Nos Estados Unidos as urnas eletrônicas não são usadas nas eleições e o motivo é bem complexo

O sistema eleitoral dos Estados Unidos funciona de maneira bastante diferente do modelo adotado pelo Brasil, especialmente quando o assunto é a utilização de urnas eletrônicas. Embora equipamentos eletrônicos também façam parte das eleições norte-americanas, as cédulas de papel continuam sendo predominantes na maior parte do país. A diferença está relacionada tanto à organização descentralizada das eleições quanto à história e à percepção dos eleitores americanos sobre os mecanismos de votação.
Nos Estados Unidos, não existe uma instituição nacional com a mesma função exercida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) brasileiro na organização das eleições. Os 50 estados possuem autonomia para estabelecer regras relacionadas aos locais, horários e métodos utilizados para a votação, enquanto condados e cidades também participam da escolha dos equipamentos. Dessa forma, não há um único sistema tecnológico utilizado por todos os eleitores americanos.
Outro fator importante é que o voto eletrônico nos Estados Unidos costuma funcionar como complemento ao registro em papel. Segundo a Comissão de Assistência Eleitoral dos EUA, mais de 98% das jurisdições utilizavam, em 2024, cédulas de papel ou sistemas que produzem um registro físico verificável pelo eleitor. Esse mecanismo permite que os resultados sejam posteriormente conferidos por meio de auditorias e recontagens, mantendo uma documentação independente do software utilizado.
Como funciona a votação nos Estados Unidos
Os eleitores americanos podem votar de diferentes maneiras, dependendo das regras da jurisdição onde estão registrados. Entre as possibilidades estão o voto pelo correio, a votação antecipada e a votação presencial no dia oficial da eleição, enquanto os métodos de apuração também variam entre os locais. Mesmo quando a votação começa em uma cédula física, computadores são amplamente utilizados para fazer a leitura e a contabilização dos votos.
O método mais comum envolve scanners ópticos capazes de interpretar as marcações feitas pelos eleitores em cédulas de papel. Nessa modalidade, o cidadão registra sua escolha no documento e o equipamento realiza a leitura para contabilizar os votos, mantendo o papel como registro físico. Em alguns distritos, também existem urnas eletrônicas que registram diretamente as escolhas, mas esses equipamentos podem contar com mecanismos de auditoria em papel.
A preferência pelo papel está ligada também à preocupação com a possibilidade de conferir os resultados posteriormente. A Comissão de Assistência Eleitoral americana considera o registro físico uma forma independente de verificar a apuração, permitindo comparações durante auditorias e recontagens. Por isso, mesmo onde a tecnologia é utilizada diretamente durante a votação, o registro em papel continua desempenhando papel importante no processo eleitoral.
Por que o modelo americano permaneceu diferente
A história das eleições americanas também ajuda a explicar a resistência a uma mudança completa para um sistema semelhante ao brasileiro. Diferentes modelos de votação eletrônica começaram a ser testados nos Estados Unidos nas décadas de 1970 e 1980, mas problemas ocorridos em eleições posteriores contribuíram para ampliar as discussões sobre segurança e transparência. Um dos episódios mais importantes aconteceu na eleição presidencial de 2000, quando problemas com antigas máquinas de cartão perfurado provocaram dificuldades na leitura de cédulas durante uma recontagem na Flórida.
Depois daquela eleição, o Congresso americano aprovou, em 2002, a Help America Vote Act, conhecida pela sigla HAVA. A legislação promoveu a modernização dos equipamentos eleitorais e estabeleceu padrões para os sistemas utilizados no país, contribuindo para a expansão de máquinas que registravam votos eletronicamente. Com o passar dos anos, entretanto, controvérsias relacionadas a esses equipamentos estimularam a adoção de mecanismos capazes de produzir registros físicos para auditoria.
A estrutura descentralizada também é considerada um elemento relevante na discussão sobre segurança eleitoral. Como diferentes estados e jurisdições podem utilizar equipamentos e procedimentos distintos, não existe um único sistema nacional cuja eventual falha pudesse atingir todas as eleições simultaneamente. A própria Comissão de Assistência Eleitoral afirma que especialistas em segurança consideram essa diversidade uma possível vantagem justamente pela ausência de um único ponto de falha em escala nacional.
Diferenças entre as urnas dos EUA e do Brasil
No Brasil, a votação eletrônica foi implantada nacionalmente de maneira gradual e passou a fazer parte da rotina eleitoral do país desde a década de 1990. O modelo brasileiro é centralizado pela Justiça Eleitoral e utiliza uma urna eletrônica desenvolvida especificamente para o processo eleitoral nacional, sem conexão com a internet durante a votação. Em 2026, o sistema brasileiro completa 30 anos desde sua primeira utilização nas eleições municipais de 1996.
Nos Estados Unidos, a adoção de um modelo semelhante exigiria mudanças que vão além da simples substituição das cédulas por computadores. Seria necessário considerar a autonomia dos estados, a participação das administrações locais, a diversidade dos equipamentos e a confiança de eleitores e grupos políticos em uma tecnologia comum. Especialistas citados pela CNN Brasil apontaram que questões humanas e a percepção de segurança também precisam ser consideradas antes de uma eventual adoção ampla de sistemas eletrônicos.
Assim, a diferença entre os dois países não significa simplesmente que um utiliza tecnologia e o outro não, mas que cada sistema foi construído de acordo com estruturas eleitorais distintas. Enquanto o Brasil utiliza uma solução eletrônica nacional e padronizada, os Estados Unidos combinam cédulas de papel, scanners, equipamentos eletrônicos e diferentes modalidades de votação conforme as regras locais. O resultado é um processo eleitoral no qual a tecnologia está presente nos dois países, mas ocupa funções diferentes na votação e na apuração.





