Enquanto Mendonça ganha força nas redes bolsonaristas, Alexandre de Moraes passa a ser cada vez mais criticado

A crise no STF reativou uma série de narrativas religiosas em redes sociais evangélicas alinhadas ao bolsonarismo durante a primeira quinzena de setembro de 2026. O movimento foi identificado em um relatório produzido pela Casa Galileia em parceria com o Instituto Democracia em Xeque, que analisou publicações realizadas entre 31 de agosto e 13 de setembro. Segundo o levantamento, o conflito envolvendo os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes no caso Master passou a ser interpretado por parte desse ecossistema digital por meio de referências a profecias, orações e uma chamada “guerra espiritual”.
O estudo monitorou 573 perfis em Instagram, YouTube, X, TikTok e Facebook, reunindo 26.762 publicações e aproximadamente 189 milhões de interações no período analisado. Entre os 20 perfis com maior influência sobre o tema, aqueles identificados com a direita e o bolsonarismo somaram 63,2 milhões de interações, enquanto os perfis associados à esquerda chegaram a 7,1 milhões. Dessa forma, o relatório aponta que as redes ligadas ao bolsonarismo registraram um nível de engajamento cerca de nove vezes superior ao observado entre os perfis evangélicos de esquerda.
Nesse contexto, André Mendonça passou a ocupar uma posição central nas narrativas religiosas identificadas pelo levantamento. O ministro foi apresentado em diferentes publicações como alguém escolhido por Deus ou como uma resposta a orações feitas anteriormente por integrantes de comunidades evangélicas. Ao mesmo tempo, Alexandre de Moraes passou a ser associado, nesses conteúdos, ao campo considerado adversário dentro dessa interpretação religiosa da disputa institucional.
Crise no STF ganha interpretação religiosa nas redes
A mudança observada pelos pesquisadores ocorreu em meio à discussão no Supremo relacionada ao caso Master, que colocou Mendonça e Moraes no centro do debate público. Segundo o relatório, a disputa institucional passou a ser reorganizada em uma linguagem que combinava referências bíblicas, profecias, orações e a ideia de uma intervenção divina nos acontecimentos políticos. Assim, uma questão envolvendo o funcionamento do STF também passou a receber interpretações religiosas entre determinados grupos digitais.
Uma das narrativas recuperadas pelo monitoramento envolve uma antiga profecia atribuída à pastora Valnice Milhomens, na qual Mendonça teria sido apresentado como alguém por meio de quem Deus atuaria. Com o agravamento da crise no Supremo, essa mensagem voltou a circular e passou a ser relacionada aos acontecimentos envolvendo o ministro. Além disso, o levantamento registrou mobilizações de oração realizadas por lideranças religiosas em apoio a Mendonça, reforçando a presença do componente religioso no debate.
Michelle Bolsonaro também apareceu nesse contexto ao recordar a indicação de Mendonça ao STF e relacioná-la a uma experiência religiosa que, segundo seu próprio relato, teria ocorrido anteriormente. Outros líderes religiosos recorreram a personagens e passagens bíblicas para interpretar a atuação do ministro e os acontecimentos no Supremo. Por outro lado, conteúdos direcionados a Moraes utilizaram referências religiosas para apresentá-lo como adversário moral ou espiritual, incluindo representações visuais e comparações com personagens bíblicos.
Disputa religiosa também se aproxima da eleição
O relatório aponta que a reativação dessas narrativas ocorreu simultaneamente ao aumento de manifestações eleitorais entre lideranças evangélicas. Nesse período, declarações de apoio a Flávio Bolsonaro passaram a aparecer com maior frequência, enquanto também foi identificada uma intensificação de mensagens contrárias ao voto em Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo os pesquisadores, a crise institucional contribuiu para aproximar o discurso religioso de uma mobilização eleitoral que anteriormente aparecia de maneira mais discreta.
Entre os exemplos registrados estão manifestações públicas do apóstolo Estevam Hernandes em favor de Flávio Bolsonaro, além de participações do candidato em ambientes ligados a lideranças religiosas. O pastor Cláudio Duarte também passou a abordar diretamente a questão do voto em conteúdos que alcançaram grande número de pessoas nas redes. Já Valnice Milhomens relacionou escolhas eleitorais a questões morais e à identidade cristã em uma de suas pregações, segundo o levantamento.
Os números de interação ajudam a dimensionar a circulação dessas mensagens durante o período monitorado. Nikolas Ferreira apareceu como o perfil político de identidade evangélica com maior número de interações, seguido por Flávio Bolsonaro e Magno Malta, enquanto André Janones foi apontado como o principal nome identificado com a esquerda entre os perfis analisados. Portanto, o relatório descreve um ambiente digital no qual a discussão sobre religião, instituições e eleição passou a ocorrer de forma cada vez mais integrada.
“Modo Nepal” volta a aparecer no debate digital
Além da chamada guerra espiritual, outro elemento identificado foi a retomada da expressão “Modo Nepal” em determinados perfis evangélicos ligados à direita radical. O termo faz referência aos protestos ocorridos no Nepal em 2025, que resultaram na queda do governo do país, e passou a ser utilizado no contexto brasileiro como referência para manifestações contra instituições. Segundo o relatório, imagens e mensagens relacionadas ao episódio foram recuperadas em publicações que tinham o STF como um dos principais alvos.
O Instituto Democracia em Xeque informou que a expressão já havia sido identificada anteriormente em conteúdos de radicalização digital no Brasil e relacionada a investigações conduzidas em 2025. Na análise mais recente, porém, o próprio relatório ressalta que a seção dedicada ao “Modo Nepal” possui caráter de acompanhamento de temas relevantes e não necessariamente segue todos os critérios metodológicos utilizados no restante do monitoramento. Dessa maneira, o levantamento registra a circulação dessa narrativa sem afirmar que todos os perfis analisados defendam as mesmas formas de mobilização.
Ao mesmo tempo, a disputa pelo significado político da fé também foi observada entre lideranças evangélicas associadas à esquerda. Nomes como Henrique Vieira, Aava Santiago, Benedita da Silva e Marina Silva apareceram em conteúdos que relacionaram cristianismo a democracia, justiça social e proteção de grupos vulneráveis, enquanto críticas foram direcionadas ao uso eleitoral de símbolos religiosos. O relatório, portanto, descreve uma disputa mais ampla pela interpretação política da fé evangélica nas redes sociais durante um período de intensificação da campanha eleitoral.
No conjunto, o monitoramento realizado pela Casa Galileia e pelo Instituto Democracia em Xeque identificou uma aproximação maior entre a crise no STF, discursos religiosos e mobilização eleitoral. A análise indica que a disputa envolvendo Mendonça e Moraes passou a ser utilizada, em determinados segmentos digitais, para construir narrativas sobre providência divina, oração e confronto espiritual, ao mesmo tempo em que novos apoios eleitorais foram articulados. Assim, o período analisado mostra como acontecimentos institucionais podem ser reinterpretados nas redes a partir de diferentes visões religiosas e políticas.
Diante desse cenário, a eleição de 2026 passa a ser acompanhada também pela maneira como diferentes grupos evangélicos utilizam as plataformas digitais para apresentar suas interpretações sobre política e religião. O levantamento mostra que, durante a quinzena analisada, conteúdos diretamente relacionados à eleição ganharam espaço dentro de comunidades que anteriormente mantinham manifestações eleitorais mais discretas. A tendência registrada pelos pesquisadores é de maior sobreposição entre o debate institucional, as mensagens religiosas e a disputa eleitoral nas redes sociais.





