Sem data para estrear, Dark Horse se torna dor de cabeça para Flávio Bolsonaro

O filme “Dark Horse”, produzido para contar a trajetória política de Jair Bolsonaro, deixou de ser tratado apenas como uma ferramenta de mobilização eleitoral e passou a representar um problema para a campanha de Flávio Bolsonaro. A produção, que poderia reforçar a imagem do ex-presidente junto ao eleitorado conservador, acabou colocada no centro de questionamentos sobre financiamento e relações políticas. O cenário se agravou com novas investigações envolvendo recursos públicos e empresas ligadas à produção.
A situação ganhou outra dimensão depois que vieram a público mensagens e informações sobre a tentativa de Flávio de obter recursos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o longa-metragem. O senador confirmou que procurou Vorcaro, mas afirmou que se tratava de uma tentativa de conseguir patrocínio privado para uma obra sobre seu pai, sem contrapartida. Mesmo assim, a relação passou a ser explorada por adversários e se tornou um dos pontos de maior desgaste da candidatura presidencial do PL.
Agora, a investigação sobre a produção ganhou novo capítulo com a Operação Make Up, deflagrada pela Polícia Federal nesta quinta-feira, 10 de setembro. A ação apura suspeitas relacionadas ao uso de emendas parlamentares destinadas a projetos ligados ao filme e tem entre os alvos o deputado Mário Frias e a produtora Karina Gama. Flávio não é alvo da operação, mas sua campanha passou a ser diretamente afetada pela repercussão política do caso.
Filme sobre Bolsonaro entra no centro da disputa eleitoral
Na fase inicial da pré-campanha, “Dark Horse” poderia funcionar como instrumento de fortalecimento da imagem de Jair Bolsonaro e de seu grupo político. A produção estava associada à narrativa de valorização do legado do ex-presidente e poderia alcançar um público já mobilizado em torno do bolsonarismo. Por isso, o lançamento do filme era acompanhado com interesse dentro da estratégia eleitoral de Flávio.
A produção, contudo, passou a ser associada a um episódio financeiro que ganhou proporções maiores do que a própria divulgação cinematográfica. Segundo informações reveladas durante as investigações, recursos teriam sido movimentados para financiar o projeto por meio de estruturas no exterior, enquanto Flávio buscava apoio de Vorcaro. Uma delação homologada pelo ministro André Mendonça acrescentou novos elementos às apurações sobre transferências relacionadas ao fundo que financiou a produção.
A campanha de Lula também identificou no episódio uma oportunidade para atingir o principal adversário do presidente na corrida eleitoral. O caso passou a ser explorado em redes sociais e no rádio, com a associação entre Flávio, Vorcaro e o filme sendo incorporada à estratégia de comunicação petista. A CNN informou que a campanha chegou a utilizar expressões como “100 dias sem Flávio Bolsonaro prestar contas” para manter o assunto em evidência.
Operação aumenta pressão sobre aliados de Flávio
A Operação Make Up ampliou o alcance das investigações ao apurar possíveis irregularidades envolvendo cerca de R$ 2 milhões em emendas parlamentares destinadas à produtora relacionada ao filme. Foram cumpridos 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal, com autorização de Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal. Mário Frias, que participou da produção e destinou emendas a projetos ligados às entidades investigadas, está entre os alvos da operação.
Karina Gama, responsável pela produtora ligada a “Dark Horse”, também aparece no centro das apurações e mantém relação profissional com entidades que receberam recursos públicos. Reportagem da Folha mostrou que a empresária ampliou seus negócios depois de conhecer Mário Frias, passando a atuar em diferentes empresas e áreas, enquanto organizações sob sua direção receberam emendas de parlamentares bolsonaristas. A Go Up Entertainment, produtora do filme, e outras empresas relacionadas também entraram no radar de investigações sobre contratos públicos.
O caso ganhou ainda mais peso porque ocorre simultaneamente à investigação sobre as relações de Flávio com Daniel Vorcaro. A delação de Antônio Carlos Freixo Júnior, homologada por Mendonça, descreveu transferências superiores a US$ 12 milhões para um fundo nos Estados Unidos relacionado ao financiamento de “Dark Horse”, segundo o relato apresentado às autoridades. Esses elementos ainda estão sob investigação e não significam, por si só, comprovação definitiva de irregularidades atribuídas a Flávio.
Dark Horse muda o cenário para a campanha de Flávio
A transformação do filme em problema eleitoral ocorre porque o tema passou a conectar diferentes frentes de desgaste para o candidato do PL. De um lado, existe a discussão sobre o pedido de recursos a Vorcaro e o financiamento da produção, enquanto, de outro, surgem investigações envolvendo emendas parlamentares e empresas relacionadas ao projeto. A combinação dos episódios permite que adversários mantenham o assunto presente na campanha mesmo quando Flávio tenta concentrar seu discurso em segurança pública e críticas ao governo Lula.
Com isso, “Dark Horse” deixou de ser apenas uma produção destinada a reforçar a imagem de Jair Bolsonaro e passou a integrar o conjunto de questões que exigem respostas da campanha de Flávio. A apuração sobre os recursos, as relações com Vorcaro e as investigações envolvendo pessoas ligadas ao filme ainda terão novos desdobramentos antes da eleição. Para o candidato do PL, o episódio representa uma mudança importante de cenário, porque aquilo que poderia ser utilizado como ativo político passou a exigir gerenciamento de uma crise durante a disputa presidencial.





