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Flávio Bolsonaro disse que pretende fazer convite para médico que criticou seu pai na pandemia

Flávio Bolsonaro anunciou que, caso seja eleito presidente da República, pretende nomear o médico Claudio Lottenberg para comandar o Ministério da Saúde. A escolha chamou atenção porque o oftalmologista havia feito críticas à condução do governo de Jair Bolsonaro durante a pandemia de covid-19, especialmente pela ausência de uma coordenação nacional mais clara no enfrentamento da crise sanitária. O anúncio foi feito na sexta-feira, 28 de agosto de 2026, durante a sabatina de Flávio no Jornal Nacional, da TV Globo, e representou uma sinalização de que o candidato pretende formar uma equipe que não seja composta exclusivamente por nomes identificados com o bolsonarismo.

Claudio Lottenberg é oftalmologista, preside o Conselho do Hospital Israelita Albert Einstein e também ocupa a presidência da Confederação Israelita do Brasil. Durante a pandemia, ele defendeu uma atuação coordenada entre governo federal, estados e municípios e lamentou a falta de uma mensagem nacional unificada para orientar a população diante da disseminação do coronavírus. Em entrevistas concedidas naquele período, o médico também criticou a postura de autoridades que não davam exemplos públicos relacionados à vacinação, ao uso de máscaras e a outras medidas de proteção.

A escolha ganhou um significado político ainda maior justamente por envolver um profissional que havia discordado publicamente de aspectos da administração de Jair Bolsonaro durante uma das maiores crises sanitárias da história recente do país. Apesar disso, Flávio afirmou que Lottenberg seria seu ministro da Saúde caso chegasse ao Palácio do Planalto e informou que o convite havia sido feito e aceito. Dessa forma, o candidato apresentou a indicação como parte de uma proposta de composição de governo, enquanto procurou demonstrar que eventuais divergências anteriores não seriam suficientes para impedir a escolha de um profissional para uma função estratégica.

Flávio Bolsonaro escolheu médico que criticou governo na pandemia

A indicação de Lottenberg chamou atenção principalmente porque a pandemia havia se transformado em um dos assuntos mais controversos do governo Jair Bolsonaro. Naquele período, o então presidente adotou posições contrárias a determinadas medidas de distanciamento, questionou a gravidade da doença em diferentes ocasiões e defendeu medicamentos que não apresentavam eficácia comprovada contra a covid-19. Lottenberg, por sua vez, defendia uma resposta mais coordenada e criticava a falta de uma comunicação nacional capaz de orientar a população diante da emergência sanitária.

Segundo relatos publicados pelo UOL, o médico havia lamentado, em entrevista ao jornal O Globo em 2021, a inexistência de um discurso nacional unificado durante a crise. Lottenberg também observou que líderes políticos poderiam ter desempenhado um papel importante ao incentivar medidas de proteção e ao dar exemplos públicos relacionados à vacinação e ao uso de máscaras. Portanto, a escolha feita por Flávio colocou lado a lado um candidato que busca representar a continuidade política de Jair Bolsonaro e um profissional que havia apresentado críticas à maneira como o ex-presidente conduziu a pandemia.

A indicação também pode ser interpretada como uma tentativa de Flávio de ampliar sua imagem para além do núcleo mais tradicional do bolsonarismo. Ao anunciar um nome que havia discordado de seu pai em um momento tão sensível, o candidato sinalizou que pretende recorrer a profissionais com experiência técnica mesmo quando suas posições anteriores não coincidiram integralmente com as do antigo governo. Além disso, a escolha pode ser utilizada para transmitir ao eleitor a ideia de que decisões administrativas seriam tomadas com base em critérios profissionais, e não apenas em alinhamentos políticos.

Flávio Bolsonaro buscou mostrar independência na escolha

A nomeação anunciada durante a sabatina também ocorreu em um momento no qual Flávio tentava apresentar uma candidatura com características próprias, embora tenha sido escolhido por Jair Bolsonaro para disputar a Presidência. O senador vinha sendo questionado sobre sua relação com o pai, sobre propostas para um eventual governo e sobre como lidaria com temas que marcaram a administração anterior. Nesse contexto, a indicação de Lottenberg serviu como um exemplo concreto de que Flávio poderia montar uma equipe diferente daquela que esteve à frente do governo federal entre 2019 e 2022.

A área da Saúde deverá ocupar posição estratégica em qualquer futuro governo, sobretudo porque o Ministério da Saúde administra políticas nacionais que envolvem o Sistema Único de Saúde, campanhas de vacinação, atenção básica, hospitais e programas de prevenção. Por isso, a escolha de um médico com experiência na administração hospitalar e atuação institucional pode ser apresentada como uma tentativa de conferir perfil técnico à pasta. Ao mesmo tempo, a experiência de Lottenberg durante a pandemia tende a ser lembrada sempre que sua eventual nomeação for discutida, justamente pelas críticas que ele havia feito à gestão de Jair Bolsonaro.

A indicação também apresentou uma diferença em relação ao discurso mais rígido adotado por setores do bolsonarismo durante a pandemia. Enquanto parte desse grupo continua defendendo as posições assumidas pelo governo anterior naquele período, Flávio decidiu destacar um profissional que havia defendido uma abordagem diferente para o enfrentamento da crise sanitária. Assim, a escolha poderá ser utilizada pelo candidato para sustentar a ideia de que um eventual governo seu teria espaço para opiniões divergentes e para especialistas que não necessariamente concordaram com todas as decisões tomadas por Jair Bolsonaro.

Escolha de Lottenberg teve peso político para Flávio

O anúncio de Claudio Lottenberg como possível ministro da Saúde, portanto, ultrapassou uma simples escolha administrativa e adquiriu peso político dentro da campanha presidencial de 2026. Flávio Bolsonaro procurou mostrar que, embora mantenha uma ligação direta com o legado político de Jair Bolsonaro, pretende tomar decisões próprias caso seja eleito. Nesse sentido, a indicação de um médico que havia criticado a condução da pandemia pelo governo anterior tornou-se um dos sinais mais claros apresentados pelo candidato durante a sabatina.

Ao anunciar Lottenberg, Flávio também colocou a experiência técnica no centro da discussão sobre seu futuro governo. A escolha ainda precisaria ser confirmada caso o candidato fosse eleito, mas o anúncio já permitiu que o eleitor conhecesse uma das pessoas que poderiam ocupar uma das pastas mais importantes da Esplanada dos Ministérios. Dessa maneira, a indicação ajudou a construir uma imagem de possível renovação na área da Saúde e, ao mesmo tempo, evidenciou que Flávio pretende diferenciar algumas de suas escolhas das decisões adotadas durante o governo de seu pai.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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