Durante uma pregação, o bispo Edir Macedo criticou o slogan que é ligado a Jair Bolsonaro

As declarações do bispo Edir Macedo sobre o lema “Deus, Pátria e Família”, associado à família Bolsonaro, ganharam repercussão nesta segunda-feira, 2 de novembro de 2026. Durante uma pregação realizada em outubro, o fundador da Igreja Universal do Reino de Deus questionou a ordem dos termos e defendeu que a família deve estar acima do Estado na organização da sociedade. A manifestação foi feita em um culto no dia 25 de outubro, data do segundo turno das eleições presidenciais, mas voltou a circular nas redes sociais no início desta semana.
Em um trecho da gravação, Macedo afirmou: “Eu não aprovo aquela teoria ‘Deus, pátria e família’”. Na sequência, apresentou a hierarquia que, segundo ele, é adotada pela Igreja Universal, colocando Deus em primeiro lugar, a família em segundo e o Estado em terceiro. A fala representa uma crítica direta à formulação do lema, historicamente associado a setores conservadores e à família do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O bispo também recorreu a referências bíblicas para explicar seu posicionamento, mencionando Abraão e Isaac como exemplos de personagens que teriam seguido a ordem defendida por ele. Ao explicar a relação entre a estrutura familiar e a organização de uma nação, Macedo questionou: “Se não houver família, vai haver pátria?”. Em seguida, argumentou que a pátria depende da família e que esta, por sua vez, deve ter sua origem em Deus.
Edir Macedo explica por que rejeita o lema “Deus, Pátria e Família”
Durante a pregação, o líder religioso não se limitou a discordar da sequência apresentada no slogan, mas explicou qual ordem considera adequada para a instituição religiosa que dirige. Ele declarou que a prioridade da Universal é Deus, depois a família e, somente em seguida, o Estado ou qualquer outra instituição. Dessa forma, a crítica se concentrou na posição atribuída à pátria no lema, uma vez que, na interpretação apresentada por Macedo, a organização familiar deve anteceder a estrutura estatal.
A associação entre a expressão “Deus, Pátria e Família” e o bolsonarismo está ligada à utilização do lema por representantes da direita conservadora, incluindo integrantes da família Bolsonaro. A frase também remete a tradições políticas e religiosas que defendem a centralidade de valores cristãos, da família e da nação. Ao contestar a ordem dos conceitos, Macedo apresentou uma interpretação própria sobre a relação entre religião, família e Estado, sem deixar de reafirmar a importância de Deus como princípio central.
A declaração foi registrada durante um culto matutino de domingo, em 25 de outubro, e não em uma manifestação feita originalmente após a repercussão nas redes. O vídeo passou a receber atenção pública novamente no fim de semana seguinte, levando a fala do bispo a circular em reportagens e publicações digitais. O conteúdo permite identificar o contexto da manifestação e a justificativa apresentada por Macedo, sem que seja necessário atribuir à declaração intenções que ele não tenha explicitado.
Igreja Universal adotou distância da disputa presidencial de 2026
A crítica ao lema ocorreu em um cenário de distanciamento institucional da Igreja Universal em relação à disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, e Flávio Bolsonaro, do PL. Durante o segundo turno, a instituição não declarou apoio oficial a nenhum dos dois candidatos, postura diferente daquela adotada em 2022, quando apoiou Jair Bolsonaro na tentativa de reeleição. A mudança de comportamento chamou atenção porque a Universal já havia participado de mobilizações políticas em eleições anteriores.
No primeiro turno de 2026, a atuação política da igreja esteve concentrada na eleição de representantes ligados à instituição e às pautas defendidas por sua liderança. Bispos mobilizaram fiéis em uma campanha de caráter espiritual, com o objetivo de ampliar a presença de aliados no Legislativo e formar uma proteção parlamentar contra propostas consideradas prejudiciais aos interesses da organização. Entre os temas citados nesse contexto estavam o projeto relacionado à misoginia e a discussão sobre a tributação de templos religiosos.
A estratégia, porém, não alcançou integralmente o resultado esperado na Câmara dos Deputados, segundo os dados apresentados na reportagem do Estado de Minas. Dos 12 parlamentares ligados à Universal que disputaram a reeleição, todos filiados ao Republicanos, seis não conseguiram permanecer no cargo. O desempenho eleitoral foi apontado como um dos elementos do cenário político enfrentado pela instituição, embora não permita, isoladamente, concluir quais foram as razões individuais de cada resultado.
Resultado eleitoral também atingiu representantes evangélicos
A repercussão da fala de Macedo também ocorre após derrotas de políticos evangélicos em disputas legislativas, especialmente no Rio de Janeiro. Na eleição para o Senado, Marcelo Crivella, do Republicanos, e Benedita da Silva, do PT, não conseguiram as vagas, que ficaram com Carlos Jordy e Carlos Portinho, ambos do PL. O resultado foi destacado porque o estado tradicionalmente elegia um senador identificado com o segmento evangélico quando duas cadeiras estavam em disputa.
Em São Paulo, Marcos Pereira, presidente nacional do Republicanos, e Maria Rosas conseguiram se reeleger, mas receberam menos votos do que em 2022, conforme os números mencionados na reportagem. Milton Vieira e Vinicius Carvalho, por outro lado, não conquistaram novos mandatos, compondo o grupo de parlamentares ligados à Universal que deixaram a Câmara. Esses resultados ajudam a dimensionar as dificuldades enfrentadas por candidaturas apoiadas pela estrutura religiosa, sem significar que todos os eleitores evangélicos tenham adotado a mesma orientação política.
A reportagem também registra avaliações de analistas segundo as quais candidatos evangélicos apoiados diretamente por igrejas vêm perdendo espaço para políticos que mantêm identidade religiosa, mas disputam eleições sem a chancela de pastores ou bispos. Esse diagnóstico foi apresentado como uma interpretação do cenário eleitoral, e não como uma explicação definitiva para o comportamento de todo o eleitorado religioso. Nesse contexto, a crítica de Edir Macedo ao lema associado aos Bolsonaro acrescenta um novo elemento ao debate público sobre a relação entre lideranças religiosas, partidos e política brasileira.





