Geral

Sistema usado por Moraes teria editado documento entre escritório da mulher do ministro e Vorcaro

Alexandre de Moraes aparece nos registros técnicos de um contrato de R$ 131,2 milhões firmado entre o escritório de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, e Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master. Segundo dados extraídos pela Polícia Federal do celular do banqueiro, uma versão do documento foi aberta e modificada em janeiro de 2024 por um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”. A revelação acrescenta um novo elemento ao caso Master e coloca sob análise a participação do ministro na formalização de um acordo milionário entre sua esposa e um empresário que posteriormente se tornou alvo de investigação.

A informação foi divulgada pelo Estado de Minas a partir de dados obtidos pelo jornal O Estado de S. Paulo, e os registros mostram que o documento teria sido alterado às 23h04 de 15 de janeiro de 2024. A movimentação ocorreu cerca de uma hora e quarenta minutos depois de Vorcaro devolver a minuta à advogada com uma alteração específica em uma das cláusulas. Embora o registro técnico associe a edição ao perfil identificado com o nome do ministro, ainda é necessário estabelecer em que circunstâncias o arquivo foi acessado e quais alterações efetivamente foram realizadas.

O contrato começou a ser negociado poucos dias antes, quando Viviane enviou a Vorcaro uma minuta para análise, e o banqueiro posteriormente devolveu o arquivo com uma sugestão de mudança. A versão final previa 36 pagamentos mensais de R$ 3 milhões líquidos, enquanto os tributos previstos no próprio documento elevariam o valor bruto total para aproximadamente R$ 131,27 milhões. O episódio ganhou ainda mais relevância porque o acordo envolvia um escritório pertencente à esposa de um ministro do Supremo Tribunal Federal e um banqueiro que hoje está no centro de uma investigação de grande repercussão.

Moraes aparece em contrato milionário do Banco Master

De acordo com os metadados analisados pela investigação, o arquivo devolvido por Vorcaro foi posteriormente aberto em um sistema Office 365 associado ao perfil “Ministro Alexandre de Moraes”. O registro não significa automaticamente que o ministro tenha negociado pessoalmente os honorários ou decidido o conteúdo comercial do contrato, mas demonstra que um arquivo relacionado ao acordo passou por uma conta identificada com seu nome. Por isso, a circunstância passou a ser considerada relevante para o esclarecimento da relação entre Moraes, sua esposa e o Banco Master.

O escritório Barci de Moraes confirmou que Alexandre de Moraes teve acesso ao contrato antes da assinatura, mas apresentou uma justificativa diferente para essa participação. Segundo a banca, o setor de compliance consultou o ministro, na condição de marido da sócia-diretora, para verificar se existiam impedimentos legais relacionados à contratação, incluindo eventual atuação do magistrado em processos envolvendo o possível cliente. A explicação apresentada é que, depois dessa análise, teria sido constatada a inexistência de impedimento e o contrato acabou sendo assinado.

A justificativa também estabelece uma distinção importante entre ter conhecimento do documento e participar diretamente da negociação comercial. O escritório afirma que Moraes jamais julgou uma causa envolvendo o Banco Master e que os serviços contratados foram efetivamente prestados durante aproximadamente um ano e nove meses. Ainda assim, a presença do ministro nos registros do documento passou a levantar questionamentos sobre a extensão de seu envolvimento na contratação e sobre os cuidados adotados para evitar qualquer situação de conflito de interesses.

Contrato de R$ 131 milhões aumenta pressão no caso Master

O contrato previa pagamentos mensais e serviços jurídicos relacionados a diferentes áreas, conforme informações divulgadas anteriormente pelo escritório. A banca afirmou ter realizado 94 reuniões de trabalho durante o período de vigência do acordo, sendo 79 delas presencialmente na sede do Banco Master, além da elaboração de pareceres e opiniões legais sobre temas regulatórios, trabalhistas, previdenciários, de proteção de dados e crédito. O vínculo foi encerrado após a liquidação extrajudicial do Banco Master determinada pelo Banco Central em novembro de 2025.

A Polícia Federal encontrou o contrato no celular de Daniel Vorcaro durante a investigação relacionada à Operação Compliance Zero, e os metadados passaram a ser examinados como parte do conjunto de elementos apreendidos. Paralelamente, mensagens atribuídas ao banqueiro indicam que ele teria procurado Alexandre de Moraes para tratar de possíveis ações de autoridades contra o Banco Master. A combinação desses fatos elevou a importância da análise sobre os contatos entre Vorcaro e o ministro, embora cada elemento ainda precise ser avaliado individualmente e dentro de seu contexto.

O caso também ganhou uma dimensão institucional porque André Mendonça, relator da investigação no Supremo, solicitou informações à Polícia Federal sobre as mensagens encontradas no aparelho de Vorcaro. A Procuradoria-Geral da República foi chamada a se manifestar sobre o material, enquanto a identificação de Moraes como possível interlocutor passou a ser considerada nas novas diligências. Dessa forma, o contrato milionário deixou de ser apenas uma questão relacionada à atividade profissional do escritório de Viviane e passou a integrar um conjunto mais amplo de fatos que envolvem o ministro e o banqueiro.

O que o registro de Moraes pode significar

Os metadados de um arquivo são informações técnicas que podem registrar autoria, edição, horário e outros dados relacionados à manipulação de um documento, mas sua interpretação exige cautela. O fato de o perfil “Ministro Alexandre de Moraes” aparecer como responsável por uma alteração não permite concluir sozinho qual foi o conteúdo modificado ou qual foi a finalidade da edição. Por isso, será necessário confrontar os dados técnicos com as diferentes versões do contrato, os registros de comunicação e os demais elementos obtidos pela investigação.

A revelação, entretanto, aumenta a pressão por esclarecimentos sobre um contrato de valor expressivo envolvendo o escritório da esposa de um ministro do STF e um banqueiro investigado em um caso de grande repercussão. A explicação apresentada pela banca indica que Moraes teria sido consultado para verificar eventuais impedimentos legais antes da contratação, enquanto os registros técnicos mostram que um perfil associado ao ministro acessou e modificou o documento. O esclarecimento definitivo dependerá da análise integral dos arquivos e das demais provas, sem que as informações divulgadas até agora permitam afirmar, isoladamente, que houve irregularidade.

O episódio representa mais um capítulo delicado da investigação sobre o Banco Master e coloca Alexandre de Moraes no centro de novos questionamentos. A existência do contrato e a participação profissional do escritório da esposa já eram conhecidas, mas o registro técnico associado ao perfil do ministro acrescenta uma informação nova sobre o processo de elaboração do documento. Agora, a expectativa está concentrada na análise das autoridades responsáveis pela apuração, que deverão determinar se os novos dados representam apenas uma consulta relacionada a possíveis impedimentos ou se exigem investigação mais aprofundada sobre a relação entre Moraes e Vorcaro.

Mostrar mais

Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *