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Empresa começou a trocar criptomoedas para quem divulgar conteúdo de um candidato à Presidência

Um site de venda de criptomoedas lançou uma iniciativa que distribui tokens para usuários que compartilharem conteúdos relacionados ao B22 e que incentivam o voto em Flávio Bolsonaro (PL). A ação, lançada na terça-feira (6), passou a ser divulgada nas redes sociais em meio à campanha para o segundo turno da eleição presidencial. O caso chamou atenção porque a distribuição de ativos digitais foi associada à publicação e ao compartilhamento de material com conteúdo eleitoral.

A iniciativa utiliza a mensagem B22 e vídeos que fazem referência direta ao número de Flávio Bolsonaro na disputa presidencial. Um dos materiais divulgados nas redes sociais mostra crianças africanas usando camisetas amarelas com a identificação B22 token e cantando uma mensagem de apoio ao candidato. Segundo a reportagem da Folha de S.Paulo, o vídeo já havia alcançado 1,2 milhão de visualizações.

O site afirma que parte dos recursos obtidos com a venda da criptomoeda B22 será destinada a projetos sociais voltados para crianças em Uganda, na África. A divulgação também ocorre por meio do perfil hyperskidsafrica, que possui 12,9 milhões de seguidores no Instagram e está relacionado à arrecadação de recursos para construção de casas para crianças no país africano. Dessa forma, uma iniciativa apresentada como financeira e humanitária passou a ser vinculada também a mensagens de apoio eleitoral.

Criptomoedas são vinculadas à divulgação eleitoral

De acordo com a reportagem, os usuários podem receber tokens ao compartilhar o projeto nas redes sociais e publicar conteúdos mostrando que participam da comunidade B22. O modelo cria um incentivo financeiro para que os participantes ampliem a circulação da iniciativa, já que os ativos distribuídos poderiam gerar benefícios caso houvesse valorização da criptomoeda. Assim, a divulgação do projeto acaba sendo relacionada à possibilidade de retorno financeiro para quem participar da campanha de compartilhamento.

O conteúdo divulgado, entretanto, não se limita à apresentação da criptomoeda ou aos projetos sociais anunciados pelo site. Nos vídeos e nas publicações mencionados pela Folha, aparecem pedidos de voto em Flávio Bolsonaro e referências a outros nomes ligados ao campo político do candidato, como Nikolas Ferreira e Pablo Marçal. Uma das peças também utiliza o número 22, que identifica a candidatura de Flávio Bolsonaro na eleição presidencial.

A situação foi analisada por especialistas em direito eleitoral ouvidos pela reportagem, que apontaram possíveis problemas jurídicos na forma como a iniciativa foi estruturada. Segundo esses especialistas, o oferecimento de incentivos financeiros para a divulgação de conteúdos de campanha pode apresentar características semelhantes às estratégias de campeonatos de cortes de vídeos associadas anteriormente a Pablo Marçal. A avaliação apresentada é de que o uso de uma estrutura empresarial para estimular a propaganda eleitoral pode levantar questionamentos sobre eventual doação de pessoa jurídica e propaganda irregular.

Empresa nega vínculo oficial com campanha

Apesar das referências eleitorais presentes nos materiais, o próprio site faz uma ressalva sobre a relação com a política. A plataforma afirma que a distribuição dos tokens é independente de voto, preferência eleitoral ou divulgação de propaganda eleitoral e declara que o projeto não é oficial, não é endossado e não possui vínculo com político, partido, candidatura ou campanha. Também é informado que a iniciativa não seria uma forma de doação eleitoral.

A reportagem também identificou publicações de perfis associados a Kevim Flores no X e no Instagram divulgando atualizações sobre o lançamento do site e conteúdos relacionados à criptomoeda B22. Nessas publicações, aparecem referências ao apoio a Flávio Bolsonaro, imagens de urnas com o número 22 e comentários sobre uma possível valorização do ativo até o segundo turno. Flores, segundo a Folha, não se identifica claramente como proprietário do site, e foi procurado pela reportagem para prestar esclarecimentos.

Outro aspecto destacado no caso é a dificuldade de identificar publicamente os responsáveis pela plataforma. O registro do site aparece protegido por sigilo, enquanto a reportagem informou ter encaminhado mensagem para o endereço de email disponibilizado pela própria página. A campanha de Flávio Bolsonaro também foi procurada pela Folha e, até a publicação da reportagem, não havia apresentado uma manifestação sobre o funcionamento da iniciativa.

Caso levanta questionamentos sobre propaganda eleitoral

O episódio reúne elementos diferentes em uma mesma estratégia, envolvendo criptomoedas, divulgação em redes sociais, promessa de apoio a projetos sociais e mensagens relacionadas à eleição presidencial. Para especialistas ouvidos pela Folha, justamente essa combinação aumenta os questionamentos sobre a finalidade e o enquadramento jurídico da operação. A pesquisadora Nina Santos, citada na reportagem, classificou a estrutura como uma operação complexa por associar ativos digitais, ação humanitária, redes sociais e campanha eleitoral.

A discussão ocorre durante uma disputa presidencial que entrou na fase decisiva após o primeiro turno, quando Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva avançaram para a segunda votação. Nesse contexto, o uso de mecanismos digitais para ampliar conteúdos políticos passou a ter relevância adicional, principalmente quando são oferecidos incentivos para estimular o compartilhamento. O caso do B22, conforme relatado pela Folha, deverá ser observado justamente pela combinação entre benefício financeiro, divulgação digital e pedido explícito de voto.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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