Banqueiro que recebeu dinheiro de Vorcaro procurou ser cuidado, mesmo assim foi descoberto

O ex-chefe de Supervisão Bancária do Banco Central Belline Santana recebeu R$ 3,8 milhões entre 2023 e 2025 por meio de um projeto social voltado à capacitação de jovens de comunidades periféricas. Os pagamentos foram realizados com recursos atribuídos ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, segundo informações apresentadas à Polícia Federal. O caso passou a ser analisado pelas autoridades em meio à investigação sobre a relação entre Vorcaro e servidores do Banco Central.
A iniciativa, chamada “Jovens Potentes”, teria sido idealizada por Belline para desenvolver atividades de formação profissional destinadas a jovens de regiões periféricas. O advogado Leonardo Augusto Furtado Palhares relatou à PF que foi apresentado ao então servidor do BC por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e amigo de infância do advogado. Conforme o depoimento, as condições financeiras do projeto foram tratadas diretamente entre Belline, Zettel e Vorcaro.
Os recursos não eram transferidos diretamente do Banco Master para Belline, conforme mensagens obtidas pela investigação. O dinheiro saía da Moriah Asset, empresa ligada ao conglomerado de Vorcaro, passava pela conta do escritório de Palhares e depois era encaminhado à conta pessoal do ex-servidor por meio de TEDs e Pix. A forma como os pagamentos foram estruturados passou a chamar a atenção dos investigadores justamente pela preocupação demonstrada para que o Banco Master não aparecesse diretamente nas operações.
Pagamentos a Belline são analisados pela Polícia Federal
O depoimento de Leonardo Palhares tornou-se uma das peças utilizadas para reconstruir a trajetória dos valores recebidos por Belline. O advogado afirmou que não participou da negociação dos pagamentos e declarou à PF que não imaginava que o ex-chefe do BC pudesse estar envolvido em qualquer irregularidade. Segundo seu relato, ele considerava Belline uma pessoa íntegra e não identificou problemas no contrato firmado para o projeto social.
A investigação, entretanto, passou a examinar não apenas a existência do projeto, mas também a origem dos recursos e a forma como eles chegaram ao destinatário. Ao todo, R$ 3,8 milhões foram transferidos para Belline durante o período indicado pela CNN Brasil, com os pagamentos sendo realizados entre outubro de 2023 e dezembro de 2025. A movimentação ganhou relevância porque ocorreu enquanto Belline ocupava posição estratégica na estrutura de supervisão bancária do Banco Central.
Além disso, mensagens entre Vorcaro e Fabiano Zettel mostram que os envolvidos demonstravam preocupação com a maneira pela qual os pagamentos seriam efetuados. Em uma conversa de dezembro de 2023, Zettel informou que havia chegado o momento de realizar um pagamento a Belline e, ao ser questionado se o dinheiro sairia diretamente do Banco Master, respondeu que não. Posteriormente, Vorcaro teria reforçado que o pagamento não poderia envolver o banco nem mesmo de forma indireta.
Relação entre Vorcaro e servidores do Banco Central
O episódio está inserido em uma investigação mais ampla sobre a proximidade mantida por Daniel Vorcaro com servidores que atuavam no Banco Central. Segundo a PF, Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza teriam prestado uma espécie de consultoria informal ao banqueiro durante processos envolvendo o Banco Master. Os investigadores também analisam suspeitas de que informações e orientações estratégicas tenham sido fornecidas em benefício do conglomerado financeiro.
No caso de Belline, os investigadores já haviam identificado contratos que somavam valores milionários e passaram a questionar a compatibilidade entre os serviços descritos e os pagamentos realizados. Uma investigação interna do Banco Central apontou anteriormente suspeitas de que contratos de consultoria teriam sido utilizados para ocultar vantagens indevidas recebidas pelo ex-servidor. A apuração também considerou pouco plausível que determinados materiais produzidos no âmbito dos projetos justificassem valores tão elevados.
A situação se tornou ainda mais relevante porque as relações entre Vorcaro e integrantes do Banco Central estão sendo examinadas em diferentes frentes. A PF também investiga pagamentos, viagens, fornecimento de informações e outras formas de aproximação que poderiam ter beneficiado o Banco Master durante o período em que a instituição era fiscalizada. Dessa maneira, o projeto social passou a ser analisado não apenas por seus objetivos declarados, mas também dentro do contexto financeiro e institucional envolvendo o ex-banqueiro.
Defesa e próximos passos da investigação
Daniel Vorcaro confirmou ter determinado o repasse de recursos para o projeto ligado a Belline, mas negou que o pagamento representasse uma vantagem indevida ao ex-servidor. Em depoimento à Polícia Federal, o ex-banqueiro afirmou que Belline havia apresentado a iniciativa social e que a ajuda financeira estava relacionada ao projeto. A versão apresentada por Vorcaro deverá ser confrontada com os demais documentos e depoimentos reunidos na investigação.
A defesa dos envolvidos ainda poderá apresentar explicações sobre os contratos, os serviços prestados e a origem dos valores transferidos. Enquanto isso, a Polícia Federal continua analisando documentos financeiros, mensagens e vínculos entre os envolvidos para determinar se os pagamentos tinham finalidade exclusivamente social ou se estavam relacionados a eventual favorecimento ao Banco Master. O caso permanece em investigação e eventual responsabilidade criminal dependerá da comprovação dos fatos pelas autoridades competentes.





