A PF pretende ampliar o prazo para investigar o filho do presidente Lula, mas ainda não há decisão sobre o pedido

A Polícia Federal (PF) solicitou mais tempo para avançar em duas investigações que têm como alvo Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Os inquéritos apuram suspeitas de corrupção e tráfico de influência relacionadas a possíveis intermediações de negócios envolvendo órgãos do governo federal, enquanto a defesa do empresário contesta a necessidade de prolongar as apurações. O pedido de prorrogação abriu uma nova etapa da controvérsia, pois os advogados afirmam que as diligências representam uma tentativa de encontrar provas para sustentar suspeitas que, segundo eles, ainda não foram demonstradas.
As solicitações da PF foram incluídas no sistema judicial em 2 de outubro, sob sigilo, e encaminhadas ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). Até a publicação da reportagem do UOL, em 20 de outubro de 2026, não havia decisão autorizando a extensão do prazo, enquanto os andamentos relacionados aos procedimentos estavam sendo direcionados ao gabinete do presidente do STF, ministro Edson Fachin. A corporação argumentou que ainda existem medidas pendentes e que os resultados são necessários para esclarecer os fatos investigados e avaliar a necessidade de novas providências.
Entre as diligências solicitadas estão o levantamento das viagens nacionais e internacionais realizadas por Lulinha, a identificação de quem pagou pelas passagens e a verificação de quais deslocamentos teriam sido feitos na companhia da lobista Roberta Luchsinger. Os investigadores também pretendem reunir informações sobre participações societárias, movimentações financeiras e registros de agendas e reuniões de pessoas investigadas em órgãos públicos federais. Para a defesa, entretanto, a ampliação das buscas representa uma tentativa indevida de encontrar elementos que justifiquem a continuidade dos inquéritos, argumento que deverá ser analisado pelas autoridades responsáveis pelo caso.
PF pede mais tempo para investigar Lulinha e amplia diligências
A Polícia Federal considera que as medidas ainda não concluídas podem contribuir para esclarecer as suspeitas relacionadas a Lulinha e Roberta Luchsinger. Uma das investigações apura uma possível atuação dos dois na intermediação de um contrato relacionado à cannabis medicinal no Ministério da Saúde, enquanto a outra examina suspeitas de intermediação de negócios no governo federal em benefício do empresário de tecnologia Cléber Ribas. Empresas ligadas a Ribas obtiveram contratos com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, circunstância que integra o contexto da apuração sobre possíveis relações e favorecimentos.
O levantamento das viagens é uma das frentes previstas pela PF para reconstruir deslocamentos, identificar possíveis acompanhantes e verificar quem teria custeado as passagens. Além disso, os investigadores pretendem examinar informações societárias e financeiras, bem como registros de compromissos que possam ajudar a esclarecer contatos entre os envolvidos e integrantes de órgãos públicos. A realização dessas diligências não significa que as suspeitas tenham sido comprovadas, mas indica que a investigação ainda busca reunir elementos para avaliar as hipóteses examinadas.
Segundo a reportagem do UOL, as solicitações de prorrogação e de elaboração de novos relatórios permaneciam sem autorização judicial até aquele momento. A decisão sobre a continuidade dos procedimentos deverá considerar os pedidos apresentados, as diligências pendentes e os fundamentos expostos pelos investigadores. Enquanto isso, as defesas mantêm o questionamento sobre a necessidade de prolongar as apurações, sustentando que a investigação não apresentou elementos suficientes para justificar novas medidas.
Defesa de Lulinha chama investigação de pesca probatória
O advogado Marco Aurélio de Carvalho, representante da defesa de Lulinha, criticou o pedido de ampliação das investigações e afirmou ao UOL que os investigadores estariam tentando encontrar provas para justificar a apuração. Ele classificou o procedimento como uma investigação que, em sua avaliação, teria começado pelo fim, argumentando que não foram encontrados elementos capazes de sustentar a continuidade das diligências. A expressão pesca probatória, também conhecida pelo termo em inglês fishing expedition, é utilizada pela defesa para contestar buscas que considera exploratórias e sem fundamentação suficiente.
A defesa de Roberta Luchsinger também se manifestou contra a prorrogação dos procedimentos. O advogado Roberto Podval afirmou que, na avaliação dele, um ano de investigações não teria produzido resultados relevantes e que o caminho natural seria o arquivamento, além de levantar suspeitas de utilização política das apurações. Essas declarações representam a posição dos advogados dos investigados e não constituem uma decisão judicial sobre a legalidade das diligências ou sobre a existência dos crimes investigados.
A controvérsia envolve, portanto, duas perspectivas distintas: a PF sustenta que precisa concluir medidas pendentes para esclarecer os fatos, enquanto as defesas argumentam que a ampliação das buscas não se justifica diante dos elementos reunidos até agora. A análise judicial deverá considerar os fundamentos dos pedidos e os limites legais da investigação, sem que as acusações ou as manifestações dos advogados sejam confundidas com conclusões definitivas. Até que haja uma decisão sobre a prorrogação e o avanço das apurações, não é possível afirmar que as suspeitas foram comprovadas ou que os investigados tenham sido responsabilizados criminalmente.
Terceiro inquérito investiga outras relações envolvendo Lulinha
Além dos dois procedimentos para os quais a Polícia Federal solicitou mais tempo, existe um terceiro inquérito envolvendo Lulinha, conduzido na corporação sob relatoria do ministro Flávio Dino, do STF. Essa investigação examina a relação entre Lulinha, Roberta Luchsinger e Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, que ocupou o cargo de chefe de gabinete da Presidência da República. Entre os pontos investigados está a possibilidade de vazamento de dados federais, questão que permanece sob apuração e depende da análise dos elementos reunidos pelas autoridades.
A existência de três investigações demonstra que diferentes suspeitas envolvendo o filho do presidente estão sendo examinadas em procedimentos distintos, com objetos e linhas de apuração próprios. Ao mesmo tempo, é necessário distinguir a abertura e a continuidade de inquéritos da comprovação de irregularidades, pois a responsabilização criminal depende de provas e do devido processo legal. O próximo desdobramento relevante será a decisão sobre os pedidos de prorrogação e a evolução das diligências, que poderão esclarecer as suspeitas ou levar a novas conclusões no curso das investigações.





