Vorcaro revelou “solução” ao BC horas antes da prisão: o que aconteceria com o Master?

Vorcaro avisou BC sobre “solução” para venda do Master antes de ser preso
Vorcaro avisou BC sobre solução que, segundo seu próprio relato, poderia viabilizar a venda do Banco Master poucas horas antes de ser preso, em 17 de novembro de 2025. A declaração foi apresentada por Daniel Vorcaro durante uma oitiva realizada em agosto deste ano e tornou-se conhecida após a ampliação da publicidade de documentos relacionados às investigações do banco. De acordo com o ex-controlador da instituição, naquela manhã o Banco Central teria sido informado de que uma alternativa privada havia sido estruturada para transferir o controle do Master a novos investidores. Vorcaro afirmou que um primeiro contrato estava sendo protocolado e que outros documentos seriam concluídos durante uma viagem programada para os Emirados Árabes Unidos. Entretanto, a operação nunca chegou a ser efetivada. No dia seguinte, 18 de novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de outras instituições do conglomerado, interrompendo definitivamente a tentativa de venda nos moldes apresentados naquele momento.
Vorcaro avisou BC sobre solução após fracasso do acordo com BRB
A busca por novos compradores havia ganhado urgência depois que não avançou a tentativa de aquisição do Master pelo Banco de Brasília (BRB). Segundo o depoimento de Vorcaro, após esse revés teria sido solicitado ao Banco Central um período de até 180 dias para apresentação de uma alternativa capaz de reorganizar a instituição. Contudo, o empresário sustenta que conseguiu estruturar uma proposta em aproximadamente dois meses. Durante esse período, ele afirmou ter viajado pelo menos três vezes aos Emirados Árabes Unidos para conversar com potenciais investidores privados. A nova negociação seria dividida em três blocos, sendo que o primeiro, conforme sua versão, já estaria documentado em contrato. Os dois restantes seriam finalizados durante a viagem prevista para a noite de 17 de novembro. Dessa forma, quando Vorcaro avisou BC sobre solução, sua intenção declarada era demonstrar ao regulador que havia uma alternativa à deterioração financeira do Master. Naturalmente, a existência de uma proposta não significava que sua aprovação pelo Banco Central estivesse garantida.
Venda do Banco Master dependeria de aprovação dos reguladores
Naquele mesmo 17 de novembro, a Fictor Holding Financeira anunciou uma proposta de aquisição do Banco Master em conjunto com investidores dos Emirados Árabes Unidos. A estrutura divulgada previa aporte imediato de aproximadamente R$ 3 bilhões para reforçar o capital da instituição. Entretanto, uma transação dessa dimensão não poderia ser concluída exclusivamente por um acordo entre compradores e vendedores. A transferência de controle de uma instituição financeira precisaria ser submetida ao Banco Central e, conforme a estrutura da operação, também poderia depender da análise concorrencial do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Portanto, mesmo que os contratos mencionados por Vorcaro estivessem prontos, ainda seria necessário superar diferentes etapas regulatórias. Além disso, caberia ao BC avaliar aspectos como capacidade financeira dos compradores, origem dos recursos, governança e condições econômico-financeiras da instituição. Assim, a “solução” descrita pelo ex-banqueiro deve ser entendida como uma proposta que pretendia ser apresentada aos reguladores, e não como uma venda definitivamente concluída antes de sua prisão.
Liquidação do Master ocorreu no dia seguinte
O cenário mudou completamente em 18 de novembro de 2025. Naquela data, o Banco Central decretou oficialmente a liquidação extrajudicial do Banco Master S.A., do Banco Master de Investimento, do Letsbank e da Master Corretora, além de estabelecer Regime Especial de Administração Temporária para o Banco Master Múltiplo. Segundo a explicação oficial do BC, a medida foi motivada pela grave crise de liquidez enfrentada pelo conglomerado, pelo comprometimento significativo de sua situação econômico-financeira e por graves violações às normas que disciplinam as instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional. Além disso, os bens dos controladores e ex-administradores das instituições submetidas aos regimes especiais foram tornados indisponíveis nos termos da legislação aplicável. Consequentemente, a tentativa de venda anunciada no dia anterior perdeu espaço diante da intervenção do regulador. A liquidação extrajudicial é uma medida administrativa utilizada quando a autoridade monetária conclui que não existem condições adequadas para a continuidade normal de determinada instituição financeira.
Vorcaro avisou BC sobre solução antes de viagem aos Emirados
A cronologia apresentada pelo próprio Vorcaro é especialmente relevante porque ele sustenta que a viagem prevista para aquela noite tinha finalidade empresarial. Em sua versão, o Banco Central teria sido comunicado pela manhã sobre o avanço das negociações, enquanto os contratos restantes seriam fechados nos dias seguintes no exterior. Entretanto, a viagem não foi realizada como planejado porque Vorcaro foi preso. O relato integra agora o amplo conjunto documental relacionado ao caso Master, cuja publicidade foi parcialmente ampliada pelo ministro André Mendonça. A decisão foi tomada depois de uma solicitação do presidente do STF, Edson Fachin, em meio à crise provocada por informações existentes nas diferentes investigações sobre o banco. Mendonça retirou o sigilo de uma série de procedimentos, embora tenha preservado informações cuja divulgação poderia comprometer diligências. Dessa maneira, novos depoimentos e documentos passaram a permitir uma reconstrução mais detalhada dos acontecimentos que antecederam a intervenção no conglomerado financeiro.
Relato de Vorcaro não altera fundamentos apresentados pelo Banco Central
Embora a versão do ex-banqueiro acrescente informações importantes à cronologia, ela não significa que a alternativa apresentada necessariamente teria sido suficiente para impedir a liquidação. O Banco Central, como autoridade responsável pela supervisão do sistema financeiro, declarou oficialmente que a situação do conglomerado apresentava problemas de liquidez, comprometimento econômico-financeiro e violações graves das normas do setor. Portanto, mesmo diante de um potencial comprador, seria necessário avaliar se a proposta possuía condições concretas para resolver os problemas identificados. Além disso, uma solução privada poderia ser rejeitada caso não atendesse aos requisitos prudenciais e regulatórios. O BC também informou que continuaria apurando responsabilidades dentro de suas competências e que as conclusões poderiam resultar em medidas administrativas e comunicações a outras autoridades. Assim, o depoimento de Vorcaro apresenta a perspectiva do antigo controlador sobre uma tentativa de evitar o colapso do negócio, enquanto os atos oficiais do regulador mostram que a avaliação institucional realizada naquele momento levou a uma conclusão diferente.
Novos documentos ajudam a reconstruir últimos dias do Banco Master
Por fim, a revelação de que Vorcaro avisou BC sobre solução para o Master horas antes de sua prisão adiciona uma peça importante à reconstrução dos últimos dias da instituição, mas não encerra a discussão sobre a viabilidade daquela proposta. De um lado, Vorcaro afirma que investidores privados estavam preparados para assumir o banco e que os documentos seriam apresentados rapidamente ao Banco Central. De outro, no dia seguinte, o regulador concluiu que a situação justificava a aplicação de regimes especiais e decretou a liquidação de instituições do conglomerado. Posteriormente, o Banco Master Múltiplo, inicialmente submetido a administração temporária, também acabou colocado em liquidação extrajudicial em março de 2026. Portanto, a divulgação dos depoimentos permite compreender melhor a versão do antigo controlador, mas não comprova que a venda teria sido aprovada ou que seria capaz de solucionar os problemas identificados pelo regulador. À medida que novos documentos se tornam públicos, a cronologia financeira, regulatória e judicial do caso Master poderá ser analisada com maior precisão.





