Avião que levou Flávio aos EUA fez um desvio pelo Paraguai, Bolívia e também pelo Peru

O avião que transportou Flávio Bolsonaro (PL) e sua família aos Estados Unidos desviou do espaço aéreo brasileiro durante a viagem iniciada na Argentina, segundo reportagem da coluna de Mônica Bergamo, publicada pela Folha de S.Paulo nesta quarta-feira (28). A aeronave, um jato executivo Gulfstream G400, passou pelo Paraguai, pela Bolívia e pelo Peru antes de chegar a Guayaquil, no Equador, onde realizou uma parada para reabastecimento. A rota evitou o território brasileiro em um momento no qual o senador estava proibido de deixar o país por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A mudança no trajeto chamou a atenção porque a legislação permite que a Força Aérea Brasileira (FAB) intercepte aeronaves suspeitas que sobrevoem o país e determine que elas pousem para averiguação. Caso o avião tivesse ingressado no espaço aéreo nacional e fosse considerado suspeito pelas autoridades, poderia ter sido submetido a procedimentos de interceptação, com possibilidade de pouso e abordagem. Nesse cenário, Flávio poderia ser detido, dependendo das circunstâncias e das decisões das autoridades competentes.
A viagem ocorreu depois de uma sequência de informações contraditórias sobre o paradeiro do senador, que havia perdido a eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no domingo (25). Enquanto aliados afirmavam que ele já estava nos Estados Unidos, os registros migratórios argentinos indicaram que Flávio e seus familiares cruzaram a fronteira terrestre na noite de terça-feira (27). A reconstrução do percurso mostrou que o grupo entrou na Argentina, embarcou em um avião privado e seguiu por uma rota que evitou o espaço aéreo brasileiro antes de chegar à Flórida.
Rota aérea passou por Paraguai, Bolívia, Peru e Equador
De acordo com o acompanhamento do voo realizado pela coluna de Mônica Bergamo por meio da plataforma FlightRadar, o jato não seguiu diretamente de Puerto Iguazú, na Argentina, em direção aos Estados Unidos. Em vez de atravessar o espaço aéreo brasileiro, a aeronave passou pelo Paraguai, pela Bolívia e pelo Peru, seguindo depois para Guayaquil, no Equador. O trajeto foi acompanhado por sistemas de monitoramento de voos, que permitiram observar o deslocamento do avião e comparar a rota executada com um caminho mais direto pelo continente.
A escolha do percurso ganhou relevância devido à ordem judicial que impedia Flávio de deixar o Brasil e à possibilidade de intervenção da FAB caso a aeronave entrasse no espaço aéreo nacional e fosse considerada suspeita. A Força Aérea tem procedimentos legais para interceptar aviões que apresentem determinadas irregularidades ou sejam classificados como suspeitos, podendo determinar que pousem em um aeroporto para verificação. A possibilidade de abordagem representaria um risco para a continuidade da viagem, embora a interceptação e a prisão não fossem consequências automáticas de um eventual sobrevoo.
Depois de chegar ao Equador, o avião teve seu plano de voo atualizado para indicar Miami, na Flórida, como destino da etapa seguinte. A rota prevista incluía o sobrevoo do Panamá e de Cuba antes da chegada aos Estados Unidos, conforme as informações divulgadas na cobertura do deslocamento. A aeronave pousou no Aeroporto Executivo Miami-Opa Locka na manhã desta quarta-feira, levando Flávio, sua mulher, Fernanda Bolsonaro, e as duas filhas do casal.
Travessia terrestre e embarque na Argentina
Antes do trajeto aéreo, Flávio e a família viajaram por terra de Brasília até Foz do Iguaçu, no Paraná, em um percurso de aproximadamente 1.600 quilômetros. Na noite de terça-feira, o grupo atravessou a Ponte Internacional Tancredo Neves, que conecta a região brasileira a Puerto Iguazú, na província argentina de Misiones. A Direção Nacional de Migrações da Argentina informou que a entrada ocorreu às 22h50 e que os quatro integrantes da família apresentaram documentos válidos, sem impedimentos legais para ingressar no país vizinho.
Às 23h30, segundo o comunicado das autoridades argentinas, a família embarcou em um voo privado operado pela empresa Baires Fly S.A., com destino declarado a Guayaquil. O avião utilizado foi identificado como um Gulfstream G400 de matrícula argentina LV-JQW, que havia chegado a Puerto Iguazú na noite de segunda-feira (26). A decolagem ocorreu depois da travessia terrestre da fronteira, e a aeronave seguiu para o Equador antes de continuar a viagem até os Estados Unidos.
A sequência de deslocamentos foi reconstruída a partir dos registros migratórios argentinos e das informações disponíveis sobre o voo. A confirmação oficial da entrada no país vizinho ajudou a esclarecer que as declarações anteriores sobre a suposta chegada antecipada do senador aos Estados Unidos não correspondiam à cronologia registrada pelas autoridades. A rota aérea, por sua vez, evidenciou que o avião fez um percurso pelo continente sul-americano sem atravessar o espaço aéreo brasileiro.
Decisão de Alexandre de Moraes e possibilidade de interceptação
A viagem ocorreu depois que o ministro Alexandre de Moraes determinou que Flávio entregasse seus passaportes e não deixasse o território brasileiro. O prazo para a apresentação dos documentos terminou sem que o senador os entregasse, e a Polícia Federal cancelou os passaportes brasileiros comum e diplomático, conforme informações divulgadas durante a cobertura do caso. A saída do país passou, assim, a ser examinada à luz da decisão judicial e das circunstâncias em que o parlamentar deixou o território nacional.
A possibilidade de interceptação pela FAB decorre das regras que permitem às autoridades militares agir diante de aeronaves suspeitas que estejam sobrevoando o Brasil. Dependendo da situação, os procedimentos podem incluir contato com os pilotos, determinação de mudança de rota e ordem para pouso, possibilitando a identificação dos ocupantes e a verificação de eventuais irregularidades. Se a aeronave tivesse sido interceptada e Flávio fosse localizado, uma eventual detenção dependeria das condições jurídicas aplicáveis e das providências das autoridades responsáveis.
A chegada aos Estados Unidos não encerra necessariamente os questionamentos sobre o descumprimento da ordem judicial. A Polícia Federal poderá informar o Supremo Tribunal Federal sobre a saída do senador e as circunstâncias apuradas, cabendo a Moraes avaliar eventuais medidas adicionais dentro dos limites legais. A eventual adoção de novas cautelares ou de uma prisão preventiva depende de decisão judicial fundamentada e do preenchimento dos requisitos previstos na legislação, não sendo uma consequência automática da viagem internacional.





