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A alta cúpula da campanha de Flávio Bolsonaro tem criticado Pablo Marçal e querem ele distante do senador

A relação entre Flávio Bolsonaro e Pablo Marçal entrou em uma fase de maior tensão justamente na reta final da eleição presidencial. O empresário, que havia sido incorporado à campanha para ajudar na mobilização das redes sociais e ampliar o alcance do candidato, passou a ser visto com mais cautela por integrantes do núcleo político do senador. Nesse cenário, três fatores principais explicam o afastamento gradual: a percepção de que Marçal estaria ocupando espaço excessivo, sua elevada rejeição entre os eleitores e declarações recentes que provocaram desconforto dentro da própria campanha.

A mudança de postura ocorre poucos dias antes do debate da TV Globo, marcado para sexta-feira (23), quando Flávio terá uma das últimas grandes oportunidades de se apresentar ao eleitorado antes do segundo turno. Marçal foi excluído do treinamento específico para o confronto, em uma decisão que sinaliza uma tentativa de reduzir sua influência sobre o candidato e colocar a preparação sob o comando de integrantes mais próximos da estrutura tradicional da campanha. Além disso, a avaliação passou a ser de que os ganhos obtidos com a comunicação agressiva de Marçal podem não compensar os riscos provocados por sua exposição pública.

A situação ganhou importância ainda maior depois da divulgação da nova pesquisa Quaest, realizada entre 17 e 20 de outubro. O levantamento mostrou Flávio com 45% das intenções de voto contra 44% de Lula, em empate técnico, enquanto a rejeição ao candidato do PL ficou em 52%, contra 47% do presidente, diferença que pode pesar na disputa entre eleitores indecisos. Portanto, em uma eleição tão apertada, qualquer aliado que possa ampliar ou aumentar a rejeição da candidatura passou a ser analisado com atenção redobrada pela equipe de Flávio.

Primeiro motivo: Marçal passou a ocupar espaço demais

O primeiro motivo apontado nos bastidores é a percepção de que Pablo Marçal teria ultrapassado o papel de colaborador da campanha e começado a se comportar como uma das principais figuras da disputa presidencial. Integrantes da equipe de Flávio demonstraram incômodo, por exemplo, com a agenda realizada com artistas sertanejos nesta semana, porque a atuação de Marçal teria transmitido a impressão de que ele era o responsável pelo encontro, embora Flávio também tivesse participação direta na articulação. Dessa maneira, a presença excessiva do influenciador passou a ser vista como um problema de imagem, principalmente porque a campanha precisa reforçar a liderança do próprio candidato na reta final.

A preocupação não está apenas na exposição pública, mas também na possibilidade de que as mensagens transmitidas por Marçal acabem se confundindo com a posição oficial de Flávio. Durante o primeiro turno, sua capacidade de comunicação nas redes sociais foi considerada útil para ampliar o alcance da candidatura, sobretudo entre públicos mais jovens e altamente conectados. Entretanto, no segundo turno, quando cada declaração pode interferir diretamente na tentativa de conquistar votos adicionais, a campanha passou a demonstrar preferência por uma comunicação mais centralizada e controlada.

Esse movimento também está relacionado ao debate da Band, realizado no último domingo, quando Flávio adotou uma postura agressiva diante de Lula e chamou atenção por gestos e respostas provocativas. A estratégia inicialmente foi considerada positiva por setores da campanha, mas avaliações posteriores com eleitores indicaram que parte do público interpretou o comportamento de maneira negativa, aumentando a pressão para que o candidato apresente uma imagem diferente na Globo. Assim, a influência de Marçal passou a ser associada não somente à mobilização digital, mas também a uma estratégia de confronto que agora é considerada arriscada por integrantes da própria equipe.

Segundo motivo: rejeição elevada de Pablo Marçal preocupa a campanha

O segundo fator é eleitoral e envolve diretamente o índice de rejeição associado a Pablo Marçal. A avaliação dentro da campanha é de que uma figura política com alto nível de resistência entre os eleitores pode ajudar a mobilizar a base mais fiel, mas também dificultar a aproximação com pessoas que ainda não decidiram definitivamente seu voto. Essa preocupação se torna ainda mais relevante porque Flávio precisa ampliar sua vantagem entre os eleitores e, ao mesmo tempo, reduzir a resistência ao próprio nome.

A pesquisa Quaest divulgada em 21 de outubro mostra como o cenário permanece extremamente competitivo. Flávio aparece numericamente à frente, com 45%, enquanto Lula registra 44%, mas a diferença está dentro da margem de erro de dois pontos percentuais, e a rejeição do candidato do PL permanece em 52%, contra 47% do petista. Portanto, embora a pesquisa não permita concluir que a presença de Marçal seja responsável pelo índice de rejeição de Flávio, os números ajudam a explicar por que a campanha demonstra preocupação com qualquer associação capaz de aumentar a resistência ao candidato.

Além disso, o levantamento mostra que a margem de segurança dos dois candidatos é pequena e que a decisão poderá ser influenciada por mudanças de comportamento nos últimos dias. A rejeição de Lula caiu seis pontos em uma semana, enquanto a de Flávio oscilou dois pontos para baixo, dentro da margem de erro, deixando o senador com índice de rejeição cinco pontos superior ao do adversário. Nesse contexto, a campanha tende a buscar uma imagem mais abrangente para Flávio, reduzindo a exposição de personagens que podem ser rejeitados por parcelas importantes do eleitorado.

Terceiro motivo: declarações contra eleitores de Renan Santos

O terceiro motivo envolve declarações recentes de Marçal sobre os eleitores de Renan Santos, candidato do Missão que ficou fora do segundo turno e decidiu adotar posição de neutralidade na disputa presidencial. Em entrevista ao podcast IronTalks TV, Marçal afirmou que quem havia votado em Renan poderia manter o voto, anulá-lo ou colocá-lo onde quisesse, em uma declaração interpretada como desdém pelos eleitores que poderiam ser disputados por Flávio. O episódio gerou repercussão justamente quando a campanha precisa tentar conquistar votos de candidatos derrotados e ampliar sua base eleitoral.

A situação ficou ainda mais delicada porque Marçal também fez outras declarações agressivas contra Renan Santos, ampliando o conflito público entre os dois. Em um episódio relatado pela imprensa, o empresário chegou a comparar o ex-candidato a Adolf Hitler, enquanto Renan respondeu com ironias direcionadas à atuação de Marçal na equipe de Flávio. Para a campanha, esse tipo de confronto pode dificultar a construção de pontes com eleitores de outras candidaturas e criar um desgaste desnecessário justamente na fase em que cada grupo de votos pode ser decisivo.

Por isso, a decisão de reduzir a participação de Marçal não deve ser interpretada necessariamente como um rompimento político entre ele e Flávio Bolsonaro. O que está sendo buscado é uma separação maior entre a imagem do candidato e a comunicação de um aliado que, apesar de ter contribuído para ampliar a presença digital da campanha, passou a produzir episódios considerados potencialmente prejudiciais. Dessa forma, a estratégia para os últimos dias tende a privilegiar Flávio como protagonista, enquanto sua equipe procura combinar firmeza contra Lula, maior controle das mensagens e uma postura capaz de dialogar com eleitores que ainda podem definir o resultado do segundo turno.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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