Trump fez duras críticas ao Brasil no que se refere ao combate ao crime organizado

O governo de Donald Trump elevou o tom das críticas ao Brasil ao avaliar a atuação do país no combate ao tráfico de drogas e às organizações criminosas. Ao mesmo tempo, Washington adotou uma abordagem diferente ao mencionar outros países latino-americanos governados pela direita, que foram citados de maneira positiva por suas ações contra grupos ligados ao narcotráfico. A diferença de tratamento passou a chamar atenção justamente em um momento de tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos e de forte disputa política no continente.
A manifestação norte-americana foi apresentada em um relatório anual enviado ao Congresso dos Estados Unidos, no qual o governo Trump avaliou a cooperação internacional no combate às drogas. No documento, o Brasil foi criticado pela atuação contra organizações como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), enquanto avanços de governos latino-americanos foram destacados em outras partes do relatório. Assim, o posicionamento americano colocou segurança pública, combate ao narcotráfico e política externa no centro de uma nova discussão entre Washington e Brasília.
Além disso, a avaliação norte-americana ocorre em um contexto de mudanças na política de combate ao crime organizado na América Latina. Trump citou avanços relacionados a países como Venezuela, Colômbia, Peru, Argentina, Equador e El Salvador, embora cada caso apresente circunstâncias políticas, policiais e institucionais diferentes. Dessa maneira, a comparação feita pelo governo dos Estados Unidos precisa ser observada dentro de uma estratégia regional mais ampla, e não apenas como uma manifestação isolada sobre o Brasil.
Ao criticar Brasil, Trump destaca governos de direita na América Latina
Entre os pontos que ganharam destaque está a retirada da Venezuela da lista americana de países considerados insuficientes no combate ao tráfico de drogas, mudança anunciada por Trump nesta quarta-feira (16). Segundo o presidente americano, a decisão estaria relacionada à cooperação estabelecida com o governo interino de Delcy Rodríguez e a ações contra organizações criminosas que atuavam no país. A medida foi apresentada por Washington como resultado de mudanças na cooperação de segurança, embora Venezuela e Colômbia continuem sendo classificadas pelos Estados Unidos entre países importantes para o trânsito ou produção de drogas.
A Colômbia também passou a ser citada no contexto dessa revisão da política americana, com Trump afirmando que o país poderia deixar a lista caso fossem registrados avanços considerados suficientes no combate à produção de cocaína e às organizações criminosas. O governo colombiano atualmente é comandado por Abelardo De La Espriella, depois da mudança política que encerrou o período de Gustavo Petro na Presidência. Por outro lado, a própria classificação americana mostra que a situação do narcotráfico permanece complexa, já que medidas de combate ao crime não eliminam automaticamente a condição de país de trânsito ou produção de entorpecentes.
No caso brasileiro, a crítica foi direcionada especialmente à atuação contra PCC e Comando Vermelho, organizações que passaram a receber uma classificação mais dura na política americana. O relatório apontou o Brasil como um ponto relevante no fluxo internacional de cocaína e cobrou medidas consideradas mais firmes contra as facções, apesar de o país não figurar entre os principais produtores mundiais da droga. Portanto, o documento não apenas avaliou a segurança pública brasileira, mas também inseriu o combate às organizações criminosas no relacionamento estratégico entre os dois governos.
Trump, Brasil e a nova pressão sobre o combate às facções
A reação brasileira precisa ser entendida dentro de uma relação diplomática que já vinha sendo marcada por divergências entre Lula e Trump. Nos últimos meses, os dois governos entraram em choque em temas econômicos, diplomáticos e judiciais, enquanto Washington adotou medidas de pressão sobre autoridades brasileiras e Brasília contestou algumas das decisões americanas. Paralelamente, dificuldades na cooperação policial também foram relatadas, com disputas envolvendo vistos e intercâmbio entre agentes responsáveis por investigações sobre crimes transnacionais.
O combate às facções brasileiras também ganhou dimensão internacional porque PCC e Comando Vermelho atuam em redes criminosas que ultrapassam as fronteiras nacionais. Segundo o governo americano, essas organizações estão relacionadas a atividades que afetam o fluxo internacional de drogas, o que levou Washington a elevar o nível das medidas contra esses grupos. Entretanto, a classificação e as acusações feitas pelos Estados Unidos devem ser diferenciadas das avaliações e procedimentos adotados pelas autoridades brasileiras, que possuem legislação, instituições e estratégias próprias de enfrentamento ao crime organizado.
Nesse cenário, a comparação entre o Brasil e governos latino-americanos de direita também ganhou relevância política dentro da eleição presidencial brasileira de 2026. A política externa passou a ocupar espaço maior no debate eleitoral, principalmente por causa das diferentes propostas dos candidatos para a relação com os Estados Unidos, a China, o Brics e os mecanismos regionais de segurança. Enquanto Lula defende uma política externa voltada ao fortalecimento do Brics e à cooperação com países do Sul Global, Flávio Bolsonaro apresenta uma posição mais próxima de Washington e defende maior aproximação estratégica com os Estados Unidos.
Críticas dos EUA ao Brasil ampliam debate sobre segurança
A posição de Trump, portanto, possui consequências que vão além da discussão específica sobre drogas e facções. Ao elogiar determinadas administrações latino-americanas e cobrar mudanças do Brasil, o governo americano estabelece parâmetros próprios para avaliar a cooperação antidrogas na região, enquanto Brasília precisa administrar simultaneamente questões de soberania, segurança nacional e relacionamento diplomático. Esse cenário tende a manter o combate ao crime organizado como um dos temas mais sensíveis da relação entre os dois países.
Além disso, a discussão ocorre em um momento no qual segurança pública e combate às organizações criminosas ocupam espaço significativo na disputa presidencial brasileira. O relatório americano acrescenta uma dimensão internacional ao debate, mas as políticas de segurança continuam dependendo das instituições brasileiras, das forças policiais, do sistema de Justiça e das decisões tomadas pelo Congresso e pelo Executivo. Por isso, a avaliação de Washington representa uma posição do governo dos Estados Unidos, enquanto os resultados concretos das políticas brasileiras precisam ser analisados a partir de dados nacionais, investigações e medidas efetivamente adotadas no país.





