Lideranças do PT querem o afastamento do ministro Kassio Nunes Marques, alegando que ele tem prejudicado Lula

A possibilidade de o Partido dos Trabalhadores pedir o afastamento do ministro Kassio Nunes Marques de julgamentos eleitorais envolvendo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva perdeu força após representantes do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral sinalizarem que não apoiariam a iniciativa. A informação foi publicada pela coluna de Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, nesta quarta-feira, 14 de outubro de 2026. A discussão ocorreu em meio ao aumento das disputas judiciais entre as campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro durante a corrida presidencial.
Dirigentes petistas e integrantes da campanha à reeleição avaliavam apresentar um pedido de suspeição contra Kassio, atual presidente do TSE, por discordarem de decisões relacionadas à propaganda eleitoral. Na avaliação de setores do partido, algumas determinações do magistrado estariam favorecendo Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência e adversário de Lula no segundo turno. O ministro, indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro em 2020, afirma que suas decisões seguem os critérios jurídicos adotados pela Justiça Eleitoral e nega atuar em benefício de qualquer candidatura.
A principal decisão citada pelos petistas envolveu o canal de WhatsApp Exército do Lula, criado pelo deputado federal André Janones, do PT de Minas Gerais. Kassio determinou a suspensão temporária do perfil por 48 horas, medida que provocou reação de integrantes da campanha governista e ampliou as críticas à condução de processos eleitorais pelo presidente do TSE. O caso passou a integrar o conjunto de episódios que alimentaram o debate interno sobre a conveniência de contestar formalmente a atuação do ministro.
Por que o PT desistiu de avançar com a contestação
Segundo a coluna de Mônica Bergamo, a maioria das lideranças partidárias e dos advogados envolvidos na discussão passou a considerar que um pedido de suspeição teria poucas chances de prosperar. A sinalização recebida de integrantes do STF e do TSE foi de que não haveria apoio suficiente para retirar Kassio dos julgamentos relacionados ao PT e a Lula. Diante desse cenário, a iniciativa perdeu força, embora não tenha sido completamente descartada por todos os integrantes da campanha.
A estratégia inicialmente discutida previa que o pedido fosse apresentado ao próprio Kassio Nunes Marques, que teria de analisar a contestação contra sua permanência nos processos. Caso o ministro rejeitasse a solicitação, os petistas consideravam recorrer ao plenário do TSE e buscar outras alternativas jurídicas para questionar a concentração de decisões nas mãos da presidência da Corte. A avaliação, porém, era de que essa sequência dificilmente produziria o resultado desejado, sobretudo diante das manifestações de outros magistrados.
Outro fator considerado pelos articuladores foi o possível custo político de abrir uma nova frente de confronto com o Judiciário durante a campanha eleitoral. Na avaliação de parte do PT, insistir na iniciativa poderia deslocar a discussão pública para uma crise institucional e tirar o foco das propostas e dos movimentos eleitorais de Lula. Por isso, lideranças passaram a defender cautela, em vez de formalizar imediatamente uma contestação que poderia terminar rejeitada pelos próprios tribunais.
Mudança na composição do TSE também pesou na decisão
A alteração recente na composição do Tribunal Superior Eleitoral também entrou nas discussões internas do partido. O ministro Antônio Carlos Ferreira encerrou seu mandato na Corte e foi substituído por Sebastião Reis, mudança que modificou a correlação de forças entre os integrantes do tribunal. Segundo a reportagem da Folha, essa nova configuração reduziu parte do incentivo para avançar com a tentativa de afastamento de Kassio.
O debate ocorre em um momento de intensificação das ações judiciais relacionadas à propaganda política, às publicações em redes sociais e à circulação de conteúdos sobre os candidatos. As campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro têm recorrido à Justiça Eleitoral para questionar materiais divulgados por adversários, enquanto decisões individuais de ministros provocam reações de aliados e críticos das duas candidaturas. Nesse ambiente, a atuação do presidente do TSE passou a ocupar lugar central nas discussões sobre os limites da intervenção judicial durante a eleição.
Apesar do recuo, a hipótese de apresentar o pedido de suspeição não foi totalmente abandonada por todos os integrantes da campanha petista. Alguns defendem que a medida poderia servir para registrar formalmente a insatisfação com as decisões de Kassio e demonstrar a dimensão do desconforto dentro do partido. A reportagem também informa que o ministro rejeita a acusação de favorecer uma candidatura e considera as críticas tentativas de intimidação, sustentando que suas deliberações seguem padrões decisórios da Corte.
Disputa judicial continua no centro da campanha presidencial
A controvérsia envolvendo Kassio Nunes Marques reflete a importância que as decisões da Justiça Eleitoral adquiriram na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Além das discussões sobre o canal Exército do Lula, os tribunais têm analisado pedidos relacionados a publicações, propaganda e conteúdos considerados irregulares pelas campanhas. O volume de processos e as reações às decisões individuais ampliaram a tensão política na reta final do segundo turno.
Na prática, o recuo do PT indica que a tentativa de afastar o presidente do TSE deixou de ser uma prioridade imediata para a maioria dos responsáveis pela estratégia jurídica do partido. A possibilidade ainda poderá ser discutida, mas enfrenta resistência de integrantes da própria legenda e a perspectiva de não obter apoio nos tribunais superiores. Enquanto isso, a atuação de Kassio e os questionamentos apresentados pelas campanhas devem continuar no debate eleitoral, em meio à disputa por espaço nas redes sociais e nos meios de comunicação.





