Polícia Federal revelou que Robson Calixto, condenado pelo assassinato de Marielle Franco, fez referência a Flávio Bolsonaro

Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Robson Calixto da Fonseca, conhecido como “Peixe”, mostram que ele se referiu a Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como “nosso senador” durante tratativas envolvendo uma emenda parlamentar. Calixto foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a nove anos de prisão por sua participação no grupo relacionado ao assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Os diálogos fazem parte de uma investigação sobre a destinação de aproximadamente R$ 200 mil para um projeto esportivo ligado ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (IFOP), no Rio de Janeiro.
A conversa ocorreu em outubro de 2023, quando Calixto procurou Maria de Fátima Bezerra Castro, então secretária parlamentar no gabinete de Flávio no Senado. Em uma das mensagens, ele pediu que a assessora verificasse com “nosso senador” se seria possível obter ajuda para o projeto. Segundo a PF, Maria de Fátima era uma interlocutora direta entre Calixto e o gabinete do parlamentar e orientou que o pedido fosse formalizado por e-mail ou ofício.
A emenda destinada posteriormente ao instituto teve valor exato de R$ 199.999,79 e foi encaminhada por meio do Ministério do Esporte. A Polícia Federal investiga se parte dos recursos foi desviada e se houve benefício para estruturas relacionadas aos irmãos Chiquinho e Domingos Brazão, condenados como mandantes do assassinato de Marielle e Anderson. Flávio Bolsonaro afirma que a destinação ocorreu dentro da legislação e dos critérios técnicos estabelecidos pelo Ministério do Esporte, enquanto a responsabilidade pela execução, segundo sua manifestação, seria da entidade beneficiária.
Mensagens mostram pedido de recursos
Depois de receber o pedido de Calixto, a assessora perguntou quando ele estaria em Brasília e continuou tratando sobre a possibilidade de obtenção dos recursos. Em outro momento, ela perguntou se ele ainda mantinha contato com Chiquinho Brazão, então deputado federal, e sugeriu que os dois comparecessem a um evento em que o pedido poderia ser reforçado pessoalmente com Flávio. A PF considerou que a cerimônia poderia servir como uma oportunidade para tratar diretamente da solicitação de recursos com o senador.
Maria de Fátima também encaminhou a Calixto um convite para uma cerimônia de entrega de coletes balísticos à Polícia Militar do Rio de Janeiro. Na mensagem, a assessora orientou que Chiquinho Brazão fosse levado ao evento, acrescentando que o parlamentar poderia reforçar o pedido relacionado ao instituto. A sequência de conversas foi identificada pela PF a partir do material apreendido durante as investigações envolvendo Calixto.
Em 6 de novembro de 2023, Calixto voltou a cobrar uma resposta sobre a liberação dos recursos destinados ao IFOP. Ele pediu que a assessora não esquecesse do instituto e perguntou se o senador conseguiria atender à solicitação, recebendo como resposta que poderia deixar o assunto com ela. Dias depois, ainda em novembro, a emenda de R$ 199.999,79 foi destinada ao projeto esportivo denominado “Jogadores do Futuro”, voltado a crianças da região de Taquara, em Jacarepaguá.
PF e TCU investigam aplicação da verba
A investigação não se limita às conversas entre Calixto e a assessora parlamentar, pois também envolve a forma como o dinheiro público foi utilizado depois do repasse. Um relatório elaborado pelo Tribunal de Contas da União em 2025 identificou indícios de irregularidades na aplicação dos recursos destinados ao projeto. A Polícia Federal também apura se houve desvio da verba e se integrantes de estruturas ligadas aos irmãos Brazão foram beneficiados.
O IFOP, por sua vez, afirmou que determinadas despesas questionadas estavam previstas nas regras aplicáveis às organizações da sociedade civil e indicou que contestaria as conclusões apresentadas pelo TCU. A entidade também foi citada nas investigações por sua localização em uma área considerada de influência política dos irmãos Brazão. A apuração ainda precisa esclarecer a destinação final dos recursos e eventual responsabilidade de pessoas envolvidas na execução do projeto.
A expressão “nosso senador” aparece mais de uma vez nas mensagens atribuídas a Calixto, segundo a revista piauí, que revelou inicialmente os diálogos. O material também registra pedidos relacionados a outros recursos e demonstra que o condenado mantinha contato direto com a assessora lotada no gabinete de Flávio. As mensagens, contudo, não demonstram por si mesmas que Flávio Bolsonaro tivesse conhecimento da relação de Calixto com o grupo investigado ou que tivesse cometido alguma irregularidade, ponto destacado por reportagens sobre o caso.
Flávio afirma que emenda seguiu critérios técnicos
A defesa e a assessoria de Flávio Bolsonaro afirmaram que a destinação da emenda ocorreu dentro das regras vigentes e dos critérios técnicos adotados pelo Ministério do Esporte. O candidato também declarou que a entidade responsável apresentou documentos fiscais relativos aos materiais adquiridos e devolveu os valores que não foram utilizados. Segundo sua manifestação, eventuais irregularidades na execução dos recursos devem ser apuradas pelos órgãos de controle competentes.
Robson Calixto, o “Peixe”, foi condenado pelo STF em fevereiro de 2026 a nove anos de prisão por sua participação no grupo relacionado ao assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. Ele foi apontado nas investigações como elo entre os executores do crime e os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, que também foram condenados pelo assassinato. As novas mensagens passaram a integrar uma investigação sobre possíveis desvios de emendas parlamentares destinadas a entidades relacionadas ao grupo dos irmãos.
A apuração da Polícia Federal deverá avaliar o conteúdo das mensagens, a participação dos envolvidos na negociação e a aplicação dos quase R$ 200 mil destinados ao projeto. O fato de Calixto ter chamado Flávio de “nosso senador” demonstra a forma como o condenado se referia ao parlamentar durante as tratativas, mas não estabelece, isoladamente, conhecimento ou responsabilidade criminal do candidato. O caso permanece sob investigação, enquanto Flávio Bolsonaro sustenta que a emenda foi destinada regularmente e que a execução dos recursos cabia à entidade beneficiária.





