PF põe em xeque versão de Flávio Bolsonaro sobre fundo nos EUA e ‘Dark Horse’

A queda do sigilo de documentos da investigação ligada ao Caso Banco Master trouxe a público detalhes sobre a rede de movimentação de recursos montada para o financiamento de Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. As informações divulgadas colocam em análise a versão apresentada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) sobre a operação realizada nos Estados Unidos. O relatório da Polícia Federal detalha a trajetória de um fundo financeiro que permaneceu inativo por anos e foi reativado justamente quando começaram os repasses destinados à produção cinematográfica.
O fundo em questão é o Havengate Development Fund LP, criado em 2020 nos Estados Unidos com finalidade ligada a empreendimentos imobiliários no Texas. Segundo os investigadores, o projeto não avançou e a estrutura permaneceu sem operação relevante por quase quatro anos. Entre fevereiro e setembro de 2025, período em que o filme recebia aportes, o fundo passou a receber US$ 12,3 milhões em transferências relacionadas ao projeto. A primeira remessa, de US$ 2 milhões, foi enviada pela empresa Entre Investimentos. Para a PF, a mudança de propósito de um veículo dormente por anos é uma das circunstâncias que justificam o aprofundamento das apurações.
Os documentos tornados públicos também mostram a participação direta do ex-deputado Eduardo Bolsonaro na orientação sobre como os recursos deveriam circular no exterior. Em mensagem dirigida ao publicitário Thiago Miranda, apontado como elo entre ele e o banqueiro Daniel Vorcaro, Eduardo destacou a conveniência de manter os valores já em território norte-americano. “Recursos dos EUA para os EUA é mais simples. Se a empresa brasileira a enviar não tiver o porte adequado, será problemático”, escreveu. O ex-deputado indicou ainda Altieris Santana para acompanhar a gestão dos valores. A Procuradoria-Geral da República avalia que essa preocupação com o trajeto dos recursos é elemento relevante para a investigação.
O relatório aponta ainda discrepância entre os valores envolvidos e os custos habituais de produções cinematográficas de porte semelhante no Brasil. O acordo firmado com Vorcaro previa aporte total de R$ 134 milhões, dos quais R$ 61 milhões teriam sido efetivamente pagos. Mensagens apreendidas indicam que Flávio Bolsonaro acompanhava diretamente os pagamentos e cobrava o cumprimento dos repasses. Em 16 de setembro de 2025, data em que foi identificada uma remessa de US$ 1,6 milhão, houve contato registrado entre o senador e o banqueiro. A investigação busca verificar se os aportes se inseriam em relação comercial regular ou se estavam vinculados ao exercício de cargo público. Flávio Bolsonaro nega qualquer irregularidade e afirma que os recursos se destinavam exclusivamente à produção do filme.
A divulgação do material ocorreu após embate institucional no Supremo Tribunal Federal sobre o que deveria ser tornado público. O ministro André Mendonça inicialmente liberou parte dos documentos, mas manteve outros sob sigilo. Alexandre de Moraes classificou a medida como liberação seletiva e informou que cerca de 180 arquivos permaneceram fora do material disponibilizado. O ministro Cristiano Zanin também defendeu acesso integral aos autos. Após pressão, novos documentos foram liberados na noite de 11 de setembro, incluindo os referentes ao financiamento do filme. Moraes criticou a condução do processo, afirmando que o colega teria escolhido subjetivamente o que tornar público.
Com a abertura dos documentos, o foco da investigação se ampliou para compreender não apenas os valores, mas toda a estrutura montada no exterior para recebê-los. O caso demonstra como desdobramentos internos se entrelaçam com operações internacionais e como a transparência na divulgação de informações influencia a confiança da sociedade. O país acompanha os próximos passos na expectativa de que a verdade seja estabelecida com clareza, baseada em provas e em respeito à legislação, garantindo que as decisões reflitam o compromisso com a lisura dos processos eleitorais e institucionais.





