Cleitinho foi criticado pelo influenciador Ben Mendes, que também disputou o governo de Minas Gerais

O governador eleito de Minas Gerais, Cleitinho Azevedo (Republicanos), tornou-se alvo de novas críticas de setores ligados ao bolsonarismo após convidar Gabriel Azevedo (MDB), ex-presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte, para integrar o secretariado de sua futura administração. A decisão provocou uma reação pública do influenciador Ben Mendes, que disputou o governo mineiro pelo partido Missão e acusou Cleitinho de contrariar eleitores que apoiaram sua candidatura por identificá-lo com a direita. O episódio ampliou o debate sobre a composição do próximo governo estadual e os limites das alianças políticas em Minas Gerais.
A principal contestação apresentada por Ben Mendes está relacionada às declarações anteriores de Gabriel Azevedo contra o bolsonarismo e a família do ex-presidente Jair Bolsonaro. O influenciador recuperou um vídeo de uma entrevista concedida pelo emedebista à rádio BandNews FM BH, em julho, na qual ele criticou duramente a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República e comparou o bolsonarismo a movimentos autoritários da história brasileira. Dessa maneira, o convite para que Gabriel participe do governo mineiro foi interpretado por Mendes como uma contradição entre o discurso eleitoral de Cleitinho e suas escolhas para a futura equipe administrativa.
A controvérsia ocorre em um momento de reorganização das forças políticas mineiras após as eleições estaduais e em meio à disputa presidencial entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Cleitinho venceu a eleição para o governo de Minas Gerais no primeiro turno, resultado que fortaleceu sua posição política e ampliou as expectativas em torno de sua atuação como liderança da direita no estado. Entretanto, a escolha de nomes para o secretariado demonstra que a formação de um governo envolve negociações e decisões que podem provocar divergências mesmo entre grupos que compartilham parte de suas pautas eleitorais.
Ben Mendes critica Cleitinho e questiona aliança com Gabriel Azevedo
Em vídeo divulgado nas redes sociais, Ben Mendes classificou Cleitinho como uma liderança que teria utilizado a identificação com o bolsonarismo para conquistar votos, mas que estaria adotando uma postura diferente depois de eleito. O influenciador empregou expressões contundentes para criticar a aproximação com Gabriel e afirmou que faria oposição à futura administração estadual, à qual atribuiu características populistas e oportunistas. As declarações representam a avaliação política de Mendes e não comprovam, por si só, que Cleitinho tenha descumprido algum compromisso formal assumido com seus eleitores.
Durante a gravação, Mendes também utilizou a expressão cavalo de Troia para questionar as intenções políticas do governador eleito e sugerir que a aproximação com setores ideologicamente diferentes poderia frustrar parte de sua base eleitoral. Ele declarou que também faz críticas a Flávio Bolsonaro, mas argumentou que suas posições são apresentadas de maneira transparente, em contraste com a conduta que atribui a Cleitinho. Com isso, a discussão deixou de se limitar à indicação de um futuro secretário e passou a envolver a confiança dos eleitores nas posições políticas defendidas durante a campanha.
Gabriel Azevedo explica convite para integrar o governo de Minas
Gabriel Azevedo, por sua vez, relatou que mantém conversas com Cleitinho há algum tempo e que já havia recebido um convite para ocupar a posição de vice na chapa eleitoral, proposta que decidiu recusar. Segundo entrevista concedida ao Estado de Minas, o contato entre os dois foi retomado logo após a eleição, quando o governador eleito manifestou interesse em encontrá-lo e, posteriormente, formalizou o convite para integrar a futura administração. Gabriel afirmou que aceitou a proposta, embora a secretaria que deverá comandar ainda não tivesse sido divulgada na ocasião da reportagem.
A aproximação entre os dois políticos chama a atenção porque Gabriel construiu parte de sua trajetória pública em Belo Horizonte, onde presidiu a Câmara Municipal, enquanto Cleitinho consolidou sua projeção política como senador e, posteriormente, venceu a disputa pelo governo estadual. Além disso, Gabriel já havia ocupado o cargo de subsecretário de Juventude entre 2011 e 2014, durante a administração mineira de Antonio Anastasia, então filiado ao PSDB. Essa experiência anterior no setor público pode ser considerada na avaliação de seu perfil para o secretariado, embora as atribuições específicas de sua futura função ainda precisassem ser definidas.
A divergência também evidencia como a escolha de integrantes de um governo pode reunir pessoas com trajetórias e posições políticas distintas, especialmente quando o objetivo é formar uma equipe com experiência administrativa. No caso de Gabriel, as críticas ao bolsonarismo registradas na entrevista de julho passaram a ser utilizadas por Ben Mendes como argumento contra a indicação, sobretudo pela proximidade de Cleitinho com eleitores identificados com a direita. Por outro lado, a aceitação do convite por Gabriel demonstra que ambos decidiram avançar na aproximação política, independentemente das críticas públicas provocadas pela iniciativa.
Cleitinho enfrenta pressão da direita após outras divergências políticas
As críticas de Ben Mendes não surgiram isoladamente, pois Cleitinho também havia sido questionado por apoiadores do bolsonarismo em razão de outros posicionamentos adotados durante sua atuação no Senado. Um dos episódios envolveu a defesa do fim da escala de trabalho 6×1, pauta sobre a qual o governador eleito manifestou posição favorável, apesar das divergências com Flávio Bolsonaro. A discussão ganhou visibilidade depois de Cleitinho aparecer ao lado do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, em uma publicação relacionada à tramitação da proposta.
Na ocasião, Cleitinho afirmou que a defesa do fim da escala 6×1 correspondia a uma luta que vinha desenvolvendo havia três anos, enquanto parte dos críticos interpretou sua atuação como um afastamento das posições de aliados políticos. A proposta prevê mudanças no regime de trabalho e envolve debates sobre jornada semanal, descanso dos trabalhadores, custos empresariais e efeitos econômicos, questões que exigem análise legislativa própria. Portanto, tanto essa discussão quanto o convite a Gabriel Azevedo mostram que a relação entre Cleitinho e setores da direita não depende apenas de declarações de apoio, mas também de decisões concretas sobre políticas públicas e composição administrativa.
Ao mesmo tempo, Cleitinho mantém sua aproximação com Flávio Bolsonaro na disputa presidencial, em um cenário no qual aliados do senador esperam que o governador eleito contribua para ampliar a votação do candidato do PL em Minas Gerais. Essa expectativa aumenta a importância política das manifestações de apoio e das escolhas feitas por Cleitinho, que deverá conciliar sua relação com a base eleitoral conservadora e a organização de uma administração estadual própria. Entretanto, divergências sobre determinadas propostas ou sobre a escolha de auxiliares não significam automaticamente um rompimento entre aliados, sendo necessário observar os posicionamentos públicos e as decisões adotadas ao longo do tempo.
O que a crise política pode representar para o governo de Cleitinho
A repercussão da indicação de Gabriel Azevedo coloca em evidência um dos desafios que Cleitinho deverá enfrentar ao assumir o governo de Minas Gerais: transformar o apoio eleitoral em uma base política capaz de sustentar as decisões administrativas. A escolha de secretários será acompanhada por diferentes grupos, incluindo aliados partidários, representantes de setores conservadores e lideranças que defendem maior abertura para profissionais com experiências e posições distintas. Nesse contexto, as críticas de Ben Mendes mostram que a formação da equipe de governo poderá influenciar a relação do governador eleito com segmentos que contribuíram para sua vitória.
A decisão de convidar Gabriel, contudo, também abre espaço para avaliar a futura administração a partir de sua capacidade de formular políticas públicas, organizar os serviços estaduais e cumprir os compromissos assumidos com a população mineira. Embora as acusações de traição feitas por Ben Mendes tenham elevado a temperatura do debate, os efeitos políticos da escolha dependerão das atribuições concedidas ao novo integrante, das medidas implementadas e da resposta de Cleitinho às cobranças de seus apoiadores. Assim, a controvérsia representa mais um capítulo das disputas internas da direita mineira e deverá continuar repercutindo enquanto a equipe do próximo governo for definida.





