Motta faz campanha paroquial e usa relação com Lula para ampliar poder na Paraíba

A praça Edivaldo Motta, em Patos, no interior da Paraíba, levou o nome do avô de Hugo Motta e, no dia 20 de agosto, lotou para receber o presidente da Câmara dos Deputados. O político apareceu com boné e adesivos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), fez o gesto conhecido e anunciou avanços para a região. Entre as promessas, a construção de um hospital de traumas que evitaria viagens de três horas até Campina Grande e a chegada da transposição do Rio São Francisco. “Recebi hoje a ligação do presidente com a autorização do Ibama para que a água não falte mais no sertão”, declarou em discurso que contrastou com a relação tensa que manteve com o governo ao longo de 2025.
Durante quase vinte minutos de fala, Hugo Motta destacou obras concretas: asfaltamento de vias, conclusão de teatro parado há quase duas décadas, ampliação de creches e investimentos na saúde. Pouco falou sobre projetos de lei e pautas legislativas que dominam a agenda em Brasília. Em entrevista no dia seguinte, na casa da avó, a ex-prefeita e atual deputada estadual Francisca, explicou a escolha: “O que mais a população cobra são entregas que melhoram a vida. A atuação em Brasília tem seu espaço, mas é pelas obras que o povo percebe o resultado”, justificou, citando pesquisa que mostra que a capacidade de trazer recursos ao estado é o fator mais valorizado pelo eleitor.
A estratégia repete-se em outras cidades. Em Juazeirinho, ao lado do pai Nabor Wanderley — que concorre ao Senado — e do governador Lucas Ribeiro (PP), o foco novamente foi em benefícios locais. O pai aparece em terceiro nas intenções de voto, mas reúne apoio de cerca de 180 dos 223 prefeitos do estado, inclusive de opositores. A força dessa rede levou candidato do MDB a recorrer à Justiça Eleitoral alegando uso indevido de poder político. Até aliados sentem o impacto: o ex-governador João Azevedo (PSB), favorito na disputa, perdeu apoios municipais para a família Wanderley.
A trajetória de Hugo Motta começou cedo. Em 2010, ainda estudante de medicina, lançou-se candidato a deputado percorrendo estradas de terra em campanhas memoráveis. Eleito com apenas 21 anos, o mais jovem da Casa, construiu alianças que o levaram à presidência da CPI da Petrobras em 2015. A mudança de partido, em 2018, permitiu assumir o comando do Republicanos na Paraíba, que cresceu de um para 50 prefeitos, tornando-se a segunda maior força política do estado. Hoje, com a presidência da Câmara, ampliou ainda mais o acesso a recursos e nomeações, consolidando influência sobre toda a região.
A aproximação com Lula é calculada. Em 2022, o presidente obteve 66,6% dos votos válidos no estado, e seu nome funciona como puxador de sufrágios. Hugo ajudou a manter partidos neutros na disputa presidencial e passou a participar de eventos no Planalto. Apesar disso, tensões persistem: o PT local não esquece os embates do ano passado, quando Motta opôs-se ao aumento de tributos e a escolha de relator de oposição para pauta de segurança pública. Lula não apoia formalmente Nabor, mas também não proíbe o uso de sua imagem.
A aliança pode ser passageira. Após a eleição, o presidente pretende reduzir o volume e a discricionariedade das emendas parlamentares — justamente o instrumento que sustenta a rede de apoios de Motta. Nesse ponto, o presidente da Câmara promete resistir. Por ora, porém, os dois caminham juntos nos palanques da Paraíba. O eleitorado acompanha essa convivência, ciente de que acordos políticos podem mudar de figura assim que as urnas fecharem. O que permanecerá, espera-se, seja o compromisso real com o desenvolvimento do interior e com a dignidade de quem vive no sertão.





