Por que milhões de brasileiros não se sentem representados? Trevisan aponta mudança nas eleições

Trevisan: Eleição “apática” deixa milhões de brasileiros sem representação
Trevisan: Eleição “apática” deixa milhões de brasileiros com a sensação de não estarem representados pelo sistema político, segundo análise do historiador e professor de Relações Internacionais da ESPM Leonardo Trevisan. A avaliação foi apresentada no programa WW Especial, a pouco mais de duas semanas das eleições de 2026. Para o professor, parte expressiva do eleitorado acumulou frustrações políticas, econômicas e sociais ao longo da última década e, consequentemente, demonstra menor envolvimento com a disputa eleitoral. Entretanto, essa interpretação não significa que a apatia seja um comportamento comprovado de todos os eleitores brasileiros. Trata-se de uma leitura do especialista sobre o atual ambiente político. Segundo Trevisan, enquanto assuntos tradicionalmente ligados às eleições perderam espaço, a crise vivida pelo Supremo Tribunal Federal passou a dominar parte considerável do debate público. Assim, temas envolvendo ministros da Corte, o Caso Banco Master e as divergências internas do STF acabaram disputando atenção com a própria campanha presidencial.
Trevisan: Eleição “apática” deixa milhões diante de crise de representação
Na interpretação de Trevisan, a situação atual não nasceu apenas durante a campanha de 2026. Pelo contrário, ela seria resultado de um processo mais longo, marcado pela expectativa de ascensão econômica de milhões de brasileiros e, posteriormente, por períodos de frustração. O professor citou estudos e análises do presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles, sobre a chamada classe C, um segmento amplo da população brasileira. Conforme a argumentação apresentada no WW Especial, cerca de 108 milhões de brasileiros estariam inseridos nesse universo social e econômico e desejariam encontrar maior representação nas instituições e no debate público. Trevisan relaciona parte desse processo ao período iniciado com a estabilização proporcionada pelo Plano Real e posteriormente marcado pela expansão do crédito, do consumo e de políticas de transferência de renda, como o Bolsa Família. Contudo, em sua análise, as dificuldades econômicas que se aprofundaram a partir de meados da década passada ajudaram a modificar expectativas e a aumentar a frustração de parcelas desse grupo.
Crise no STF passou a disputar espaço com as eleições
Ao explicar sua percepção de apatia eleitoral, Trevisan chamou atenção para o espaço ocupado nas últimas semanas pela crise no Supremo. As discussões envolvendo Alexandre de Moraes, André Mendonça, Daniel Vorcaro e outros personagens ligados aos desdobramentos do Caso Banco Master passaram a receber ampla cobertura. Além disso, divergências públicas entre integrantes da Corte foram expostas durante uma sessão extraordinária realizada em setembro. Segundo Trevisan, essa sucessão de episódios deslocou parte da atenção que normalmente estaria concentrada nas pesquisas, propostas e estratégias eleitorais. A avaliação encontra um dado relevante no levantamento Quaest divulgado em 14 de setembro: 56% dos entrevistados afirmaram não confiar no STF, contra 46% no levantamento de agosto. Ao mesmo tempo, 9% disseram confiar muito na instituição e 30% afirmaram confiar pouco. A pesquisa ouviu 2.004 pessoas entre 10 e 13 de setembro e possui margem de erro de dois pontos percentuais. Portanto, os números registram uma mudança recente de percepção, mas não explicam, isoladamente, suas causas.
Falta de representação é apontada como questão central por Trevisan
Para o professor, entretanto, o problema mais profundo seria a dificuldade encontrada por parte da população para se identificar com partidos, instituições e representantes políticos. Nesse sentido, Trevisan: Eleição “apática” deixa milhões resume uma interpretação segundo a qual o afastamento não ocorreria simplesmente por falta de interesse em política, mas também por uma percepção de que o sistema oferece poucas respostas às expectativas sociais. Durante o programa, Trevisan fez críticas contundentes ao funcionamento das instituições e empregou o conceito de patrimonialismo para descrever comportamentos que, em sua avaliação, misturam interesses públicos e privados. Essas declarações representam a opinião do historiador e não devem ser confundidas com constatações judiciais sobre pessoas específicas. Ainda assim, sua análise levanta uma questão mais ampla: quando parcelas numerosas da sociedade deixam de enxergar representantes capazes de expressar seus interesses, a disputa eleitoral pode permanecer competitiva nas urnas e, simultaneamente, ser percebida por alguns grupos como distante de suas preocupações cotidianas.
Transformação digital também alterou relação entre sociedade e política
Ao mesmo tempo, Trevisan relacionou essas mudanças à rápida digitalização da sociedade brasileira. Dados oficiais do IBGE mostram a dimensão dessa transformação: em 2025, a internet estava presente em 95% dos domicílios particulares permanentes do país, equivalentes a aproximadamente 76 milhões de residências. Além disso, a expansão foi particularmente relevante nas áreas rurais ao longo dos últimos anos, reduzindo parte da diferença em relação às áreas urbanas. Consequentemente, redes sociais, plataformas digitais e serviços de vídeo passaram a ocupar um espaço muito maior na circulação de informações e na formação do debate público. Para Trevisan, entretanto, instituições políticas e sociais ainda procuram compreender plenamente os efeitos dessa transformação. Dessa forma, a maneira pela qual candidatos, partidos, eleitores, jornalistas e instituições públicas se comunicam foi profundamente modificada. A campanha eleitoral deixou de depender apenas de televisão, rádio, comícios e propaganda tradicional e passou a disputar atenção em um ambiente digital extremamente fragmentado, no qual política compete continuamente com entretenimento e inúmeros outros conteúdos.
Comparação com outras décadas é interpretação histórica do professor
Trevisan também comparou características do momento atual com elementos observados na década de 1930, período marcado internacionalmente por crises econômicas, transformações políticas e fortalecimento de movimentos autoritários em diferentes países. A comparação, porém, deve ser compreendida como uma analogia histórica proposta pelo professor, e não como afirmação de que os dois períodos sejam equivalentes. Contextos econômicos, tecnológicos, institucionais e sociais são diferentes e precisam ser considerados antes de qualquer paralelo. Ainda assim, Trevisan utiliza a referência para chamar atenção para fenômenos contemporâneos que, segundo sua leitura, merecem acompanhamento, como insatisfação com instituições, fragmentação política e fortalecimento de movimentos radicais em diferentes partes do mundo. Além disso, a velocidade atual de circulação das informações cria uma característica inexistente naquele período histórico: acontecimentos políticos podem alcançar milhões de pessoas quase instantaneamente. Portanto, embora a comparação ajude a ilustrar a preocupação do professor, ela não permite concluir que o Brasil ou outros países estejam necessariamente repetindo a trajetória política dos anos 1930.
Eleição “apática” coloca representatividade no centro do debate
Por fim, a análise de que Trevisan: Eleição “apática” deixa milhões sem representação combina três fenômenos apontados pelo professor: frustração econômica e política acumulada, transformação digital e perda de identificação de parte da sociedade com instituições tradicionais. Ao mesmo tempo, a crise recente do STF teria absorvido uma parcela significativa da atenção pública justamente quando a campanha entra em sua fase decisiva. Os dados disponíveis ajudam a dimensionar alguns componentes desse cenário, como o aumento de dez pontos percentuais na parcela dos entrevistados pela Quaest que declarou não confiar no Supremo e a presença da internet em 95% dos domicílios brasileiros. Entretanto, esses indicadores não comprovam, por si sós, uma apatia generalizada nem permitem determinar como os brasileiros votarão. A caracterização da eleição como “apática” continua sendo uma interpretação de Trevisan. Dessa forma, a questão levantada pelo historiador é menos sobre prever o resultado das urnas e mais sobre entender se as instituições e candidaturas conseguem representar as expectativas de uma sociedade profundamente transformada econômica, social e digitalmente.





