André Janones chegou a ser ignorado até pela campanha de Lula no início, mas agora é o grande destaque no 2º turno

O deputado federal André Janones, da Rede por Minas Gerais, ganhou espaço na campanha de Luiz Inácio Lula da Silva após o primeiro turno das eleições de 2026, depois de passar boa parte da primeira etapa eleitoral sem participação direta nas principais decisões de comunicação digital do petista. A mudança ocorreu após o parlamentar mobilizar milhões de pessoas por meio do canal de WhatsApp chamado Exército do Lula, criado para organizar apoiadores e ampliar a circulação de conteúdos favoráveis ao presidente. Segundo reportagem publicada pelo UOL em 14 de outubro, a iniciativa chamou a atenção da campanha de Flávio Bolsonaro e transformou Janones em um dos personagens centrais da disputa eleitoral nas redes sociais.
O canal reuniu mais de 4,3 milhões de seguidores após o encerramento do primeiro turno, em 4 de outubro, quando Lula ficou atrás de Flávio Bolsonaro na votação. Janones passou a divulgar orientações para que os integrantes compartilhassem publicações, comentassem vídeos, encaminhassem mensagens e ampliassem o alcance das peças de campanha em diferentes plataformas digitais. A dimensão da iniciativa e a rapidez com que o deputado assumiu uma função de mobilização ajudaram a explicar por que sua atuação passou a ser observada tanto por aliados de Lula quanto por integrantes da campanha adversária.
A mudança de posição de Janones também ocorreu em um momento no qual as duas campanhas buscavam ampliar sua presença no ambiente digital e conquistar eleitores ainda indecisos. O deputado defendia uma comunicação mais direta, com linguagem de confronto e instruções práticas para estimular a participação dos apoiadores, estratégia que ele já utilizava em seus próprios vídeos. Para o grupo de Lula, a iniciativa representou uma forma de reforçar a militância digital na reta final da eleição, enquanto a campanha de Flávio passou a questionar o funcionamento e o conteúdo divulgado pelo canal.
O que fez o canal Exército do Lula ganhar importância
A principal característica do canal criado por Janones foi a tentativa de transformar seguidores em participantes ativos da campanha, em vez de limitar a comunicação à publicação de mensagens para leitura. O parlamentar orientava os integrantes a curtir, comentar e compartilhar conteúdos, além de encaminhá-los a contatos pessoais e publicá-los em outras redes sociais para ampliar sua distribuição. As instruções também incluíam a produção de materiais próprios e a divulgação de anúncios do governo Lula, como a medida anunciada para aliviar dívidas de microempreendedores individuais.
Em áudios divulgados aos participantes, Janones afirmou que pretendia promover uma mudança na maneira como a esquerda utilizava as redes sociais durante a disputa eleitoral. O deputado sustentava que a organização dos apoiadores poderia aumentar a circulação das mensagens e ajudar a campanha a alcançar públicos que não acompanhavam diretamente os perfis oficiais do presidente. A linguagem empregada, com expressões como missão, tropa e conquista de território, reforçou o caráter de mobilização coletiva que o parlamentar atribuiu à iniciativa.
A campanha de Lula passou a reconhecer a relevância do trabalho depois que o canal alcançou milhões de pessoas e ganhou visibilidade nacional. Segundo o UOL, Janones e o presidente se encontraram três vezes desde o primeiro turno, e Lula também saiu em defesa do deputado durante um ato realizado na Avenida Paulista. A aproximação indicou uma mudança em relação à primeira etapa da eleição, quando Janones não ocupava posição central nas estratégias digitais definidas pela equipe de comunicação petista.
Por que Flávio Bolsonaro acionou a Justiça Eleitoral
A iniciativa de Janones se tornou alvo da campanha de Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, que recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral para questionar o funcionamento do canal. Em 11 de outubro, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, determinou a suspensão do Exército do Lula após pedido apresentado pela campanha adversária. A decisão foi posteriormente revertida pelo ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, relator do caso, que determinou a reativação do canal, dando início a uma sequência de decisões judiciais sobre a ferramenta.
A discussão envolveu alegações relacionadas à divulgação de conteúdos considerados falsos e à utilização de mensagens que já haviam sido questionadas em outros ambientes digitais. De acordo com informações publicadas pela Folha, a área técnica do tribunal não identificou no canal as notícias falsas apontadas pela campanha do PL, embora tenha registrado a existência de mensagens apagadas. A controvérsia também levou o TSE a exigir providências formais para a regularização da iniciativa, enquanto as campanhas apresentavam argumentos distintos sobre a legalidade e os efeitos da mobilização.
Em 13 de outubro, a campanha de Lula registrou formalmente o canal no TSE, atendendo às exigências relacionadas à identificação da estrutura digital e de seus responsáveis. As decisões judiciais e as suspensões temporárias aumentaram a repercussão do caso e deram a Janones novos argumentos para convocar os apoiadores a continuar compartilhando conteúdos eleitorais. O episódio passou a reunir questões sobre propaganda, moderação de conteúdo e atuação das plataformas digitais em período eleitoral, ampliando a importância do canal para além da disputa entre os dois candidatos.
O histórico de Janones e os desafios para a campanha de Lula
Além da atuação nas redes sociais, o histórico político de Janones também voltou ao debate público durante a campanha, especialmente por causa de um caso relacionado à suspeita de rachadinha em seu gabinete na Câmara dos Deputados. Em 2024, o Conselho de Ética arquivou a denúncia após parecer favorável apresentado pelo relator Guilherme Boulos, mas o assunto teve desdobramentos na esfera criminal. Conforme relatado pelo UOL, Janones admitiu a prática em um acordo no processo conduzido no Supremo Tribunal Federal e concordou em pagar aproximadamente R$ 157,8 mil, incluindo valores destinados ao ressarcimento dos cofres públicos e ao pagamento de multa.
A aproximação entre Lula e Janones, portanto, ocorreu em meio à busca por maior alcance digital e à disputa jurídica sobre os limites da comunicação eleitoral na internet. Para Flávio Bolsonaro, o caso do canal passou a integrar a contestação das estratégias utilizadas pelos adversários, enquanto o grupo petista incorporou a iniciativa à mobilização de apoiadores no segundo turno. A evolução do episódio mostra como o alcance das redes sociais, a organização de militantes e as decisões da Justiça Eleitoral se tornaram elementos importantes da disputa presidencial de 2026.





