Nos EUA, Lula diz que não concorda com a maneira de Trump governar

Em Nova York, onde participa da Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) concedeu entrevista à rede CNN norte-americana na qual avaliou a forma como o colega Donald Trump conduz os Estados Unidos. “Ele tem uma maneira de governar com a qual eu não concordo”, declarou. Segundo o presidente brasileiro, a postura de Trump centra-se na ideia de que detém maior poder e riqueza, de modo que demais atores deveriam se submeter. “Eu não penso assim”, reforçou, ao diferenciar a própria visão da que identifica na gestão do governo norte-americano.
Lula fez questão de reconhecer a legitimidade do mandato de Trump, mas estabeleceu limites claros à atuação externa. “Ele foi eleito para ser o presidente dos Estados Unidos. Tem o direito de governar o seu país. Porém, não tem o direito de governar outros países nem de impor sua vontade a nações soberanas”, afirmou. O presidente destacou ainda a importância do respeito recíproco entre chefes de Estado. “Gosto de ser respeitado e de mostrar respeito”, completou, em tom que busca equilíbrio entre a franqueza crítica e a manutenção dos canais diplomáticos abertos.
Um dos pontos mais incisivos da entrevista refere-se aos desdobramentos recentes na Venezuela. Lula classificou como grave a operação que resultou na captura de Nicolás Maduro. “A soberania daquele país foi afetada. Isso não é bom para os Estados Unidos, não é bom para a Venezuela e também não é bom para a democracia”, avaliou. A declaração insere-se numa postura que o Brasil tem reiterado em fóruns internacionais: a defesa de que nenhuma nação deve intervir nos assuntos internos de outra, independentemente de divergências políticas ou ideológicas.
Nesta terça-feira, 22, o presidente brasileiro ocupará a tribuna da 81ª Sessão da Assembleia Geral da ONU, onde deverá discursar sobre soberania nacional como eixo central. Tradicionalmente, o Brasil é o primeiro país a se pronunciar no debate geral — prerrogativa mantida desde a 10ª sessão, em 1955. O pronunciamento deverá reforçar a negociação como caminho preferencial para a resolução de disputas, além de reafirmar o respeito ao Direito Internacional Humanitário em cenário de múltiplos conflitos ao redor do mundo.
O multilateralismo aparece como linha mestra da participação brasileira no evento. Em documento oficial, o governo destaca que a defesa de instituições globais fortalecidas e inclusivas responde ao momento em que tensões se multiplicam em diferentes regiões. A mensagem pretende lembrar que nenhum país, por mais poderoso que seja, dispõe de soluções isoladas para desafios como mudanças climáticas, desigualdade econômica e segurança coletiva. A postura reflete a identidade histórica da diplomacia brasileira.
A semana de atividades em Nova York estende-se até os dias 26 e 28 de setembro, sob a presidência do ministro das Relações Exteriores de Bangladesh, Khalilur Rahman. O chanceler Mauro Vieira permanecerá na cidade ao longo de todo o período, participando de reuniões ministeriais e encontros bilaterais. O conjunto da agenda sinaliza que o Brasil busca, com clareza e sem alinhamentos automáticos, fazer ouvir sua voz em defesa da cooperação, do diálogo e da integridade de todas as nações.





