Vorcaro se reuniu com Gilmar antes de disputa bilionária; veja como ministro votou

Vorcaro procurou Gilmar por apoio a pauta bilionária; ministro votou contra
Vorcaro procurou Gilmar por apoio a uma causa de elevado impacto financeiro envolvendo precatórios de empresas do setor sucroalcooleiro, segundo reportagem publicada nesta sexta-feira (18). Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, participou de uma audiência com o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), em 11 de abril de 2024, no gabinete do magistrado, em Brasília. O encontro contou também com advogados ligados ao banco e ocorreu em ambiente institucional, conforme esclarecimento divulgado pelo próprio ministro. Naquele período, o Master possuía interesse econômico em créditos vinculados a empresas do setor, o que tornava decisões do Supremo relevantes para a carteira mantida pela instituição financeira. Entretanto, um ponto fundamental modifica a interpretação sobre o episódio: apesar da audiência, Gilmar votou posteriormente contra a posição que beneficiaria os interesses econômicos associados ao banco nos processos mencionados por seu gabinete. Portanto, a existência da reunião demonstra que houve acesso institucional ao ministro, mas, isoladamente, não comprova favorecimento ou influência indevida sobre suas decisões.
Vorcaro procurou Gilmar por apoio em disputa envolvendo precatórios
A causa discutida envolvia indenizações reivindicadas por empresas sucroalcooleiras em razão de políticas de controle de preços adotadas décadas atrás. Em termos simples, determinadas usinas sustentavam ter sofrido prejuízos porque preços foram fixados pelo poder público abaixo dos custos de produção e, por isso, buscavam reparações da União. Parte desses direitos havia sido transformada em precatórios ou créditos negociados no mercado. O Banco Master mantinha bilhões de reais vinculados a esse segmento, de modo que decisões favoráveis às empresas poderiam preservar ou aumentar o valor econômico desses ativos. Por outro lado, uma derrota das usinas poderia reduzir significativamente a expectativa de recebimento. Segundo a reportagem, uma estimativa da Advocacia-Geral da União calculava em aproximadamente R$ 145 bilhões o impacto potencial atualizado do conjunto das indenizações não pagas ao setor. Dessa forma, embora a reunião tratasse de um processo específico, a controvérsia jurídica possuía consequências econômicas muito mais amplas para empresas, investidores e, sobretudo, para os cofres públicos.
Gilmar confirma audiência no STF e destaca caráter institucional
Depois da divulgação do encontro, Gilmar Mendes confirmou que a audiência ocorreu em 11 de abril de 2024, às 18h, em seu gabinete na sede do Supremo. Segundo sua manifestação, advogados do Banco Master participaram da reunião, na qual foi discutido o ARE 1.327.995, processo relatado por Edson Fachin e relacionado à Destilaria Alcídia S/A. O gabinete ressaltou, além disso, que o recebimento de advogados por magistrados é uma prerrogativa prevista no Estatuto da Advocacia. A informação é relevante porque uma audiência entre advogado e ministro, por si só, não demonstra irregularidade. Ao mesmo tempo, quando uma instituição possui interesse econômico significativo no resultado de um processo, a existência da reunião naturalmente ganha interesse público e jornalístico. Por isso, dois elementos precisam ser considerados simultaneamente: o encontro foi confirmado e o assunto possuía importância financeira para o Master; contudo, não foi demonstrado apenas pela realização da audiência que Gilmar tenha assumido compromisso de votar favoravelmente ao banco. Pelo contrário, o comportamento posterior do ministro nos julgamentos apontados por seu gabinete seguiu direção oposta.
Ministro votou contra interesse associado ao Banco Master
No processo da Destilaria Alcídia, o resultado fornece um dado objetivo para avaliar o que aconteceu depois da audiência. Em 3 de junho de 2025, a Segunda Turma rejeitou, por maioria, embargos analisados no ARE 1.327.995. Gilmar Mendes e André Mendonça ficaram vencidos, enquanto prevaleceu o entendimento conduzido pelo relator Edson Fachin e acompanhado pela maioria. De acordo com a nota divulgada pelo gabinete de Gilmar, seu voto foi contrário ao pagamento do precatório e seguiu a posição defendida pela União, resultado que contrariava o interesse econômico atribuído ao Banco Master. O andamento oficial do STF confirma que Gilmar e Mendonça foram os votos vencidos naquela decisão. Além disso, o ministro afirmou ter adotado posicionamento semelhante em outros processos relacionados ao setor sucroalcooleiro. Consequentemente, a formulação “Vorcaro procurou Gilmar por apoio” descreve a finalidade atribuída à aproximação pela reportagem, enquanto o registro dos julgamentos mostra que essa aproximação não resultou em voto favorável do ministro na causa destacada.
Chiquinho Feitosa aparece como intermediário do encontro
Outro personagem mencionado na apuração é o empresário Francisco Feitosa, conhecido como Chiquinho Feitosa, ex-cunhado de Gilmar Mendes. Segundo as reportagens, ele teria ajudado na aproximação entre Vorcaro e o ministro. Gilmar, entretanto, declarou que não tinha conhecimento de eventuais tratativas privadas entre Chiquinho e o ex-controlador do Banco Master e afirmou que não responde por relações profissionais ou particulares de ex-parentes. Reportagem publicada nesta sexta-feira também informa que Chiquinho foi contratado por Vorcaro em 2024 para prestar consultoria relacionada a assuntos de interesse empresarial, circunstância que ampliou a atenção sobre suas conexões com o ex-banqueiro. Ainda assim, parentesco anterior, consultoria empresarial ou intermediação de uma agenda não demonstram, isoladamente, interferência em decisão judicial. Para estabelecer eventual irregularidade seria necessário identificar conduta concreta, nexo entre a atuação realizada e determinada decisão e outros elementos probatórios. Portanto, a distinção entre relações documentadas e conclusões sobre favorecimento é essencial para uma análise equilibrada do episódio.
Outros julgamentos também foram citados na resposta de Gilmar
O gabinete do ministro apresentou outros processos para sustentar que seu posicionamento jurídico permaneceu contrário aos interesses atribuídos ao Master. No ARE 1.312.127, envolvendo a Raízen, Gilmar votou contra o pagamento do precatório, e a União saiu vencedora no julgamento realizado em setembro de 2024. No ARE 1.392.660, relacionado à Jalles Machado, o ministro também afirmou ter votado contra o pagamento à empresa em diferentes oportunidades. Além disso, no ARE 1.500.251, outro processo da Raízen, foi solicitado destaque por Gilmar em agosto de 2025, interrompendo o julgamento virtual. Seu gabinete também citou a STP 976-ED, envolvendo precatório superior a R$ 5 bilhões, e declarou que o magistrado se posicionou contra a liberação dos valores. Assim, a resposta pública buscou estabelecer uma separação entre duas situações: de um lado, a audiência concedida a Vorcaro e advogados do Banco Master; de outro, os votos efetivamente proferidos pelo ministro. Essa distinção é central porque acesso a um gabinete e resultado de julgamento são fatos diferentes e precisam ser analisados separadamente.
Vorcaro procurou Gilmar por apoio, mas encontro não demonstra favorecimento
Por fim, o episódio adiciona uma nova informação ao debate sobre as relações mantidas por Daniel Vorcaro com integrantes e pessoas próximas ao Judiciário, mas exige cautela na interpretação. Está documentado que a audiência com Gilmar ocorreu no STF, em abril de 2024, e que uma causa ligada ao setor sucroalcooleiro foi discutida. Também foi relatado que o Banco Master possuía bilhões de reais em créditos cuja valorização dependia de decisões favoráveis às empresas do segmento. Entretanto, os registros apresentados até agora mostram que Gilmar votou contra a posição que beneficiaria esses interesses no processo destacado e, segundo seu gabinete, manteve orientação semelhante em outros casos. Dessa maneira, Vorcaro procurou Gilmar por apoio, conforme a finalidade atribuída ao encontro pela reportagem, mas isso não significa que o apoio tenha sido concedido. Além disso, nenhuma conclusão sobre irregularidade pode ser extraída somente da audiência. O aspecto de maior interesse público está justamente no contraste entre a tentativa de interlocução relatada, o enorme impacto econômico das causas e os votos posteriormente proferidos pelo ministro, elementos que deverão continuar sendo analisados separadamente conforme novas informações sejam documentadas.





