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Segundo relatório da Polícia Federal, Flávio Bolsonaro tinha acesse elevado a uma conta ligada a jato de Daniel Vorcaro

O senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, aparece em um relatório da Polícia Federal como “usuário master” de uma conta bancária vinculada a uma empresa que detinha um terço de um avião associado ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. A informação foi divulgada nesta quarta-feira, 14 de outubro de 2026, pelo jornal Estado de Minas, com base em uma apuração da colunista Malu Gaspar, de O Globo, sobre documentos reunidos na investigação de suspeitas de desvios envolvendo benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social. Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz negam ter compartilhado uma conta bancária e contestam a interpretação apresentada a partir dos registros encontrados pelos investigadores.

De acordo com a reportagem, a conta era mantida no Santander em nome da Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, cujo único sócio é Willer Tomaz. A Polícia Federal identificou que o cadastro de Flávio estava vinculado ao perfil de acesso da conta até maio de 2025, quando uma solicitação encaminhada ao banco pediu a retirada de contas associadas ao sistema de gerenciamento. O episódio passou a ser analisado pelos investigadores como possível elemento para esclarecer a relação entre o senador, o advogado e a estrutura empresarial que participava da propriedade da aeronave.

A Alcazar Holdings detinha 33,33% da Fraction 024, empresa proprietária do jato executivo Embraer Legacy 650, de matrícula PP-NLR, que tinha entre os envolvidos em sua estrutura de propriedade a Prime You, companhia da qual Daniel Vorcaro foi sócio. As outras participações na aeronave pertenciam à empresa ligada a Tomaz e ao empresário Laerte Cosentino, fundador da Totvs, conforme os dados apresentados na reportagem. A existência desse vínculo empresarial ganhou relevância porque Flávio viajou no avião em janeiro de 2025, acompanhado de familiares e do advogado, em um trajeto entre Brasília e Fort Lauderdale, nos Estados Unidos.

O que a Polícia Federal identificou na conta bancária

A informação sobre o acesso bancário foi encontrada em uma troca de e-mails recuperada pela Polícia Federal no iCloud de Willer Tomaz, segundo a apuração de Malu Gaspar publicada por O Globo. Em 22 de maio de 2025, Fayla Menezes, secretária do advogado, encaminhou uma solicitação ao Santander para desassociar do perfil master da conta da Alcazar duas contas identificadas nos registros como pertencentes a Flávio Bolsonaro e ao próprio Willer Tomaz. A instituição financeira confirmou a exclusão pouco mais de duas horas depois, conforme a sequência de mensagens descrita na reportagem.

Para os investigadores, o cadastro como “usuário master” indicaria um nível elevado de acesso e gerenciamento sobre a conta bancária da empresa, diferentemente de um perfil com permissões limitadas. O relatório da PF afirma que essa condição sustenta a hipótese de eventual participação econômica ou societária de fato do senador na Alcazar Holdings, embora a existência de uma hipótese investigativa não represente, por si só, comprovação de irregularidade ou responsabilidade criminal. A corporação considera que esclarecer a relação entre Flávio e a empresa pode contribuir para compreender os vínculos indiretos envolvendo a Fraction 024 e a aeronave utilizada pelo candidato.

A assessoria de Flávio Bolsonaro negou que o senador tenha mantido uma conta na qual Willer Tomaz ou alguma empresa do advogado figurasse como usuário master, classificando como falsa qualquer afirmação nesse sentido. A defesa também sustenta que o próprio e-mail sobre a retirada das contas demonstraria que a vinculação foi desfeita, sem comprovar a existência de uma conta compartilhada nos termos apontados pela investigação. Tomaz igualmente negou ter dividido uma conta bancária com o candidato e afirmou que os registros não demonstram participação econômica ou societária de Flávio na empresa.

Viagens em jato executivo e outros registros citados na investigação

A relação entre Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz e o avião já havia sido noticiada anteriormente, depois que reportagens revelaram uma viagem realizada em janeiro de 2025 entre Fort Lauderdale e Brasília. Na ocasião, o senador afirmou que viajou de carona a convite do advogado, a quem descreveu como amigo, enquanto Tomaz declarou que oferecia lugares disponíveis em voos a pessoas que seguiam para o mesmo destino. O advogado também afirmou que não sabia que a Prime You, empresa que participava da propriedade da aeronave, tinha ligação societária com Daniel Vorcaro quando ocorreu a viagem.

O relatório citado na reportagem também reúne informações sobre deslocamentos internacionais organizados por meio de outra empresa vinculada a Tomaz, a Cathedral Holding. Entre os registros mencionados estão reservas de voos em jatos executivos entre Lisboa e Nice, em abril de 2025, e entre Cascais e Nice, em maio do mesmo ano, com a participação de Flávio, familiares e pessoas próximas ao advogado. A apuração também menciona uma viagem à África do Sul, em março de 2025, na qual o senador e Tomaz participaram de um safári com o senador Weverton Rocha, do PDT do Maranhão, também citado na investigação sobre suspeitas envolvendo recursos do INSS.

Outro elemento descrito pelos investigadores foi a utilização do aplicativo Confide, serviço de mensagens criptografadas que oferece recursos de privacidade, para comunicação entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz. O número de telefone do senador aparecia entre os contatos favoritos do advogado, de acordo com os registros analisados pela Polícia Federal. Esses dados integram o conjunto de informações reunidas na apuração, mas sua interpretação depende do esclarecimento das relações financeiras, empresariais e pessoais mencionadas nos documentos.

Flávio e Willer Tomaz contestam a interpretação dos documentos

A principal divergência entre a investigação e as manifestações dos envolvidos está no significado atribuído ao cadastro da conta bancária e à solicitação de retirada dos usuários em maio de 2025. Enquanto a Polícia Federal considera que o perfil master pode indicar acesso ampliado e justificar o aprofundamento das apurações sobre uma possível participação econômica, Flávio e Tomaz negam a existência de uma conta compartilhada e rejeitam a conclusão sugerida pelos registros. Até que os fatos sejam esclarecidos pelas autoridades, as informações divulgadas devem ser tratadas como elementos de uma investigação, e não como comprovação definitiva de prática ilegal.

O caso acrescenta um novo capítulo às notícias sobre as relações de Flávio Bolsonaro com pessoas e empresas citadas na investigação de suspeitas envolvendo descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS. A análise da conta da Alcazar Holdings, da participação societária na aeronave e das viagens registradas poderá ajudar os investigadores a esclarecer a natureza dos vínculos identificados, respeitando as versões apresentadas pelos envolvidos e os procedimentos legais. O senador e o advogado mantêm suas negativas, enquanto os documentos descritos na reportagem continuam sendo parte do material utilizado para examinar as conexões financeiras e empresariais investigadas pela Polícia Federal.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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