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Áudios revelam que fazendeiros estariam ameaçando invadir terras indígenas se Flávio Bolsonaro se tornar presidente

Indígenas da Terra Indígena Apyterewa, localizada em São Félix do Xingu, no Pará, receberam áudios com ameaças de invasão da área caso o senador Flávio Bolsonaro (PL) vença o segundo turno das eleições presidenciais de 2026. As mensagens, enviadas pelo WhatsApp e obtidas pela Folha de S.Paulo, relatam um suposto plano de fazendeiros para ocupar o território no dia 25 de outubro, data da votação. O caso chegou ao conhecimento de órgãos de inteligência do governo federal, que acompanham os relatos em meio ao histórico de conflitos fundiários e violência na região.

Segundo a reportagem, oito áudios mencionam a possibilidade de entrada de fazendeiros na área indígena após o resultado eleitoral, com a intenção de instalar propriedades rurais no território dos parakanãs. As mensagens indicariam que os envolvidos esperam que uma eventual vitória de Flávio, juntamente com a atuação do governador eleito do Pará, Dr. Daniel (Podemos), abra caminho para a retirada da proteção territorial e a transferência das terras para pecuaristas. Essas afirmações fazem parte do conteúdo relatado nos áudios, e não representam uma decisão oficial ou uma proposta formal apresentada pelo candidato do PL.

Por razões de segurança, a Folha informou que não divulgaria a transcrição integral das gravações nem a identidade das pessoas envolvidas. O jornal cruzou metadados dos arquivos com bases de dados e ouviu investigadores que atuam no caso, apontando vínculos com endereços situados nos arredores da Terra Indígena Apyterewa. A campanha de Flávio Bolsonaro foi procurada desde a noite de quinta-feira, 8 de outubro, mas não havia respondido até a publicação da reportagem, enquanto a gestão estadual do Pará também não se manifestou.

Ameaças aumentam a preocupação com a segurança dos parakanãs

Os áudios descrevem uma movimentação considerada suspeita por indígenas e autoridades, com relatos de maior circulação de motocicletas e caminhonetes nas proximidades do território. As mensagens também mencionariam a compra de lonas e materiais utilizados em atividades agrícolas, que poderiam ser empregados na instalação de ocupações e na preparação de áreas para pastagens. Em alguns recados, os indígenas teriam sido orientados a evitar locais onde os fazendeiros estariam preparando o solo e até a deixar determinadas partes da região.

A situação preocupa especialmente por envolver o povo parakanã, considerado de recente contato com a sociedade não indígena e, por isso, mais vulnerável aos efeitos de uma invasão. A Terra Indígena Apyterewa foi homologada em 2007, possui aproximadamente 773 mil hectares e abriga mais de mil indígenas, segundo os dados citados pela reportagem. A ocupação ilegal poderia ameaçar a segurança das comunidades, comprometer suas atividades tradicionais e ampliar a pressão sobre uma área protegida da Amazônia.

O território tem um histórico de conflitos entre indígenas, pecuaristas e equipes responsáveis pela retirada de ocupantes ilegais. Durante operações de desintrusão iniciadas em 2023, houve reações violentas, emboscadas e derrubada de pontes para dificultar a circulação dos agentes públicos. A reportagem também recorda que um servidor da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) foi baleado no fim de 2023 e um trabalhador contratado pelo Ibama morreu em 2025, em episódios relacionados ao contexto de tensão na região.

Governo monitora suspeitas de invasão e incêndios

Além das ameaças relatadas nas gravações, autoridades federais acompanham o aumento de incêndios florestais dentro da Terra Indígena Apyterewa. Investigadores apuram a possibilidade de que parte das queimadas tenha sido provocada intencionalmente, embora a suspeita ainda dependa de investigação e comprovação. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), compilados pelo Programa Xingu e citados pela Folha, apontaram 41 focos de incêndio em julho, 626 em agosto e 1.007 em setembro.

O crescimento expressivo dos focos de incêndio coincidiu com o acirramento das tensões políticas e fundiárias na região, segundo autoridades ouvidas pela reportagem. O Comitê de Desintrusão do governo federal reforçou o acompanhamento da situação, com participação de órgãos como Polícia Federal, Ibama, Funai e Ministério dos Povos Indígenas. O monitoramento busca identificar possíveis movimentações ilegais e prevenir novos episódios de violência, diante dos relatos sobre uma eventual ocupação planejada para o dia do segundo turno.

A retirada de ocupantes ilegais da Apyterewa começou em 2023, mas enfrentou resistência de pessoas que mantinham atividades econômicas dentro da área protegida. Durante esse processo, foram registrados ataques contra equipes públicas e tentativas de dificultar as operações de fiscalização, conforme o histórico reunido pela reportagem. A presença de uma ocupação conhecida como Vila Renascer, construída dentro do território indígena, também ilustra a dimensão do conflito fundiário que se desenvolveu ao longo dos anos.

Disputa eleitoral aumenta a tensão em território indígena

A divulgação das ameaças ocorre durante a campanha presidencial, que terá seu segundo turno em 25 de outubro, data mencionada nos áudios como possível momento para a invasão. O conteúdo das gravações associa a expectativa de vitória de Flávio Bolsonaro à possibilidade de mudanças na situação fundiária da região, mas não há indicação de que o candidato tenha organizado, autorizado ou participado de qualquer plano de ocupação. Até a publicação da reportagem, sua campanha não havia respondido aos questionamentos enviados pela Folha sobre as mensagens.

O caso também envolve o governador eleito do Pará, Dr. Daniel, citado nos relatos como parte das expectativas dos supostos invasores, embora a reportagem não apresente comprovação de participação dele em um plano ilegal. A gestão estadual não se pronunciou até a publicação, e as ameaças relatadas permaneciam sob acompanhamento das autoridades federais. A distinção entre o conteúdo atribuído aos remetentes dos áudios e as posições oficiais dos políticos citados é fundamental para compreender o alcance das acusações.

Com a aproximação da votação, os órgãos responsáveis pela proteção territorial e pela segurança pública terão de avaliar os indícios e adotar as providências cabíveis diante de qualquer risco confirmado. A prioridade é impedir invasões ilegais e proteger as comunidades parakanãs, sem antecipar conclusões sobre a autoria ou a execução de um possível plano. As ameaças relatadas pela Folha colocam novamente em evidência a vulnerabilidade da Terra Indígena Apyterewa e a necessidade de apuração dos fatos em uma região marcada por conflitos, desmatamento e disputas pela ocupação da terra.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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