Governo Lula retoma negociação com Trump e teme que tarifaço seja permanente

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva retoma nesta segunda-feira (31) as negociações comerciais com os Estados Unidos em um cenário de cautela e incertezas. Integrantes da equipe brasileira avaliam que as conversas serão decisivas para tentar reduzir as tarifas impostas a produtos nacionais e evitar que as atuais barreiras permaneçam por um período prolongado. O encontro ocorre após uma recente conversa entre Lula e Donald Trump, movimento que ajudou a reabrir o diálogo entre os dois governos e criou uma nova oportunidade para a busca de entendimento na área econômica. Apesar disso, auxiliares do presidente brasileiro mantêm expectativas moderadas sobre a possibilidade de um acordo amplo no curto prazo, especialmente diante das diferenças existentes entre Brasília e Washington.
Uma das principais preocupações dentro do governo brasileiro é a possibilidade de que as tarifas se tornem uma realidade duradoura, como ocorreu com medidas comerciais adotadas pelos Estados Unidos durante o primeiro mandato de Trump. As barreiras sobre aço e alumínio, estabelecidas em 2018, permaneceram durante a administração de Joe Biden, que não promoveu a retirada das restrições. Para integrantes do governo Lula, esse histórico serve como alerta para as atuais negociações. O Brasil busca evitar que a nova sobretaxa aplicada pelos americanos seja mantida por tempo indeterminado. Ao mesmo tempo, a equipe econômica avalia que a retomada do contato direto entre os presidentes pode abrir espaço para uma solução negociada, reduzindo os impactos sobre empresas brasileiras que dependem do mercado americano.
A mudança no ambiente diplomático ganhou força após o telefonema entre Lula e Trump, realizado na sexta-feira (21). Segundo auxiliares do presidente brasileiro, a conversa ajudou a diminuir o distanciamento que havia marcado a relação entre os dois países e foi seguida por contatos de representantes da Casa Branca com o Palácio do Planalto. A aproximação também contou, em momentos anteriores, com a participação de empresários com acesso direto ao governo americano. Lula tem orientado seus auxiliares a manter o Brasil na mesa de negociações e buscar uma alternativa que permita avançar nas relações comerciais. Dentro do governo, há ainda a avaliação de que um eventual entendimento econômico poderia ter impacto político positivo para o presidente, embora a possibilidade de um acordo completo antes das eleições de outubro seja considerada limitada.
As divergências, porém, continuam significativas. Antes da mais recente elevação das tarifas, o Brasil havia apresentado aos Estados Unidos uma proposta para reduzir as alíquotas de importação de aproximadamente 300 produtos, entre eles máquinas e equipamentos. Washington considerou a oferta insuficiente e defendeu uma abertura maior do mercado brasileiro para setores como indústria química, autopeças e equipamentos eletrônicos. Também houve uma sondagem sobre a possibilidade de um acordo semelhante ao firmado recentemente entre Estados Unidos e Argentina, alternativa que não foi considerada aceitável pelo governo brasileiro devido às condições envolvidas e às regras do Mercosul. Para Brasília, qualquer negociação precisa levar em conta os interesses nacionais e preservar os compromissos assumidos dentro do bloco econômico sul-americano.
A reunião desta segunda-feira terá a participação do ministro Márcio Elias Rosa, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, e de Jamieson Greer, chefe do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos. O principal objetivo brasileiro será discutir a redução da carga tarifária aplicada às exportações nacionais. Atualmente, determinados produtos enfrentam taxas que podem chegar a 37,5%, situação que, paradoxalmente, pode ampliar o espaço para negociações, já que eventuais reduções ainda manteriam um nível relevante de proteção ao mercado americano. O governo Lula também pretende preservar algumas condições consideradas prioritárias, entre elas a defesa de que qualquer redução da tarifa sobre o etanol produzido nos Estados Unidos seja acompanhada por maior abertura americana para o açúcar brasileiro, tema que há anos permanece entre os principais pontos de divergência.
Enquanto tenta avançar pelo caminho diplomático, o Brasil também mantém mecanismos de resposta disponíveis. Neste mês, o governo iniciou os procedimentos previstos na Lei de Reciprocidade, instrumento que permite à União avaliar medidas diante de restrições comerciais consideradas injustas ou desproporcionais. Paralelamente, diferentes ministérios analisam os possíveis efeitos das tarifas americanas sobre a economia nacional. Em julho, os Estados Unidos anunciaram duas novas cobranças sobre produtos brasileiros: uma alíquota de 25% relacionada a práticas comerciais consideradas desleais e outra de 12,5% associada a falhas apontadas no combate à entrada de mercadorias produzidas com trabalho forçado. De acordo com estimativa da Confederação Nacional da Indústria, as duas medidas atingem simultaneamente 3.985 produtos brasileiros, equivalentes a cerca de US$ 10,8 bilhões, ou aproximadamente R$ 55 bilhões. Com interesses econômicos relevantes dos dois lados, a reunião desta segunda-feira ganha importância justamente por colocar novamente Brasil e Estados Unidos diante da possibilidade de construir uma saída negociada para um impasse que afeta empresas, exportadores e consumidores.





