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TSE estabeleceu uma multa no valor de R$ 100 mil caso a meta não explique o alcance de vídeo de Nikolas Ferreira

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deu 12 horas para a Meta explicar como um vídeo publicado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) conseguiu alcançar mais de 160 milhões de visualizações no Instagram, em um episódio que colocou novamente os algoritmos das redes sociais no centro da disputa eleitoral de 2026. A determinação foi assinada pelo corregedor-geral eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, e veio acompanhada de multa de R$ 100 mil por hora em caso de atraso no fornecimento das informações solicitadas. Entretanto, a decisão não afirma que houve manipulação ou favorecimento, mas busca obter dados técnicos para esclarecer de que maneira o conteúdo foi distribuído pela plataforma.

O vídeo em questão foi publicado por Nikolas Ferreira em 20 de outubro e recebeu o título “O Nordeste que foi esquecido”, apresentando depoimentos de moradores da região que fazem críticas ao governo federal e manifestações de apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência. Segundo os dados apresentados ao tribunal, a publicação atingiu aproximadamente 12 milhões de visualizações em apenas 30 minutos, chegou a 50 milhões em três horas e alcançou 103,2 milhões em nove horas, até superar posteriormente a marca de 160 milhões. Por isso, o desempenho passou a ser considerado relevante para a Justiça Eleitoral, especialmente porque o perfil de Nikolas possui cerca de 25 milhões de seguidores e o vídeo ultrapassou marcas registradas por publicações de grandes celebridades internacionais.

A discussão ganhou importância adicional porque a determinação ocorreu a poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro, quando a circulação de conteúdo político nas redes sociais tende a exercer forte influência sobre o debate público. A representação foi apresentada pela campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que questiona a possibilidade de ter ocorrido favorecimento algorítmico em favor de perfis ligados à candidatura de Flávio Bolsonaro, enquanto a Meta nega tratamento preferencial e afirma que o alcance é impulsionado principalmente pelo engajamento dos usuários. Assim, a questão central não é apenas quantas pessoas assistiram ao vídeo, mas quantas foram alcançadas por recomendações automáticas, quantas já seguiam o parlamentar e quais mecanismos fizeram a publicação atingir uma audiência tão ampla.

TSE dá 12 horas para esclarecer o alcance do vídeo

A ordem do TSE determina que a Meta apresente informações quantitativas sobre a origem das visualizações e esclareça qual parcela do público era formada por seguidores e não seguidores dos perfis envolvidos na investigação. Também deverá ser explicado quais foram as principais superfícies de distribuição utilizadas pelo Instagram, permitindo diferenciar, na medida tecnicamente possível, visualizações resultantes de recomendações algorítmicas, acessos diretos, compartilhamentos e reproduções repetidas. Dessa maneira, pretende-se reconstruir tecnicamente o caminho percorrido pelo conteúdo até alcançar uma audiência superior a 160 milhões de visualizações.

A preocupação do tribunal está relacionada ao funcionamento dos mecanismos de recomendação das plataformas digitais, que podem fazer uma publicação chegar a pessoas que jamais haviam seguido o perfil responsável pelo conteúdo. Dados apresentados na decisão indicam que, no caso do perfil de Nikolas no X, houve uma mudança expressiva na participação de seguidores nas impressões após a retirada de um filtro de não recomendação, passando de uma faixa entre 80% e 91% para aproximadamente 28% a 41%. Embora esses dados sejam referentes ao X e não comprovem qualquer irregularidade no Instagram, o ministro considerou que a alteração reforça a necessidade de compreender melhor a influência dos sistemas automatizados de distribuição.

Outro aspecto importante é que a Justiça Eleitoral já vinha acompanhando a atuação de plataformas digitais na campanha de 2026, especialmente diante da crescente importância dos sistemas de recomendação para a formação da audiência política. Em 19 de outubro, o próprio TSE havia determinado que Nikolas Ferreira e Pablo Marçal não voltassem a divulgar conteúdos que já tinham sido retirados por decisões judiciais, além de ordenar que Meta e X impedissem impulsionamento pago e tratamento privilegiado das contas investigadas até o encerramento do segundo turno. Naquela ocasião, contudo, a circulação orgânica dos perfis permaneceu permitida, e o ministro ressaltou que o recebimento da ação não significava reconhecimento prévio de irregularidade ou responsabilidade dos investigados.

Meta nega favorecimento e explica funcionamento do algoritmo

A Meta, empresa responsável pelo Instagram e pelo Facebook, sustenta que o número de seguidores de uma conta não determina sozinho o alcance de uma publicação e que o engajamento possui papel decisivo na distribuição dos conteúdos. Segundo a companhia, vídeos que acumulam rapidamente visualizações, curtidas, comentários e compartilhamentos podem ser recomendados para um público maior, inclusive para pessoas que não acompanham originalmente o perfil responsável pela publicação. Portanto, na explicação apresentada pela empresa, uma conta com uma base menor de seguidores pode alcançar uma audiência muito superior quando determinado conteúdo apresenta desempenho elevado entre os usuários.

A empresa também nega ter adotado regras diferentes para políticos ou candidatos e afirma que os mesmos critérios de distribuição são aplicados aos usuários, sem tratamento preferencial. A manifestação foi apresentada justamente em meio às cobranças da Justiça Eleitoral para que as plataformas forneçam informações mais detalhadas sobre a circulação de conteúdos políticos durante o período eleitoral. Além disso, a Meta já havia sido chamada a prestar esclarecimentos sobre medidas relacionadas à igualdade de tratamento entre campanhas, o que demonstra que o episódio envolvendo Nikolas faz parte de uma fiscalização mais ampla sobre o papel das redes sociais nas eleições.

O caso também chama atenção porque o desempenho do vídeo de Nikolas Ferreira foi comparado ao de publicações de algumas das maiores celebridades do Instagram, como Cristiano Ronaldo, Lionel Messi e Neymar, que possuem bases de seguidores muito superiores. Segundo levantamento citado na cobertura do episódio, Nikolas tinha aproximadamente 25 milhões de seguidores quando o conteúdo ultrapassou 160 milhões de visualizações, enquanto as contas das celebridades mencionadas possuem centenas de milhões de seguidores. Essa comparação, por si só, não comprova qualquer interferência indevida, mas ajuda a explicar por que o crescimento acelerado da publicação despertou questionamentos e passou a ser analisado pela Justiça Eleitoral.

O que a decisão do TSE pode mudar nas eleições de 2026

A resposta da Meta poderá ser importante para determinar se o alcance excepcional do vídeo pode ser explicado pelos mecanismos normais de recomendação ou se existem elementos que justifiquem uma investigação mais aprofundada sobre a distribuição do conteúdo. Caso os dados demonstrem que a maior parte das visualizações veio de usuários alcançados organicamente por compartilhamentos e alto engajamento, a explicação da empresa poderá ganhar força; por outro lado, se forem identificados padrões atípicos ainda não esclarecidos, novas medidas poderão ser discutidas pela Justiça Eleitoral. Por isso, o principal efeito da decisão neste momento é aumentar a transparência sobre uma etapa do processo eleitoral que normalmente permanece pouco visível para o público.

O episódio revela, ainda, uma mudança importante na maneira como campanhas eleitorais são disputadas no ambiente digital, já que a influência política deixou de depender exclusivamente de propaganda tradicional, televisão e grandes estruturas partidárias. Atualmente, sistemas automatizados podem determinar quais vídeos aparecem para usuários que não seguem determinado candidato, ampliando rapidamente uma mensagem e alterando a dimensão de sua audiência em poucas horas. Consequentemente, a discussão sobre igualdade eleitoral passou a envolver não apenas candidatos e partidos, mas também empresas de tecnologia, critérios algorítmicos, métricas de engajamento e mecanismos de recomendação.

É importante, contudo, evitar conclusões antecipadas sobre o episódio envolvendo Nikolas Ferreira, pois a existência de um alcance extraordinário não constitui, isoladamente, prova de irregularidade eleitoral ou de manipulação por parte da Meta. O próprio TSE está solicitando informações justamente para verificar tecnicamente o que aconteceu, enquanto a empresa deverá explicar as métricas utilizadas e as limitações eventualmente existentes nos dados apresentados. Dessa forma, a conclusão sobre eventual favorecimento dependerá das informações que forem entregues ao tribunal e da análise posterior dos elementos reunidos no processo.

O episódio, portanto, ultrapassa a disputa específica envolvendo Nikolas Ferreira e coloca em debate uma questão que deverá ganhar cada vez mais espaço nas próximas eleições: até que ponto os algoritmos das grandes plataformas influenciam a visibilidade de candidatos e suas mensagens. Se o alcance de mais de 160 milhões de visualizações for explicado por engajamento espontâneo, o caso mostrará a enorme capacidade de viralização de uma publicação política; se forem encontradas inconsistências, poderá haver consequências para a fiscalização das plataformas durante processos eleitorais. Enquanto isso, o TSE dá 12 horas para a Meta apresentar os esclarecimentos solicitados, e a resposta da empresa poderá ajudar a definir os próximos passos da investigação sobre a distribuição de conteúdo político nas redes sociais.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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