Durante o debate na Band, Lula foi duro com Flávio Bolsonaro e aliados acreditam que ele deixou o Brasil por causa disso

Aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL) passaram a utilizar uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), feita durante o debate presidencial da Band, para justificar a saída do parlamentar do Brasil após a derrota nas urnas. Segundo informações publicadas pela CNN Brasil, integrantes do grupo bolsonarista interpretaram a fala de Lula sobre a perda da imunidade parlamentar como um sinal de que Flávio poderia enfrentar problemas judiciais ao deixar o mandato. O senador teria afirmado a pessoas próximas que temia ser preso, argumento que passou a fazer parte das justificativas apresentadas por seus aliados para explicar a viagem aos Estados Unidos.
A declaração de Lula ocorreu durante o segundo turno da eleição presidencial, quando o presidente afirmou que Flávio perderia a imunidade parlamentar e que investigações relacionadas ao senador poderiam avançar. A fala foi resgatada por aliados depois que surgiram informações de que o parlamentar havia deixado o território brasileiro e seguido para os Estados Unidos. O episódio provocou uma disputa de versões sobre os motivos da viagem, com integrantes do grupo de Flávio associando o deslocamento ao temor de perseguição política, enquanto o caso também envolve uma ordem judicial para a entrega de passaportes.
A saída do senador aconteceu após uma reunião realizada na tarde de segunda-feira, 26 de outubro, com integrantes de sua campanha e aliados políticos, em Brasília. De acordo com a apuração da CNN Brasil, parte do grupo aconselhou Flávio a permanecer no país e a evitar medidas que pudessem ampliar a crise após o resultado eleitoral. Apesar das recomendações, o parlamentar acabou deixando o Brasil, segundo aliados e informações divulgadas por veículos de comunicação, enquanto autoridades buscavam esclarecer seu trajeto e as circunstâncias da viagem.
Fala de Lula passou a ser usada como justificativa
Durante o debate da Band, Lula afirmou que Flávio enfrentaria consequências ao perder a imunidade parlamentar e que investigações envolvendo o senador poderiam avançar. A declaração ocorreu em meio aos ataques trocados pelos dois candidatos durante a campanha presidencial e foi retomada por aliados de Flávio depois da derrota eleitoral. Para esses interlocutores, a fala demonstraria que o presidente pretendia associar a saída do parlamentar do Senado ao avanço de apurações policiais e judiciais.
Segundo relatos obtidos pela CNN Brasil, aliados passaram a sustentar que Flávio poderia ser alvo de medidas policiais após perder a proteção relacionada ao exercício do mandato. O senador deverá ficar sem cargo eletivo a partir de fevereiro de 2027, encerrando um período de 24 anos com mandato parlamentar. A mudança foi apontada por pessoas próximas como um fator de preocupação, embora a perda da imunidade parlamentar não signifique automaticamente prisão ou condenação, nem impeça a aplicação das regras legais e processuais pertinentes a cada investigação.
A interpretação dos aliados, portanto, representa uma justificativa política para a decisão de deixar o Brasil, e não uma comprovação de que havia uma ordem de prisão contra Flávio. A fala de Lula ocorreu em um debate eleitoral e não substitui decisões judiciais, que precisam seguir os procedimentos legais aplicáveis. O presidente não tem poder para determinar sozinho a prisão do senador, e eventuais medidas dessa natureza dependem das autoridades competentes e dos fundamentos previstos em lei.
Aliados haviam aconselhado Flávio a permanecer no Brasil
A reportagem da CNN Brasil também revelou que integrantes mais moderados da campanha aconselharam Flávio a não deixar o país. A orientação teria sido apresentada durante uma reunião realizada na tarde de segunda-feira, no escritório de um dos advogados do senador, localizado no Lago Sul, em Brasília. Segundo a apuração, aquele encontro marcou a última conversa de parte desses aliados com o parlamentar antes de sua saída.
O grupo avaliava que uma eventual prisão de Flávio logo após a derrota eleitoral poderia produzir repercussões políticas negativas para Lula no exterior. Por esse motivo, os aliados consideravam que não havia necessidade de deixar o Brasil naquele momento e defendiam uma estratégia concentrada na atuação jurídica e na organização da oposição. Também recomendaram que o senador evitasse contestar a validade de toda a eleição e priorizasse ações na Justiça Eleitoral contra supostos abusos de poder durante a campanha petista.
Na mesma reunião, Flávio teria demonstrado irritação com a determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para que entregasse seus passaportes à Polícia Federal. Os aliados o orientaram a gravar um vídeo para apresentar publicamente sua versão dos acontecimentos, o que ocorreu na segunda-feira. Na gravação, o senador afirmou que havia sido intimado a entregar os documentos e que estava proibido de deixar o país, além de anunciar que se dedicaria à organização da oposição política.
Investigações da Polícia Federal estão no centro do caso
Flávio Bolsonaro é alvo de dois inquéritos da Polícia Federal mencionados na reportagem. Um deles apura o financiamento do filme Dark Horse, produção sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, com recursos atribuídos ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Os investigadores procuram esclarecer o destino do dinheiro e verificar se parte dos valores teria sido utilizada para custear despesas de Eduardo Bolsonaro, irmão do senador, nos Estados Unidos.
A segunda investigação envolve suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas a Flávio e ao advogado Willer Tomaz, amigo do parlamentar, por meio de empresas de apostas e plataformas de pagamento. Entre os pontos apurados estão o acesso a uma conta empresarial ligada ao advogado e o pagamento de viagens. Flávio nega irregularidades, e as suspeitas investigadas não equivalem a uma condenação; a apuração precisa estabelecer os fatos e eventuais responsabilidades individuais.
A determinação para a entrega dos passaportes e a possível saída do Brasil ampliaram a repercussão política das investigações. Aliados do senador utilizam a declaração de Lula para sustentar que ele poderia enfrentar perseguição após perder o mandato, enquanto a existência de inquéritos não significa, por si só, que uma prisão esteja determinada. O caso segue marcado pela necessidade de esclarecer as circunstâncias da viagem, o cumprimento da ordem judicial e o andamento das apurações policiais, sem confundir as alegações políticas com decisões definitivas das autoridades.





