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Polícia Federal encontrou rastros das mensagens que Daniel Vorcaro enviou para Alexandre de Moraes

Como a PF descobriu mensagens de Daniel Vorcaro para Alexandre de Moraes é uma das partes mais curiosas da investigação envolvendo o Banco Master. O banqueiro havia utilizado um recurso do WhatsApp criado justamente para fazer com que fotos, vídeos e áudios desaparecessem depois de serem visualizados pelo destinatário. Mesmo assim, a estratégia deixou rastros no iPhone de Vorcaro, permitindo que os investigadores reconstruíssem parte das comunicações mantidas com o ministro do Supremo Tribunal Federal.

A descoberta ocorreu durante a perícia realizada no celular de Vorcaro, apreendido pela Polícia Federal em novembro de 2025, durante a Operação Compliance Zero. O aparelho era um iPhone 17 Pro e passou por procedimentos técnicos que permitiram aos investigadores acessar dados que não estavam disponíveis de maneira comum ao usuário. A partir desses elementos, foi possível identificar uma sequência de ações que se repetia antes dos envios feitos ao contato registrado como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.

O ponto decisivo estava em um hábito adotado por Vorcaro antes de abrir o WhatsApp. Em vez de escrever diretamente no aplicativo, ele preparava os textos no bloco de notas do iPhone, fazia uma captura de tela e depois enviava aquela imagem por meio da função de visualização única. A mensagem desaparecia da conversa depois de ser aberta, mas a captura permanecia armazenada no aparelho e acabou se transformando em uma espécie de arquivo involuntário da comunicação.

Como a PF descobriu mensagens escondidas no iPhone

Como a PF descobriu mensagens que deveriam desaparecer dependeu, primeiro, da extração dos dados armazenados no aparelho. Segundo o relatório, a Polícia Federal utilizou o software Cellebrite para conseguir acessar o conteúdo do iPhone apreendido com Vorcaro durante a operação. Depois dessa etapa, os dados foram organizados e analisados pelo Iped, ferramenta própria da corporação, criada para indexar e processar evidências digitais.

A perícia identificou que o procedimento adotado pelo banqueiro deixava uma sequência bastante específica de registros. Vorcaro abria o aplicativo de notas, modificava o texto, fazia uma captura da tela e, praticamente no mesmo momento, o sistema gerava um arquivo temporário com conteúdo idêntico. Na sequência, o bloco de notas era fechado, o WhatsApp era aberto e a imagem era enviada, permitindo que os investigadores relacionassem as diferentes etapas.

O detalhe mais importante foi encontrado nos arquivos em PDF produzidos automaticamente pelo próprio iPhone. De acordo com a PF, esses documentos continham os mesmos textos presentes nas capturas de tela e ficavam armazenados em uma área que não é acessível normalmente ao usuário. Dessa maneira, mesmo que a mensagem enviada pelo WhatsApp deixasse de aparecer depois da visualização, outra cópia do conteúdo permanecia escondida no sistema do aparelho.

Como os investigadores ligaram os registros a Moraes

Depois de recuperar as imagens e os arquivos, a PF ainda precisava descobrir para quem Vorcaro havia enviado aquele material. Os investigadores então cruzaram os horários das capturas de tela e dos arquivos temporários com os registros de utilização do WhatsApp, procurando coincidências entre a preparação dos textos e os envios realizados pelo aplicativo. Esse cruzamento revelou um padrão que se repetia em diferentes momentos e permitiu associar parte das imagens ao contato identificado no aparelho como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.

A investigação encontrou 52 notas que apresentavam características compatíveis com esse método de comunicação. Cinco delas estavam relacionadas a mensagens enviadas em 17 de novembro de 2025, um dia antes da prisão de Vorcaro, e os textos mencionavam investidores, possível vazamento de informações e questionamentos sobre medidas que poderiam ser tomadas contra ele. A última mensagem daquele dia foi enviada às 20h48 e fazia referência a uma operação que havia sido concluída e às movimentações que, segundo Vorcaro, começariam no dia seguinte.

Existe, porém, uma limitação importante na descoberta feita pela Polícia Federal. Como o aparelho analisado pertencia a Vorcaro, os investigadores conseguiram recuperar principalmente os conteúdos preparados e enviados por ele, mas não tiveram acesso às respostas de Moraes que também teriam sido transmitidas pelo recurso de visualização única. Por isso, o relatório não permite reconstruir integralmente todos os diálogos e não esclarece, a partir daquele aparelho, qual foi o conteúdo das respostas atribuídas ao ministro.

O que a descoberta revelou sobre a investigação

O relatório da PF, produzido em 218 páginas, foi entregue ao ministro André Mendonça em 27 de agosto de 2026 e teve o sigilo levantado na terça-feira (1º). O documento foi elaborado dentro da investigação sobre uma possível rede de influência e monitoramento atribuída a Vorcaro, no contexto da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraudes relacionadas à venda de carteiras de crédito do Banco Master ao Banco de Brasília. A própria Polícia Federal ressaltou que a análise não foi exaustiva, pois o trabalho precisou ser concluído dentro de um prazo judicial de 72 horas, o que significa que outros elementos ainda podem ser identificados.

O caso mostra como uma tentativa de apagar mensagens acabou produzindo justamente o efeito contrário durante a perícia digital. Vorcaro conseguiu fazer com que as imagens enviadas pelo WhatsApp desaparecessem da conversa, mas não percebeu que o procedimento utilizado para criar essas mensagens deixava cópias e registros no próprio iPhone. Assim, por meio da combinação entre extração forense, arquivos temporários, capturas de tela, horários e registros do WhatsApp, a PF conseguiu reconstruir parte de uma comunicação que havia sido planejada para ser muito mais difícil de rastrear.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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