Os dois candidatos à Presidência da República estão explorando ao máximo a fake news sobre Nossa Senhora

A disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) ganhou um novo capítulo com a circulação de informações falsas sobre uma suposta intenção do senador de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Segundo reportagem do Poder360 publicada nesta segunda-feira, 12 de outubro, os dois candidatos passaram a incorporar o episódio às suas manifestações públicas durante a campanha presidencial. Enquanto Lula se apresenta como defensor da padroeira, Flávio nega a acusação e responsabiliza integrantes do PT pela disseminação do boato.
A controvérsia ganhou força nas redes sociais depois que uma declaração do senador sobre o Brasil ser do Senhor Jesus Cristo foi associada a uma proposta legislativa antiga, apresentada por outro político. A informação atribuída a Flávio não correspondia a um projeto de sua autoria, e o Tribunal Superior Eleitoral determinou a remoção de publicações que apresentavam como verdadeira a suposta intenção de retirar o título da santa. Mesmo após os esclarecimentos, o assunto continuou sendo utilizado pelas campanhas, transformando uma informação falsa em tema de confronto político.
O episódio evidencia como assuntos religiosos podem ganhar destaque durante uma eleição presidencial, especialmente quando envolvem símbolos importantes para milhões de brasileiros. Lula passou a mencionar Nossa Senhora Aparecida em discursos e a exibir imagens da padroeira em compromissos públicos, enquanto Flávio também apareceu com representações da santa e reforçou sua negativa. A disputa passou a envolver não apenas os candidatos, mas também aliados políticos, representantes da Igreja Católica e questionamentos sobre a responsabilidade de quem compartilha informações sem verificar sua origem.
Lula se apresenta como defensor da padroeira
Em entrevista ao programa Canal Livre, da Band, exibida em 27 de setembro, Lula afirmou que considerava inaceitável mexer com Nossa Senhora Aparecida e demonstrou preocupação com a repercussão da informação nas redes sociais. Questionado sobre o caráter falso do conteúdo, o presidente respondeu que não sabia se era fake news, embora a informação atribuída ao adversário já estivesse sendo contestada publicamente. No dia seguinte, durante um ato de campanha em Belém, no Pará, voltou ao tema e declarou que, enquanto fosse presidente, ninguém desrespeitaria Nossa Senhora Aparecida.
A presença da padroeira também apareceu em outras agendas do petista, que recebeu imagens religiosas durante compromissos eleitorais e as exibiu diante de apoiadores. Em uma caminhada realizada em Natal, no Rio Grande do Norte, em 10 de outubro, Lula recebeu um cartaz com a imagem de Nossa Senhora Aparecida e uma estátua de Nossa Senhora das Graças. As manifestações reforçaram a associação entre a candidatura do presidente e a defesa da padroeira, em meio à repercussão do boato que envolveu seu principal adversário.
A primeira-dama Janja Lula da Silva e outros aliados do presidente também publicaram mensagens relacionadas à santa, defendendo o respeito à tradição católica e criticando a possibilidade de desrespeito religioso. A estratégia de comunicação, mesmo sem necessariamente integrar a propaganda oficial de rádio e televisão, ajudou a manter o assunto em circulação durante a campanha. Dessa forma, a informação falsa passou a produzir efeitos políticos que ultrapassaram sua origem, levando os dois grupos a responder publicamente e a disputar a interpretação do episódio.
Flávio nega o boato e acusa o PT de desinformação
Flávio Bolsonaro negou que pretendesse retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil e classificou a informação como uma notícia falsa usada para prejudicar sua candidatura. Em 28 de setembro, durante um compromisso no centro de São Paulo, o senador levantou uma imagem da santa ao lado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Na mesma ocasião, afirmou que respeitava todas as religiões e também as pessoas que não seguem nenhuma crença religiosa.
O candidato passou a responsabilizar o PT pela circulação do conteúdo e afirmou que a informação teria sido amplificada por integrantes da esquerda, incluindo aliados do presidente. Em entrevista ao SantoFlow Podcast, Flávio comparou a repercussão do episódio a uma espécie de facada política, em referência ao atentado sofrido por seu pai, Jair Bolsonaro, durante a campanha presidencial de 2018. O senador também acusou pessoas ligadas à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de terem contribuído para a disseminação do boato, mas não apresentou provas dessa participação.
A CNBB respondeu às acusações e afirmou que não produziu, autorizou ou participou da divulgação de informações falsas relacionadas à eleição. A entidade repudiou a desinformação e declarou que uma mentira não deve ser combatida com outra mentira, em resposta ao conflito que passou a envolver a instituição religiosa. A manifestação acrescentou outro elemento à controvérsia, pois a disputa deixou de se limitar aos candidatos e passou a incluir acusações sobre a atuação de representantes da Igreja Católica.
A origem da informação falsa e seus efeitos eleitorais
A origem do boato está relacionada ao Projeto de Lei 2.623/2007, apresentado pelo então deputado federal Professor Victório Galli, que não tinha relação com Flávio Bolsonaro. A proposta pretendia alterar a redação da legislação referente ao feriado de 12 de outubro, substituindo a expressão padroeira do Brasil por padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos. O projeto foi rejeitado na Comissão de Educação e Cultura e arquivado em agosto de 2008, muitos anos antes da atual candidatura presidencial do senador.
A confusão ganhou força depois que uma declaração jornalística sobre a proposta antiga foi associada nas redes sociais à possibilidade de Flávio retirar o título de Nossa Senhora Aparecida caso fosse eleito presidente. A informação foi corrigida após sua repercussão, mas as publicações continuaram circulando e passaram a ser usadas por adversários para questionar a relação do senador com a tradição católica. O TSE determinou a remoção de conteúdos que atribuíam a Flávio uma iniciativa inexistente, embora decisões sobre publicações específicas não impeçam a continuidade do debate político sobre o episódio.
O caso mostra como uma informação falsa pode ser incorporada à comunicação eleitoral e permanecer no centro da disputa mesmo depois de ser desmentida. Lula utiliza manifestações em defesa da padroeira, enquanto Flávio procura se desvincular da acusação e responsabiliza seus adversários pela repercussão do conteúdo. Com o segundo turno marcado para 25 de outubro, o episódio mantém a religião entre os temas da campanha e levanta questões sobre a verificação das informações, o comportamento dos candidatos e a responsabilidade de seus apoiadores nas redes sociais.





