Nos bastidores há quem diga que Lula se isolou nesta campanha e que a primeira-dama ainda teria o prejudicado

A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva para o primeiro turno de 2026 terminou acompanhada por críticas de antigos integrantes do PT sobre a forma como o presidente teria se relacionado com seus aliados históricos. Segundo reportagem da colunista Adriana Negreiros, do UOL, petistas da velha guarda avaliaram que Lula esteve mais isolado durante esta campanha e cercado por interlocutores que, na visão deles, teriam menor disposição para fazer críticas diretas. O cenário ganhou ainda mais relevância depois que Lula terminou o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro na disputa pela Presidência.
Entre as reclamações apresentadas na reportagem, um nome aparece de maneira particularmente destacada: o da primeira-dama Janja. Uma queixa que circula desde antes do início do terceiro mandato petista é a de que Janja pode ter dificultado a aproximação de antigos aliados de Lula ao presidente, segundo relatos obtidos pelo UOL. Para esses petistas, a primeira-dama teria contribuído para criar um círculo de acesso mais restrito ao marido, embora essa avaliação seja contestada por pessoas próximas ao presidente.
A questão ganhou força justamente porque alguns dos antigos companheiros de Lula afirmam que, no passado, tinham maior liberdade para conversar diretamente com ele, inclusive para discordar de suas decisões. Agora, segundo esses relatos, parte desses interlocutores teria deixado de se sentir confortável para procurar o presidente, enquanto pessoas mais próximas de Janja teriam maior facilidade para chegar ao chefe do Executivo. A reportagem, portanto, coloca a influência da primeira-dama no centro de uma discussão interna sobre o acesso a Lula e sobre a maneira como sua campanha foi conduzida.
Lula e Janja: reclamações sobre o acesso ao presidente
De acordo com os petistas ouvidos pelo UOL, a insatisfação relacionada a Janja não começou durante a campanha de 2026, mas já circulava antes do início do terceiro mandato de Lula. Alguns antigos aliados chegaram a mencionar o fato de terem décadas de amizade com o presidente e, ainda assim, não terem sido convidados para o casamento dele com a primeira-dama, realizado em 2022. Para esse grupo, episódios como esse seriam sinais de uma mudança na forma como os antigos companheiros passaram a se relacionar com o presidente.
Os críticos também apontam que Janja teria facilitado o acesso de pessoas de seu círculo de amizades, enquanto antigos militantes do PT teriam encontrado mais obstáculos para conversar com Lula. Um dos nomes citados nesse contexto é o advogado Marco Aurélio de Carvalho, líder do grupo Prerrogativas e integrante da coordenação da campanha, que é descrito na reportagem como alguém com acesso privilegiado ao presidente. Carvalho, entretanto, negou que Janja tenha influência sobre uma suposta dificuldade de acesso de antigos aliados e afirmou que sua relação com Lula foi construída ao longo de décadas de militância.
Assim, a possível influência de Janja passou a ser tratada por parte dos petistas como uma das explicações para o chamado isolamento de Lula. Não se trata, porém, de uma conclusão oficial da campanha nem de uma comprovação independente de que a primeira-dama tenha deliberadamente afastado aliados do presidente. O que existe é uma queixa atribuída a integrantes históricos do PT, segundo a qual a presença de Janja no entorno presidencial pode ter dificultado a aproximação de pessoas que anteriormente tinham liberdade para aconselhar Lula.
Críticas ao isolamento de Lula durante a campanha
Além das reclamações envolvendo Janja, Edinho Silva, presidente nacional do PT e coordenador-geral da campanha, também foi alvo de críticas nos bastidores. Segundo a reportagem, integrantes do partido chegaram a acusá-lo de contribuir para o isolamento de Lula e de dedicar atenção à própria campanha para a Câmara dos Deputados. Edinho foi eleito deputado federal por São Paulo com 115.287 votos, mas rejeitou a avaliação de que o presidente estivesse isolado e afirmou que se reunia com Lula regularmente.
A existência de interlocutores tradicionais também é utilizada por aliados para contestar a ideia de que Lula teria ficado completamente afastado de seus antigos companheiros. Gilberto Carvalho e Paulo Okamoto participaram da campanha, enquanto Aloizio Mercadante passou a auxiliar Lula em questões econômicas, e o presidente manteve conversas com nomes como Fernando Haddad, Camilo Santana, Rui Costa e Jaques Wagner. Portanto, a controvérsia não está relacionada à ausência absoluta de aliados históricos, mas à percepção de alguns deles de que seu espaço de influência teria diminuído.
Outro ponto levantado pelos críticos foi a relação de Lula com a militância durante as atividades eleitorais. Um coordenador de uma campanha presidencial anterior do petista, ouvido sob anonimato, afirmou ao UOL que o chamado “encastelamento” do presidente teria consequências para a mobilização dos apoiadores. Também foram relatadas reclamações de candidatos que receberam Lula em suas cidades e, segundo dirigentes petistas, não tiveram seus nomes mencionados nos palanques.
Janja volta ao centro das críticas no segundo turno
O resultado do primeiro turno aumentou a importância desse debate interno porque Lula terá de disputar uma nova votação contra Flávio Bolsonaro em 25 de outubro. Na primeira etapa, Flávio terminou com cerca de 56,1 milhões de votos, enquanto Lula registrou aproximadamente 53,9 milhões, deixando o candidato do PL à frente na apuração nacional. Diante desse cenário, a organização da campanha, a comunicação com a militância e a capacidade de Lula de receber críticas e diferentes opiniões passaram a ser questões relevantes para a nova etapa eleitoral.
A possibilidade de Janja ter contribuído para dificultar o acesso de antigos aliados a Lula é, portanto, um dos pontos mais sensíveis apresentados pelos petistas históricos ouvidos pelo UOL. Para esse grupo, a redução da interlocução direta pode ter deixado o presidente mais protegido de críticas justamente em uma campanha na qual decisões, discursos e estratégias estavam sendo submetidos à avaliação dos eleitores. Ao mesmo tempo, aliados de Lula contestam a ideia de isolamento e afirmam que ele continua ouvindo diferentes opiniões antes de tomar suas decisões.
O debate deverá continuar durante o segundo turno, especialmente porque o próprio Lula reconheceu, após o resultado de domingo, que a campanha entrará em uma nova fase. As críticas internas mostram que, além da disputa eleitoral contra Flávio Bolsonaro, o núcleo petista também enfrenta uma discussão sobre acesso, interlocução e participação de antigos aliados nas decisões do presidente. Nesse contexto, a atuação de Janja permanece no centro das reclamações de parte da velha guarda do PT, que sustenta que sua influência no entorno presidencial pode ter dificultado a aproximação de pessoas que historicamente aconselharam Lula.





