Integrantes da campanha de Flávio Bolsonaro estão buscando uma nova estratégia

A campanha de Flávio Bolsonaro passou a concentrar esforços em uma frente considerada estratégica para a disputa presidencial de 2026: a aproximação com empresários, representantes do mercado financeiro e lideranças do agronegócio. O movimento ganhou força justamente em um momento no qual o candidato do PL tenta ampliar sua capacidade de diálogo para além da base política tradicional ligada ao bolsonarismo. Dessa maneira, a estratégia passou a combinar reuniões com integrantes da chamada Faria Lima, em São Paulo, e uma presença mais frequente em eventos ligados ao setor rural.
Segundo informações divulgadas pelo Metrópoles, aliados de Flávio Bolsonaro discutiam aproveitar compromissos do senador em São Paulo, no início de setembro, para promover uma nova rodada de conversas com empresários e representantes do mercado financeiro. A iniciativa ganhou importância porque tentativas anteriores de aproximação haviam sido prejudicadas por episódios que provocaram desgaste junto a parte do empresariado. Ao mesmo tempo, a campanha passou a investir em uma agenda econômica destinada a apresentar o candidato como alguém capaz de dialogar com o setor produtivo e oferecer maior previsibilidade aos investidores.
No agronegócio, o movimento também foi acelerado, sobretudo depois da participação de Flávio na Festa do Peão de Barretos, em São Paulo, no dia 22 de agosto. O candidato fez um discurso voltado aos produtores rurais e afirmou que o agro ocupava papel central na economia brasileira, enquanto sua presença no evento foi acompanhada por manifestações de parte do público contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Além disso, uma nova agenda já havia sido planejada para 2 de setembro, quando Flávio deveria visitar a Expointer, no Rio Grande do Sul, e se reunir com entidades representantes do setor rural.
Campanha de Flávio Bolsonaro mira aproximação com a Faria Lima
A tentativa de aproximação com a Faria Lima não surgiu por acaso, pois o mercado financeiro representa um segmento importante para qualquer candidatura presidencial que pretenda apresentar credibilidade na condução da economia. Antes mesmo da consolidação da candidatura de Flávio, parte do empresariado demonstrava preferência pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, como alternativa da direita para a Presidência. Por isso, a campanha passou a trabalhar para reduzir resistências e demonstrar que o senador poderia manter uma relação institucional com empresários, investidores e grandes grupos econômicos.
Esse esforço foi reforçado pela atuação de nomes escolhidos para coordenar a área econômica da candidatura. A ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques e o ex-ministro de Minas e Energia Adolfo Sachsida passaram a participar da construção das propostas econômicas e também ajudaram a aproximar Flávio de representantes do setor produtivo. Entre as medidas apresentadas no plano de governo estão a substituição do atual arcabouço fiscal por uma nova regra para controlar a dívida pública, a redução de ministérios e cargos comissionados e mudanças na reforma tributária.
A agenda econômica também foi apresentada diretamente a empresários durante uma reunião na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a Fiesp, realizada em 24 de agosto. Na ocasião, Flávio defendeu maior previsibilidade para investimentos, escolha de ministros com perfil técnico e aceleração dos processos de licenciamento ambiental dentro da legislação, além de criticar a proposta de encerramento da escala 6×1. O encontro foi acompanhado por uma agenda empresarial que reuniu representantes de grandes companhias, mostrando que a campanha pretende ocupar espaços tradicionalmente frequentados por candidatos que buscam demonstrar proximidade com o setor privado.
Flávio Bolsonaro amplia ofensiva sobre o agronegócio
No campo, a estratégia apresenta uma vantagem política adicional para Flávio Bolsonaro, já que o agronegócio foi uma das áreas nas quais Jair Bolsonaro construiu uma relação especialmente próxima durante sua trajetória política. O candidato do PL procura aproveitar essa identificação para consolidar uma imagem de defensor dos produtores rurais e das atividades econômicas ligadas ao campo. Assim, a presença em feiras, exposições e eventos agropecuários passou a ser utilizada como instrumento para fortalecer vínculos com produtores, entidades e lideranças regionais.
A próxima etapa dessa estratégia deverá ocorrer na Expointer, em Esteio, no Rio Grande do Sul. Flávio deverá participar de atividades relacionadas à campanha de Luciano Zucco ao governo gaúcho, visitar a feira e conversar com representantes da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul, a Farsul. O estado possui relevância expressiva na produção agrícola brasileira e, segundo estimativa do IBGE citada na reportagem, deverá responder por aproximadamente 69% do arroz produzido no país em 2026, o que ajuda a explicar o interesse eleitoral da campanha pela região.
A estratégia ainda recupera uma parte importante do roteiro político utilizado por Jair Bolsonaro em eleições anteriores. Em 2022, o então presidente participou da Expointer e utilizou a feira como espaço para dialogar diretamente com produtores e demonstrar proximidade com o setor rural, depois de já ter participado do evento em 2021. Agora, a presença de Flávio nesses mesmos ambientes permite que a campanha tente preservar uma relação construída pelo pai e, simultaneamente, apresentar o senador como candidato capaz de assumir esse espaço político em 2026.
Desafio será transformar aproximação em apoio eleitoral
Apesar dos movimentos recentes, a aproximação com empresários e com o agronegócio não significa automaticamente que esses segmentos tenham aderido à candidatura de Flávio Bolsonaro. O mercado financeiro, em particular, vinha demonstrando cautela em relação ao candidato, e uma tentativa de reunir Flávio com empresários no interior paulista havia sido prejudicada pela divulgação de áudios envolvendo o senador e Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, episódio que provocou repercussão negativa e dificultou temporariamente novas articulações. Portanto, a campanha terá de transformar encontros institucionais em confiança política e econômica, algo que dependerá não apenas das propostas apresentadas, mas também da evolução da disputa eleitoral.
O desafio ocorre em uma eleição na qual Flávio Bolsonaro já aparece competitivo em diferentes levantamentos, mas ainda enfrenta uma disputa acirrada com Lula e precisa ampliar sua capacidade de conquistar eleitores fora do núcleo mais fiel ao bolsonarismo. Nesse cenário, a Faria Lima e o agronegócio representam dois públicos estratégicos, embora tenham expectativas diferentes sobre política econômica, segurança jurídica, responsabilidade fiscal e políticas para o setor produtivo. Por isso, a ofensiva construída pela campanha poderá ser decisiva para definir se Flávio conseguirá ampliar sua coalizão eleitoral ou se continuará concentrado principalmente no eleitorado que já possui identificação com o sobrenome Bolsonaro.





