PF revela convites de André Mendonça a Daniel Vorcaro

Material extraído pela Polícia Federal do celular do banqueiro Daniel Vorcaro traz à tona uma série de contatos e convites ligados ao Instituto Iter, entidade fundada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Os registros incluem também agendamentos de encontros diretos com “ministro André”, todos ocorridos antes de Mendonça assumir a relatoria das investigações sobre o Banco Master. A cronologia das interações levanta questionamentos sobre os critérios de atuação interna da Corte diante de possíveis conflitos de interesse quando um magistrado mantém vínculos com pessoas que depois figuram em processos sob sua responsabilidade.
Um dos convites, datado de maio de 2025, menciona nominalmente Vorcaro para participar de coquetel e debate em Belo Horizonte, no Hotel Fasano. O evento contaria com a presença de André Mendonça e do ministro do Tribunal de Contas da União Antonio Anastasia, e seria restrito a “poucos convidados selecionados pelo Iter”. Em nota, o Instituto Iter confirmou o envio do convite, mas informou que a iniciativa partiu de terceiros e que o banqueiro foi posteriormente “desconvidado”. As mensagens não esclarecem se ele chegou a participar. Um segundo convite foi enviado em julho do mesmo ano, por ocasião do lançamento da entidade em Minas Gerais.
Entre abril de 2024 e maio de 2025, também foram registradas tratativas para encontros presenciais entre Vorcaro e interlocutores ligados a Mendonça, com menções a horários, locais e a processos em tramitação no Supremo. Em fevereiro de 2025, o advogado Ciro Soares escreveu: “O A.M quer recebê-lo. E preciso agendar o quanto antes”. Embora a sigla não esteja explicitada naquela mensagem isolada, outros registros estabelecem a ligação entre Soares e contatos referentes ao ministro André Mendonça. Já em 13 de março de 2025, foi marcada reunião para o dia seguinte, às 17h, em São Paulo, com confirmação de presença e informação de que o ministro já o aguardava. O conteúdo da conversa não foi divulgado.
André Mendonça assumiu a relatoria do caso ligado ao Banco Master em fevereiro de 2026, portanto após todos os eventos e encontros mencionados. A saída formal do ministro do Instituto Iter ocorreu em 3 de setembro, sem indicação do ano. A entidade, por sua vez, firmou desde 2024 um total de 68 contratos sem licitação com órgãos públicos em 15 estados, no valor aproximado de R$ 11,5 milhões. O volume e a forma de contratação acrescentam novos elementos ao cenário de indagações sobre possíveis relações entre a atuação da instituição e decisões judiciais.
Procurado pela reportagem nesta terça-feira, 15, o ministro André Mendonça não se pronunciou. A ausência de manifestação neste momento deixa sem resposta questionamentos fundamentais: qual a natureza dos encontros, quais temas foram tratados e se a proximidade com Vorcaro foi levada em conta quando da distribuição do processo ao seu gabinete. A transparência sobre esses pontos é considerada essencial para que a sociedade confie na imparcialidade com que os casos são conduzidos dentro do mais alto tribunal do país.
A descoberta de interações prévias entre um relator e uma das figuras centrais de um processo que viria a julgar reforça a importância de regras claras e amplamente divulgadas sobre impedimentos e suspeições. O que está em jogo não é apenas um caso específico, mas a percepção geral de que nenhuma influência externa ou relação pessoal direcione decisões que afetam a vida pública. O desfecho dessas apurações servirá como referência para a credibilidade das instituições e para a confiança de milhões de brasileiros que esperam que a Justiça se paute pela lisura e pela equidade.





