Os governadores que apoiaram a candidatura de Flávio Bolsonaro já planejam como será a relação com o presidente

Governadores eleitos e reeleitos que apoiaram Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial de 2026 estão adotando uma postura diferente daquela apresentada pelo senador depois da derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em vez de acompanhar os questionamentos eleitorais feitos pelo filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, os chefes de Executivos estaduais defendem uma relação institucional com o governo federal, mesmo diante das divergências políticas. O movimento chama a atenção porque demonstra que o apoio eleitoral a Flávio não significa necessariamente disposição para manter um confronto permanente com Lula, especialmente quando estão em jogo investimentos, renegociação de dívidas e recursos necessários para administrar os estados.
Um dos dados mais significativos levantados pelo UOL é que nenhum dos 15 governadores que apoiaram Flávio no segundo turno endossou a carta divulgada pelo senador depois de deixar o Brasil rumo aos Estados Unidos. No documento, o parlamentar se apresentou como “líder do Brasil” e voltou a levantar suspeitas sobre o resultado eleitoral, sem apresentar provas de fraude. Enquanto Flávio manteve o discurso de contestação, os governadores passaram a concentrar suas manifestações públicas em assuntos administrativos, transições de governo, nomeações de secretários e entregas de obras, evitando associar suas gestões ao episódio.
Essa diferença de comportamento revela uma questão importante para a política nacional: governadores precisam administrar estados com problemas financeiros, demandas sociais e projetos que dependem de articulação com Brasília, independentemente de quem ocupa a Presidência. Portanto, a aproximação institucional com Lula não representa necessariamente uma mudança de posicionamento ideológico ou abandono das críticas à administração federal. Trata-se também de uma necessidade administrativa, pois a União possui instrumentos de financiamento, programas de infraestrutura e mecanismos de renegociação de dívidas que podem influenciar diretamente as contas estaduais.
Governadores aliados de Flávio Bolsonaro evitam acompanhar contestação eleitoral
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), foi um dos nomes que se manifestaram publicamente em defesa do reconhecimento do resultado das urnas. Depois da divulgação da carta de Flávio, o paulista afirmou que o caminho seria “respeitar o resultado das urnas” e “olhar para a frente”, indicando que pretende concentrar sua atuação na administração estadual. A posição contrasta com a do senador, que continuou questionando o processo eleitoral, e mostra que Tarcísio não pretende transformar as divergências políticas em um impedimento para o funcionamento das relações institucionais.
O comportamento também foi observado pelo UOL nas redes sociais de outros governadores que apoiaram Flávio, como Sergio Moro (PL), do Paraná, Luciano Zucco (PL), do Rio Grande do Sul, Douglas Ruas (PL), do Rio de Janeiro, e Celina Leão (PP), do Distrito Federal. A publicação analisada pelo veículo não encontrou referências ao senador nos conteúdos divulgados por essas lideranças entre 28 de outubro e 7 de novembro. Em vez disso, as manifestações foram direcionadas a compromissos administrativos, transição de governo, obras e organização das futuras equipes estaduais, sinalizando uma prioridade diferente daquela adotada pelo candidato derrotado.
O levantamento também mostra que o distanciamento em relação à carta não significa que todos os governadores tenham abandonado a oposição ao governo federal. Sergio Moro, por exemplo, afirmou que pretende manter uma postura de oposição em nível nacional, mas sem deixar de cooperar em assuntos considerados positivos para o país. “A eleição passou e que o foco é fazer um bom governo pelo Paraná”, declarou o governador eleito ao UOL, acrescentando que haverá “uma relação republicana com o Governo Federal, de cooperação nas boas causas e de oposição nas demais”. A manifestação sintetiza a diferença entre oposição política e recusa de diálogo institucional, duas atitudes que não precisam caminhar juntas.
Cleitinho, Tarcísio e governadores precisam negociar com o governo Lula
Em Minas Gerais, o governador eleito Cleitinho Azevedo (Republicanos) terá pela frente um desafio fiscal de grandes proporções, que exigirá negociações com o governo federal. Segundo os dados apresentados pelo UOL, a dívida mineira com a União está estimada em R$ 180 bilhões, enquanto o déficit previsto no orçamento estadual para 2027 chega a R$ 10 bilhões. Apesar de ter apoiado Flávio Bolsonaro na eleição presidencial, Cleitinho tem defendido o fim da polarização e a pacificação política, uma posição que poderá facilitar conversas com Lula sobre a situação financeira de Minas Gerais.
No Rio de Janeiro, Douglas Ruas (PL), eleito governador no primeiro turno com apoio expressivo de Flávio, também afirmou que pretende manter uma relação institucional com Brasília. O político declarou que buscará um “relacionamento institucional produtivo” com o governo federal, acrescentando que espera obter investimentos para obras e políticas sociais destinadas à população fluminense. Já Luciano Zucco, eleito no Rio Grande do Sul, afirmou que pretende defender os interesses estaduais “acima das diferenças partidárias”, destacando a necessidade de diálogo diante da situação financeira do estado, cuja dívida com a União ultrapassa R$ 100 bilhões.
O caso gaúcho merece atenção porque a suspensão do pagamento da dívida estadual, concedida em maio de 2024 em razão das enchentes que atingiram o território, tem previsão de terminar em abril de 2027. Por isso, o governo estadual trabalha para aderir ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), mecanismo que permite negociar as condições de pagamento dos débitos com a União. No Distrito Federal, Celina Leão também enfrenta dificuldades relacionadas às contas públicas e busca apoio federal para encontrar uma solução para a crise do Banco de Brasília (BRB), embora Lula já tenha declarado que o governo federal não pretende colocar dinheiro na instituição.
Lula ganha interlocutores entre antigos aliados de Flávio Bolsonaro
A disposição dos governadores para conversar com Lula coloca o presidente diante de uma realidade política diferente daquela observada durante a campanha eleitoral. Embora Flávio tenha recebido apoio de 15 governadores, essas alianças não se transformaram em um bloco unificado disposto a acompanhar todas as decisões do senador depois da derrota. A necessidade de administrar os estados, negociar recursos e buscar soluções para problemas fiscais cria interesses próprios para cada governador, que precisa manter canais de comunicação com o Palácio do Planalto.
A postura de Douglas Ruas, Luciano Zucco, Sergio Moro, Tarcísio de Freitas e Cleitinho demonstra que o diálogo institucional poderá avançar mesmo entre políticos que fizeram campanha contra Lula. Isso não elimina as diferenças ideológicas, nem significa que os governadores passarão a apoiar os projetos do governo federal, mas estabelece condições para negociações em áreas como infraestrutura, segurança pública, investimentos e equilíbrio das contas estaduais. Para Lula, a interlocução com esses governadores será importante para construir relações administrativas com estados comandados por adversários políticos, enquanto as lideranças estaduais precisarão avaliar até que ponto a cooperação com Brasília poderá atender às demandas de suas populações.





