Políticos religiosos poderão assumir o lugar de Janja nas conversas com o eleitorado evangélico

A campanha de Lula decidiu rever a estratégia utilizada para tentar ampliar o diálogo com o eleitorado evangélico no segundo turno das eleições de 2026. Segundo reportagem de Luciana Lima publicada pelo PlatôBR, do Estado de Minas, integrantes da campanha passaram a avaliar que a aproximação conduzida pela primeira-dama Janja da Silva não conseguiu produzir o efeito esperado após o resultado do primeiro turno. Com isso, políticos ligados ao segmento religioso foram escalados para assumir uma participação mais direta na tentativa de conquistar votos para o presidente.
Antes mesmo do início da campanha eleitoral, Janja havia participado de conversas com religiosos e de encontros organizados por pastores progressistas, em uma tentativa de conhecer melhor as demandas e a linguagem desse público. Posteriormente, sua atuação ganhou maior visibilidade com a participação em eventos eleitorais e com a divulgação do jingle gospel “Tapete Vermelho”, apresentado como parte da estratégia de aproximação do PT com os evangélicos. Entretanto, de acordo com a avaliação relatada pelo PlatôBR, o desempenho de Lula no primeiro turno levou a equipe a reconsiderar essa estratégia.
A mudança ocorre porque o eleitorado evangélico representa um segmento relevante na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro no segundo turno. Historicamente, o PT enfrenta maior resistência entre parcela dos eleitores religiosos, enquanto o campo bolsonarista construiu uma relação política mais próxima com importantes lideranças evangélicas. Por isso, a campanha de Lula passou a buscar uma interlocução considerada mais direta, utilizando políticos que possuem atuação no meio religioso e experiência na comunicação com esse público.
Campanha de Lula muda estratégia para buscar votos evangélicos
Entre os nomes que passaram a participar dessa nova etapa estão a senadora Eliziane Gama, do PSD do Maranhão, e o deputado federal Otoni de Paula, do PSD do Rio de Janeiro. Os dois não conseguiram se reeleger em seus respectivos estados e passaram a se dedicar à campanha de Lula, com a tarefa de ampliar o diálogo com os eleitores evangélicos. A participação deles representa uma mudança de abordagem, já que a comunicação deverá ser feita por representantes que possuem trajetória política e religiosa mais diretamente associada a esse segmento.
Otoni de Paula, que também é pastor, afirmou ao PlatôBR ter ouvido reclamações de fiéis sobre a forma como a campanha tentou se aproximar dos evangélicos. Na avaliação apresentada por ele, a presença de Janja em iniciativas ligadas ao universo gospel teria sido percebida por parte desse público como uma aproximação artificial, em vez de uma comunicação política considerada espontânea. Essa interpretação foi atribuída pelo deputado a pessoas com quem conversou, e não apresentada como uma medição geral da opinião de todos os evangélicos.
Eliziane Gama também possui experiência anterior na tentativa de aproximar Lula dos eleitores religiosos. Na eleição presidencial anterior, a senadora participou da articulação de uma carta destinada ao público evangélico, na qual foram abordados temas que provocavam preocupação entre esses eleitores. Agora, sua atuação volta a ser utilizada pela campanha justamente em um momento no qual o voto religioso passou a ser considerado estratégico para a segunda etapa da disputa.
Eleitorado evangélico vira foco da campanha de Lula
A nova estratégia deverá priorizar questões que aparecem com frequência entre as preocupações de setores conservadores do eleitorado evangélico. Entre os assuntos citados por Otoni de Paula estão aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo e políticas relacionadas às drogas, temas sobre os quais o deputado defende que Lula apresente posicionamentos mais diretos. Dessa forma, a campanha pretende substituir símbolos religiosos utilizados anteriormente por uma comunicação concentrada em propostas e compromissos políticos.
A tentativa de aproximação com os evangélicos já vinha sendo preparada antes do primeiro turno e envolveu diferentes iniciativas de comunicação. Em setembro, por exemplo, o PT lançou materiais específicos para esse público, utilizando referências bíblicas e apresentando argumentos destinados a reduzir a resistência ao presidente entre os religiosos. Além disso, uma frente formada por evangélicos progressistas declarou apoio à candidatura de Lula, enquanto a primeira-dama participou da criação de um comitê voltado ao segmento.
O resultado das urnas, entretanto, fez com que a campanha ampliasse a revisão de sua estratégia eleitoral para o segundo turno. A coordenação passou a ser ampliada e nomes como os ex-ministros Camilo Santana e Rui Costa ganharam espaço nas decisões, enquanto também foram discutidas novas formas de buscar apoio entre partidos de centro. Nesse contexto, a mudança na comunicação com os evangélicos aparece como parte de uma reformulação mais ampla da campanha petista após a primeira etapa da eleição.
Janja perde protagonismo na estratégia com evangélicos
A avaliação de integrantes da campanha, conforme relatado pelo PlatôBR, é que Janja não deverá ocupar o mesmo protagonismo na tentativa de diálogo com os evangélicos durante o segundo turno. A primeira-dama havia sido colocada no centro dessa estratégia justamente pela possibilidade de estabelecer uma comunicação diferente daquela tradicionalmente utilizada pelo PT com os religiosos. Agora, a tarefa deverá ser conduzida de maneira mais intensa por parlamentares e lideranças que possuem vínculos diretos com igrejas e comunidades evangélicas.
A mudança ocorre enquanto Lula e Flávio Bolsonaro disputam os votos dos eleitores que não definiram sua preferência no primeiro turno e daqueles que apoiaram candidatos eliminados. Dentro desse cenário, a campanha petista procura apresentar uma comunicação capaz de responder às preocupações específicas de segmentos religiosos, enquanto lideranças alinhadas a Flávio continuam mobilizadas para manter o apoio conquistado pelo candidato do PL. Assim, o eleitorado evangélico passou a receber atenção especial das duas campanhas durante a fase decisiva da eleição.
A revisão da estratégia também mostra que a campanha de Lula passou a dar maior importância à interlocução direta com grupos sociais que apresentam resistência ao PT. A participação de Eliziane Gama e Otoni de Paula deverá ser utilizada para ampliar as conversas com pastores, lideranças e eleitores, enquanto a comunicação eleitoral será reorganizada em torno de temas que já provocam debates dentro das igrejas. Dessa maneira, o segundo turno passa a ser marcado não apenas pela disputa entre dois candidatos, mas também por diferentes estratégias para alcançar segmentos específicos do eleitorado.
A campanha de Lula, portanto, entrou no segundo turno com uma estratégia diferente daquela adotada na primeira etapa para dialogar com os evangélicos. A avaliação divulgada pelo PlatôBR indica que a aproximação liderada por Janja foi considerada insuficiente internamente, levando políticos religiosos a assumir maior participação nessa frente eleitoral. Com a votação decisiva marcada para 25 de outubro, a comunicação com os evangélicos deverá continuar sendo uma das áreas de atenção das campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro nas próximas semanas.





