo adotado havia sido considerado economicamente vantajoso diante da alternativa de afretamento direto.
O que dizem governo e empresa sobre a “solução” para a COP30
Apesar da repercussão das mensagens, governo e empresa apresentaram versões que afastam qualquer participação do Banco Master ou de Daniel Vorcaro na contratação dos navios. A Embratur informou que a Qualitours foi selecionada por meio de chamamento público e apresentou a documentação exigida para demonstrar capacidade técnica e idoneidade. A agência também afirmou que a estrutura financeira da operação recebeu garantia do BTG Pactual, por meio de carta-fiança, e que o Banco Master não participou do processo de contratação. A Qualitours, por sua vez, declarou que os serviços foram executados de acordo com as exigências técnicas e negou participação de Vorcaro ou do Banco Master na contratação. Assim, embora a conversa tenha revelado que Cohen discutia internamente uma possível “solução” para a questão da hospedagem, não há, no material citado, comprovação de que essa conversa tenha determinado a contratação posterior da empresa.
Por que as mensagens chamaram atenção?
O interesse da Polícia Federal e do debate público está principalmente na coincidência temporal entre a conversa e os acontecimentos posteriores. Em fevereiro de 2025, Cohen apresentou a Vorcaro a ideia de que os empresários poderiam ajudar a resolver uma dificuldade associada à COP30. Meses depois, a empresa de Cohen foi selecionada pela Embratur para participar da estrutura de hospedagem do evento. Além disso, a relação empresarial entre Cohen e Vorcaro já existia antes da contratação, o que explica por que o conteúdo das mensagens passou a ser analisado no contexto mais amplo das investigações envolvendo o ex-banqueiro. Entretanto, uma relação empresarial anterior ou uma conversa sobre uma possível solução não é, isoladamente, prova de irregularidade na contratação. Para que uma eventual ilegalidade fosse caracterizada, seria necessário demonstrar, por exemplo, interferência indevida no procedimento, direcionamento, fraude ou vantagem ilícita, algo que não pode ser presumido apenas a partir das mensagens divulgadas.
O que aconteceu depois da COP30
A discussão sobre os cruzeiros continuou mesmo após o encerramento da conferência. O valor de aproximadamente R$ 350,2 milhões foi analisado no âmbito do controle público, e o TCU concluiu que a representação apresentada contra a contratação era improcedente. Segundo o tribunal, a operação ocorreu diante das limitações estruturais de Belém e o modelo escolhido apresentou justificativa técnica e econômica. Paralelamente, as mensagens extraídas do celular de Vorcaro passaram a integrar o conjunto de informações analisadas pela Polícia Federal em suas investigações. Portanto, existem duas dimensões diferentes que precisam ser separadas: de um lado, está a investigação sobre as relações e conversas envolvendo empresários; de outro, está a análise administrativa da contratação dos navios, que recebeu avaliação favorável do órgão de controle. Essa distinção é importante para evitar que uma investigação sobre possíveis relações entre pessoas seja confundida automaticamente com uma conclusão de irregularidade no contrato público.
Caso expõe bastidores da hospedagem da COP30
O episódio envolvendo Marcelo Cohen, Daniel Vorcaro e a hospedagem da COP30 mostra como uma necessidade logística de grandes proporções pode aproximar governo, empresas e instituições financeiras em um curto espaço de tempo. Belém precisou ampliar sua capacidade de acomodação para receber um evento internacional, e os navios foram incorporados à estratégia de hospedagem diante da limitação da rede disponível. Ao mesmo tempo, mensagens privadas revelaram que empresários discutiam antecipadamente uma maneira de contribuir para solucionar o problema. A partir daí, a principal questão jornalística passa a ser compreender exatamente quais foram os contatos, decisões e procedimentos que levaram da discussão privada à contratação efetivamente realizada. Até o momento, porém, as informações disponíveis indicam que a Qualitours foi selecionada por procedimento conduzido pela Embratur e que a contratação foi posteriormente analisada pelo TCU. As mensagens atribuídas a Cohen, por sua vez, devem ser tratadas como parte de um material investigativo e não como prova, por si só, de uma atuação irregular de Lula, Rui Costa, Vorcaro ou da própria empresa.





