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Cartilha do PT com 19 páginas traz orientações ao militantes em meio a fake news sobre a padroeira do Brasil

A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) produziu uma cartilha de 19 páginas com orientações para militantes abordarem eleitores indecisos na reta final do primeiro turno das eleições de 2026. O material, chamado Guia da Conversa, apresenta sugestões de assuntos e respostas para conversas realizadas nas ruas, em pontos de ônibus, filas e outros locais de circulação. Entre os temas incluídos está a religião, em meio à repercussão de conteúdos que associaram Flávio Bolsonaro a uma suposta intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.

Em um dos trechos, o manual orienta os petistas sobre como responder quando encontrarem a afirmação de que Lula não teria religião. A resposta sugerida pela campanha afirma que Lula é católico e que seria guiado por valores cristãos relacionados ao amor ao próximo e ao cuidado com pessoas em situação de necessidade. O documento também cita a Lei de Liberdade Religiosa como argumento para defender a atuação do governo em relação às diferentes comunidades de fé.

A cartilha foi distribuída por grupos de WhatsApp utilizados por apoiadores, entre eles o chamado Pode Espalhar. O conteúdo também chegou a um grupo de evangélicos favoráveis à candidatura de Lula, cuja mensagem de apresentação utilizou linguagem direcionada ao segmento religioso. O material foi divulgado justamente em uma semana na qual a discussão sobre Nossa Senhora Aparecida ganhou grande espaço nas redes sociais e passou a fazer parte da comunicação eleitoral dos candidatos.

Cartilha do PT coloca religião entre temas da campanha

O Guia da Conversa foi elaborado para orientar militantes sobre como iniciar diálogos com pessoas que ainda não haviam definido o voto. A publicação recomenda que os apoiadores evitem brigas e não tratem os indecisos com desdém, propondo que a abordagem seja adaptada aos assuntos que mais preocupam cada eleitor. A religião aparece no manual ao lado de temas como economia, programas sociais, juventude e políticas voltadas às mulheres.

No trecho dedicado à fé, a campanha classifica como uma “mentira do adversário” a afirmação de que Lula não teria religião. Em seguida, apresenta uma chamada “resposta pé no chão”, na qual os militantes são orientados a dizer que Lula é católico e que seus valores seriam relacionados ao cristianismo. A cartilha também recomenda mencionar a liberdade religiosa e a possibilidade de diferentes igrejas e comunidades exercerem suas atividades sem interferência do governo.

A orientação religiosa foi incluída em um manual que também apresenta exemplos de argumentos para outras situações encontradas pelos militantes. Para a economia, por exemplo, o documento recomenda identificar primeiro a preocupação concreta do eleitor, como o preço dos alimentos, antes de apresentar indicadores macroeconômicos. Para os jovens, são citados o fim da escala 6×1, o aumento do limite de faturamento do MEI para R$ 140 mil, o programa Pé-de-Meia e medidas relacionadas às apostas esportivas.

Polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida chegou à campanha

A orientação sobre religião foi divulgada durante a repercussão de uma informação que associava Flávio Bolsonaro a um antigo projeto relacionado a Nossa Senhora Aparecida. A proposta citada nas publicações foi apresentada em 2007 pelo então deputado federal Professor Victório Galli e previa modificar a referência à santa como Padroeira do Brasil, substituindo a expressão por uma formulação relacionada aos brasileiros católicos apostólicos romanos. O projeto foi arquivado pela Câmara dos Deputados em 22 de agosto de 2022 e não era de autoria de Flávio Bolsonaro.

A associação ganhou força depois que usuários das redes sociais relacionaram o projeto antigo a uma declaração feita por Flávio em agosto, na qual ele afirmou que, caso fosse eleito presidente, um de seus primeiros atos seria decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo. O senador negou que tivesse qualquer proposta para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil e classificou a informação como falsa. A Justiça Eleitoral posteriormente determinou a retirada de publicações relacionadas à associação, em decisões que deram origem a novas divergências entre ministros do TSE e do STF.

Lula também passou a comentar o assunto durante a campanha, incluindo declarações feitas em entrevista ao Canal Livre, da Band, no domingo, 27 de setembro. Questionado pela jornalista Adriana Araújo se a informação era uma fake news, o presidente respondeu que não sabia se era falso, depois de afirmar que não seria aceitável mexer com Nossa Senhora Aparecida. No dia seguinte, durante um ato em Belém, Lula voltou ao tema e declarou que, enquanto fosse presidente, ninguém iria “avacalhar” com a santa, segundo a CNN Brasil.

Estratégia da campanha inclui economia, jovens e mulheres

Além da religião, a cartilha dedica duas páginas ao que chama de Economia Real: Mitos e Respostas. O manual orienta os militantes a descobrir primeiro qual problema afeta diretamente o eleitor antes de apresentar argumentos econômicos, citando como exemplo uma pessoa preocupada com o preço do arroz. A estratégia descrita no documento busca direcionar cada conversa conforme o perfil e as preocupações apresentadas por quem está sendo abordado.

Outro capítulo é dedicado aos jovens, com orientações para destacar propostas relacionadas ao trabalho e à educação. O material menciona o fim da escala 6×1, o aumento do limite de faturamento do Microempreendedor Individual para R$ 140 mil, o programa Pé-de-Meia e uma medida enviada ao Congresso sobre as apostas esportivas. Também foram reservadas três páginas para as mulheres, que, segundo a própria cartilha, representam 52,8% do eleitorado brasileiro.

A campanha ainda lançou um desafio aos militantes para ampliar a circulação do conteúdo por meio de contatos pessoais e aplicativos de mensagens. A recomendação era compartilhar o material com cinco pessoas de perfis diferentes: um jovem, um trabalhador, uma mãe de família, um colega de trabalho e um parente. O documento sustenta que a campanha deveria alcançar os eleitores indecisos nas ruas, feiras e grupos de WhatsApp durante os últimos dias antes do primeiro turno, marcado para 4 de outubro.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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