A reeleição de Lula fez com que muitos líderes prestassem mais atenção no trabalho de André Janones nas redes sociais

A estratégia de mobilização digital organizada pelo deputado federal André Janones durante a campanha de reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva ultrapassou as fronteiras brasileiras e começou a influenciar movimentos de esquerda em outros países. O modelo, baseado principalmente em grupos de WhatsApp, distribuição de tarefas aos apoiadores e divulgação coordenada de mensagens políticas, passou a ser observado por organizações que procuram ampliar sua presença nas redes sociais. Iniciativas semelhantes surgiram na França, na Argentina e na Espanha, enquanto lideranças da Colômbia e do México também demonstraram interesse em conhecer a experiência brasileira.
O principal exemplo dessa estratégia foi o chamado Exército do Lula, canal criado por Janones que chegou a aproximadamente 10,8 milhões de seguidores durante a campanha eleitoral. Os participantes recebiam orientações para compartilhar vídeos, divulgar hashtags, convidar novos integrantes e ampliar a circulação de conteúdos favoráveis ao candidato petista. Em vez de concentrar a comunicação apenas nos perfis oficiais da campanha, o método procurava transformar cada apoiador em um multiplicador de mensagens, levando o conteúdo político a diferentes redes e conversas pessoais.
A repercussão internacional ganhou força depois da vitória de Lula e passou a ser acompanhada por integrantes de partidos e movimentos progressistas interessados em disputar espaço com adversários conservadores. Na França, o responsável pela comunicação de uma legenda de esquerda publicou orientações inspiradas diretamente nas práticas de Janones, enquanto argentinos criaram uma comunidade com referência explícita ao Exército do Lula. Na Colômbia, o ex-presidente Gustavo Petro elogiou a articulação brasileira, e o deputado respondeu oferecendo colaboração com movimentos de esquerda de outros países.
França adapta orientações de Janones para campanha política
Na França, o deputado Antoine Léaument, integrante da França Insubmissa, partido liderado por Jean-Luc Mélenchon, publicou em 27 de outubro um artigo com recomendações para orientar a militância digital da legenda. O parlamentar associou explicitamente algumas das orientações ao chamado janonismo, termo utilizado para identificar a estratégia de mobilização organizada pelo deputado brasileiro. Entre as medidas apresentadas estavam a criação de canais de WhatsApp, a distribuição de tarefas aos apoiadores e a organização de ações para ampliar a repercussão das mensagens políticas.
As recomendações também incluíam formas específicas de interação com publicações de adversários nas redes sociais. Uma das orientações era utilizar capturas de tela para responder a conteúdos, em vez de compartilhar diretamente as publicações originais, evitando ampliar o alcance dos perfis adversários. O material também mencionava a possibilidade de bloquear contas ligadas à direita, enquanto o partido passou a utilizar canais de WhatsApp para organizar simpatizantes e divulgar instruções de participação.
A iniciativa francesa está relacionada à preparação para a eleição presidencial de 2027, quando Mélenchon pretende disputar espaço político em um cenário de forte concorrência entre diferentes correntes ideológicas. O interesse pelo modelo brasileiro demonstra que a experiência de Janones passou a ser observada não apenas como uma ferramenta de comunicação eleitoral, mas também como uma forma de organizar militantes em torno de ações digitais coordenadas. Parte das mensagens divulgadas pelos grupos franceses aparece em francês e português, reforçando a referência à campanha brasileira.
Argentina, Espanha e Colômbia também demonstram interesse
Na Argentina, apoiadores do peronismo criaram o Ejército del Peronismo, um canal de WhatsApp que se apresenta como inspirado no Exército do Lula. A iniciativa procura organizar simpatizantes para a eleição presidencial de 2027 e utiliza uma dinâmica semelhante à brasileira, com distribuição de missões e incentivo à divulgação de conteúdos políticos. Os participantes são convocados a ampliar a comunidade, compartilhar mensagens e participar de ações coletivas destinadas a aumentar a presença do movimento nas plataformas digitais.
Na Espanha, a estratégia aparece em canais de apoio ao primeiro-ministro Pedro Sánchez, entre eles o La fuerza de la gente e o Ejército de Sánchez. Um desses espaços reunia aproximadamente 41 mil seguidores em 29 de outubro, enquanto as publicações compartilhadas apresentavam orientações identificadas como as seis regras da estratégia digital de Janones. A mobilização ocorre em um período de preparação para as eleições gerais espanholas, convocadas para 29 de novembro de 2026, quando Sánchez buscará permanecer à frente do governo.
A repercussão também chegou à Colômbia, depois que Gustavo Petro elogiou, em 26 de outubro, a articulação promovida por Janones entre ativistas no WhatsApp e mobilização nas ruas. O deputado respondeu em espanhol e afirmou estar à disposição da Colômbia, de seu povo e da esquerda mundial, oferecendo ajuda para compartilhar a experiência brasileira. Janones também recebeu um convite da presidente mexicana Claudia Sheinbaum para visitar o país e discutir iniciativas conjuntas, além de ter sido mencionado em conversas relacionadas a uma possível colaboração com o primeiro-ministro espanhol.
Especialistas apontam benefícios e limites da estratégia
No Brasil, a atuação de Janones foi acompanhada por especialistas em comunicação política, que identificaram na mobilização digital uma forma de estabelecer contato direto entre campanhas e eleitores. O cientista político Leandro Consentino, professor do Insper, avaliou que a estratégia tende a ganhar importância nas disputas eleitorais, independentemente de quem seja o candidato. Já a cientista política Tathiana Chicarino, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, destacou a importância de combinar a atuação nas redes sociais com a mobilização presencial.
Os especialistas também apontaram limitações no modelo, especialmente quando a comunicação passa a depender excessivamente de ataques, provocações e da imagem de uma liderança específica. Consentino alertou que esse formato pode deixar a discussão sobre propostas e políticas públicas em segundo plano, além de favorecer uma campanha mais personalista. Chicarino observou que a distribuição constante de tarefas e apelos de urgência pode funcionar durante a reta final de uma eleição, mas apresenta dificuldades para ser mantida no médio e longo prazo.
A adoção de estratégias digitais semelhantes em diferentes países mostra como experiências eleitorais podem ser adaptadas às características de cada disputa política. Antes mesmo da repercussão internacional do método Janones, o governador democrata da Califórnia, Gavin Newsom, já utilizava paródias e publicações provocativas inspiradas no estilo de comunicação de Donald Trump para disputar atenção nas redes sociais. A experiência brasileira, entretanto, passou a chamar a atenção por transformar milhões de apoiadores em participantes de uma rede organizada de divulgação, modelo que agora começa a ser reproduzido por movimentos de esquerda fora do país.





