Levantamento recente mostrou que Lula tem garantido um crescimento enorme nas redes sociais

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) intensificou a publicação de vídeos no formato selfie depois do primeiro turno das eleições de 2026 e registrou crescimento de 22% na média de interações por publicação. Segundo levantamento da empresa Bites, divulgado pelo Poder360, o petista acumulou 29,2 milhões de interações entre 5 e 9 de outubro, considerando 167 publicações no Facebook, Instagram, TikTok e X. O resultado mostra que a mudança na comunicação digital produziu efeitos imediatos, embora os números também revelem dificuldades para transformar maior visibilidade em uma percepção mais favorável nas redes sociais.
A nova estratégia foi adotada depois de reuniões realizadas por Lula com integrantes da campanha e aliados políticos, quando o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), sugeriu que o presidente gravasse mais vídeos de maneira espontânea, segurando o próprio celular. A recomendação foi colocada em prática nos dias seguintes, com publicações em que Lula aparece falando diretamente com o público, sozinho ou acompanhado de aliados. A mudança também veio acompanhada de um discurso mais incisivo contra o adversário Flávio Bolsonaro (PL), que terminou o primeiro turno à frente do petista na votação nacional.
O levantamento da Bites contabilizou uma média de 175 mil interações por publicação no período analisado, contra aproximadamente 36 mil por postagem na média registrada desde o início da campanha até o primeiro turno. Além disso, Lula ganhou cerca de 1,05 milhão de seguidores em cinco dias, número equivalente a aproximadamente 74% do total de novos seguidores acumulados entre 16 de agosto e o primeiro turno. Os dados indicam uma aceleração expressiva da atividade digital do presidente, mas não permitem concluir, isoladamente, que o crescimento das interações tenha provocado mudança nas intenções de voto.
A estratégia das selfies muda a comunicação da campanha
A orientação para que Lula apareça mais vezes em vídeos curtos representa uma tentativa de aproximar o presidente dos usuários das plataformas digitais. Em vez de depender exclusivamente de gravações produzidas com estrutura profissional, a campanha passou a apostar em mensagens diretas, com aparência mais informal e linguagem voltada à comunicação cotidiana. Esse formato pode favorecer a identificação do público com o político, mas seu resultado depende também do conteúdo apresentado, da distribuição algorítmica e da disposição dos usuários para compartilhar ou comentar as publicações.
A cientista política Tathiana Chicarino, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, explicou que a personalização tem importância no funcionamento das redes sociais, nas quais perfis individuais podem concentrar a atenção dos usuários. Na avaliação da pesquisadora, falar diretamente para a câmera pode funcionar como um ajuste instrumental durante uma campanha eleitoral, especialmente quando há necessidade de alcançar públicos que consomem informação por diferentes plataformas. Ela também alertou que a comunicação corre o risco de parecer artificial quando a mensagem divulgada não corresponde à trajetória ou à maneira habitual de se expressar do político.
A mudança de formato ocorreu em um momento de pressão sobre a campanha petista, depois de Lula ter recebido 45,16% dos votos válidos no primeiro turno, contra 47,03% de Flávio Bolsonaro. O resultado levou os aliados do presidente a buscar formas de ampliar sua presença digital e tornar mais claras as diferenças entre os projetos apresentados pelos dois candidatos. Nesse cenário, o aumento do engajamento representa um indicador de alcance, mas a capacidade de converter esse resultado em apoio eleitoral permanece uma questão separada.
Mais visibilidade não significa menos críticas
Um dos dados mais relevantes do levantamento é que o crescimento das interações não foi acompanhado por uma melhora expressiva na proporção entre menções negativas e positivas sobre Lula. A Bites contabilizou 13,3 milhões de menções em português a respeito do presidente em contas públicas de redes sociais, sites de notícias, blogs e outras plataformas desde o fim da tarde de 4 de outubro. Desse total, 46% foram classificadas como negativas, enquanto 22,8% receberam classificação positiva, proporções semelhantes às observadas nos cinco dias anteriores ao primeiro turno.
A diferença entre alcance e avaliação pública é importante para compreender os limites da estratégia adotada pela campanha. Uma publicação pode gerar milhares de comentários e compartilhamentos tanto por receber elogios quanto por provocar críticas, questionamentos ou mobilização de adversários políticos. Por isso, o crescimento das interações não deve ser interpretado automaticamente como aumento de popularidade, assim como o volume de menções negativas não significa, por si só, que todos os usuários envolvidos pretendam votar contra o presidente.
A equipe de Lula também passou a utilizar as redes para contestar propostas atribuídas ao adversário e defender políticas públicas associadas ao atual governo. Em vídeos publicados depois do primeiro turno, o presidente fez afirmações sobre possíveis cortes em áreas como saúde, educação e Previdência em um eventual governo de Flávio Bolsonaro, além de abordar programas sociais. Essas declarações fazem parte da disputa eleitoral e devem ser compreendidas como argumentos de campanha, cuja validade depende da análise das propostas e das informações apresentadas pelos candidatos.
A disputa digital continua sendo um desafio para Lula
A dificuldade do PT nas plataformas digitais não começou depois do primeiro turno, segundo os dados citados na reportagem. Levantamentos anteriores da Bites apontaram que Flávio Bolsonaro registrou níveis de interação superiores aos de Lula em diferentes períodos, enquanto perfis ligados à direita bolsonarista reuniram audiências expressivas nas redes. A pesquisadora Tathiana Chicarino também destacou que grupos políticos que atuam de maneira contínua no ambiente digital acumulam seguidores e capacidade de mobilização ao longo do tempo, o que não pode ser reproduzido apenas com uma mudança pontual de formato.
Outro fator envolve o funcionamento das próprias plataformas, cujos algoritmos influenciam a distribuição das publicações e não são totalmente transparentes para o público. A campanha de Lula apresentou questionamentos à Justiça Eleitoral sobre o alcance de conteúdos favoráveis ao presidente, incluindo uma solicitação de providências relacionada à Meta, empresa responsável pelo Instagram e pelo Facebook. As alegações sobre possíveis restrições precisam ser diferenciadas de fatos comprovados, já que o alcance de uma publicação pode variar por diferentes motivos e exige apuração para determinar suas causas.
O avanço de 22% na média de interações mostra que a recomendação de investir em vídeos selfie trouxe resultados mensuráveis para a comunicação digital de Lula nos primeiros dias depois do primeiro turno. Entretanto, a permanência de uma proporção maior de menções negativas do que positivas indica que ampliar a exposição não resolve, por si só, os problemas de imagem enfrentados pela campanha. A disputa até o segundo turno, marcado para 25 de outubro, deverá mostrar se a nova estratégia conseguirá ir além do aumento de alcance e influenciar a maneira como os eleitores recebem e avaliam as mensagens do presidente.





